• Terça-feira, 17 Abril 2012 / 15:31

CPI do Submundo

                                               Eliane Cantanhêde*

A CPI dos Bingos, de 2005, mirou no que viu e acertou no que não viu. A proposta era rastrear velhas propinas de um bicheiro para Waldomiro Diniz, braço direito do braço direito de Lula, José Dirceu. A coisa saiu do controle e acabou derrubando o ministro da Fazenda, Antonio Palocci. O relatório da CPI foi aguado, mas o resultado prático, demolidor: dois coelhos (de Lula) com uma cajadada só.
A CPI do Cachoeira vai no mesmo rumo de abrir demais o leque de investigados e de investigações. Ou não dá em nada, ou pode dar grandes sustos. O PT quis, o PMDB deu a maior força, Lula adorou a chance de empurrar os adversários para o banco dos réus e desviar os holofotes do mensalão. Até que Dilma acordou.
Um cacique de oposição ironiza que “CPI, até contra o Santo Sudário, só é boa para a oposição”. Um ministro diz que “CPI só interessa à imprensa”. Outro avisa que “o governo abrange 8,5 milhões de quilômetros quadrados, nunca se sabe o que pode aparecer”. E todos temem o manancial de surpresas da empresa Delta.
Em comum, as CPIs dos Bingos e do Cachoeira têm um nome, um apelido e um método: Carlos Augusto Ramos, empresário, vulgo Carlinhos Cachoeira, bicheiro. Ele foi o foco da primeira e está sendo o da segunda, mas acabou preso pela Polícia Federal. Com um arsenal explosivo.
Todas as atenções estão nas fitas da PF, que tragaram Demóstenes Torres, do DEM, mas há as do próprio Cachoeira, que explodiram Waldomiro e geraram o primeiro escândalo do governo Lula, em 2004. O PT e Lula comemoram o pacote da PF, mas devem se preocupar com o ainda não sabido pacote Cachoeira.
O advogado do bicheiro é o ex-ministro de Lula Márcio Thomaz Bastos. Na dupla condição de defender o réu e evitar que ele saia do controle? A CPI dos Bingos virou a “CPI do fim do mundo”, e a do Cachoeira, a “CPI do submundo” -porque o submundo está em toda parte.
*Eliane Cantanhêde é colunista da ‘Folha’.

  • Quarta-feira, 29 Fevereiro 2012 / 13:07

Crivella é o novo ministro da Pesca

      O agora ex-ministro Luiz Sergio não serve mesmo para nada.
No início do governo, quando o chefe da Casa Civil era o poderoso Antonio Palocci, escolheram ele para ser o ministro da articulação política.
Era fraquíssimo, e por isso mesmo foi o escolhido.
Na pasta ficou conhecido como o ministro-garçom: “Só anoto os pedidos”, dizia ele.
Com a queda de Palocci, Luiz Sergio caiu junto, mas ficou com o ministério da Pesca.
Hoje, finalmente, foi defenestrado.
Não fará nenhuma falta.

  • Segunda-feira, 02 Janeiro 2012 / 11:34

O que faz o ministro Luiz Sergio?

      Passado um ano do governo Dilma, o que faz o ministro Luiz Sergio?
No início ele era apenas uma alegoria.
Cuidava do Ministério das Relações Institucionais, num governo onde o chefe da Casa Civil chamava-se Antonio Palocci.
Luiz Sergio era nada. Absolutamente nada.
Ele mesmo dizia que “só anotava os pedidos”.
Era uma espécie de ministro-garçom.
                          * * *
Com a queda de Palocci, Luiz Sergio foi deslocada para o Ministério da Pesca.
O que faz agora?
O mesmo dos que frenquetam seu ministério. Ou sua praia.
No caso os peixes… Nada.
                          * * *
Mas bem que poderia ser investigado, o que mudou na vida dos pescadores de Angra.
Seu reduto eleitoral.

  • Segunda-feira, 11 Abril 2011 / 12:39

Ary Barroso e Ana de Hollanda

     A ministra da Cultura, Ana de Hollanda, completa hoje 100 dias de governo – ela assumiu a Pasta dois dias depois da Presidenta Dilma Rousseff.
Para ela, problemas é o que não faltam.
Uns são velhos conhecidos; alguns ela está tomando conhecimento; e outros a ministra nem vislumbra.
                                                         * * *
Entre os conhecidos, tem um de fácil solução: a edição dos 20 CDs reunindo a obra completa de Ary Barroso, trabalho realizado pelo pesquisador Omar Jubran, e que há oito anos aguarda patrocínio.
                                                        * * *
No Governo Lula, o então ministro da Cultura, Gilberto Gil, declarou 2003 como o “Ano Ary Barroso”, quando comemorava-se o centenário de nascimento de um dos mais importantes compositores do país. Foi designada uma Comissão Nacional para organizar os festejos, e a assinatura do decreto presidencial foi seguido de festa no Palácio do Planalto, com a presença de acadêmicos, artistas e políticos. Na ocasião foi feita a apresentação do logotipo do centenário, assinado pelo cartunista Ziraldo Alves Pinto.
Gil abandonou a Mesa Diretora durante a solenidade, e cantou com a dupla Célio e Marcos e mais as gêmeas Célia e Celma, a imortal ‘Aquarela do Brasil’.
Em 2003, o trabalho de Omar Jubran já estava concluído. Ele reuniu mais de 300 gravações originais da totalidade das músicas compostas por Ary.
E o que desejava era compartilhar, com o restante do país, essa obra monumental.
                                                        * * *
Sabem o que ele ganhou da tal Comissão Nacional?
Um diploma de Honra ao Mérito, assinado pelo vice-presidente José Alencar – mineiro como Ary – pelo trabalho realizado.
                                                         * * *
Em dezembro do ano passado, Omar Jubran fez uma palestra, na Casa de Ruy Barbosa e, na platéia lotada, ele foi aparteado por uma fã que conhecia, em detalhes, o seu trabalho. Era Ana de Hollanda que, agora, como ministra da Cultura, tem a faca e o queijo na mão para bancar a obra que o país tanto  merece.
Na posse do ministro Antonio Palocci,  Ana de Hollanda disse a um repórter que, como ministra da Cultura, não teria mais como responsabilizar terceiros por deixar o trabalho de Omar Jubran na gaveta. Essa seria uma prioridade. Mas nada foi feito.
Pelo bem da Cultura do Brasil, a ministra Ana de Hollanda bem que poderia ocupar apenas 100 minutos de um só dia de trabalho, e disparar uma meia duzia de telefonemas para solucionar essa questão.
Não existe dificuldade para Ana de Hollanda. Basta que ela tenha vontade política.

  • Segunda-feira, 02 Agosto 2010 / 9:24

O ministério de José Dirceu

     De Lauro Jardim, na coluna Radar da ‘Veja’
“Em conversas privadas com correligionários, José Dirceu tem feito algumas previsões sobre o ministério de um eventual governo Dilma Rousseff. No tabuleiro de Dirceu, Antonio Palocci ficaria com a Saúde; Fernando Pimentel, com o Planejamento; e Paulo Bernardo, com a Casa Civil”
                       * * *
Que os três serão ministros não há dúvidas.
Se as pastas serão essas, isso são outros quinhentos.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 4:01

Dilma irá a festa de Meirelles

De Sonia Racy, do ‘Estadão’:
“Dilma dá demonstração explícita de apreço ao presidente do BC. Ela faz parte do grupo de brasileiros que vai a NY participar da homenagem a Henrique Meirelles, vencedor do prêmio Homem do Ano da Câmara Brasil-Estados Unidos.
Bem como Antonio Palocci e Marta Suplicy”.
                  * * *
José Serra ficará mesmo por aqui.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:07

As semelhanças de Dilma e Serra

Do repórter Moisés Mendes, de ‘Zero Hora’:
“Com temperamentos semelhantes, a petista e o tucano forjaram a fama de administradores públicos exigentes, movidos por um nível de cobrança que assombra assessores e interlocutores
Espelhadas, as imagens públicas de Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB) podem refletir as mesmas luzes e sombras. Nas luzes, surgem como exigentes, obstinados, disciplinados, francos, leais. Nas sombras, nem sempre visíveis, como teimosos, geniosos, mandões, ríspidos, amargos.
Os dois pré-candidatos que lideram as pesquisas para a Presidência da República têm muito mais em comum do que é revelado por adjetivos e aparências simplificadoras. A petista e o tucano construíram, cada um a seu modo, o que consagraram como a principal virtude de ambos: a capacidade de planejar, comandar e decidir com níveis de exigência e eficiência acima da média na gestão pública. Assim carregam a fama de carrancudos, que se esforçam para atenuar com sorrisos, abraços e acenos exigidos pela campanha.
Quando chegou a Brasília, no final de outubro de 2002, para coordenar a área de infraestrutura da equipe de transição do governo Lula, Dilma era respeitada como conhecedora do setor de energia. Não mais do que isso.
Participara da montagem do programa do candidato petista, quando ocupava a Secretaria de Energia e Minas do Rio Grande do Sul. Mas é das reuniões da equipe de transição, que definia os planos de ação do novo governo, no Centro de Formação do Banco do Brasil em Brasília, que emerge a Dilma que só os gaúchos conheciam.
Eu convivi com Dilma na transição. Ali ela mostrou que conhecia um setor do qual ninguém do governo anterior sabia nada, porque não tinham planejamento, cálculo econômico, estratégia diz o ex-ministro José Dirceu.
Dilma impressionou Dirceu e o coordenador-geral da equipe, o médico Antonio Palocci, que assumiria depois o Ministério da Fazenda. Aos poucos, passou a ser observada por Lula. Era categórica. Confrontava suas ideias com as de especialistas em energia com vigor de veterana em embates. Em dezembro de 2002, foi anunciada por Lula como ministra de Minas e Energia.
Vencera a disputa pelo ministério com o engenheiro Luiz Pinguelli Rosa, militante petista, amigo de Lula e um dos mais ouvidos técnicos do setor. Dilma nunca disputara uma eleição. Não tinha votos. Nem representatividade política. Nem intimidade com Lula. Ex-trabalhista, filiara-se ao PT havia apenas um ano e nove meses.
Dilma virou ministra de Energia e depois me sucedeu na Casa Civil porque tem capacidade de coordenação, liderança e visão estratégica. No dia seguinte ao da minha saída do governo (em 2005), o presidente me disse que o primeiro nome em que pensara para a Casa Civil era o dela. Eu disse que Dilma daria conta. Ela não é turrona, é afável e gentil e está cercada de homens meigos sorri Dirceu ao telefone.
Um economista que conviveu com Dilma quando ela ocupou a Secretaria de Energia e Minas do governo Olívio Dutra (PT), de 1999 a 2002, lembra:
Ela colocava todo mundo em pânico quando queria entender em 10 minutos o que tínhamos aprendido em quatro anos de faculdade.
Dilma já havia passado pela mesma secretaria no governo Alceu Collares (PDT), onde ficara pouco mais de um ano, entre dezembro de 1993 e janeiro de 1995. Não teve tempo para provar que conhecia energia. Mas já estudava o assunto, que seria tese do mestrado iniciado em 1978 e não concluído na Universidade de Campinas (Unicamp). Era casada na época com o ex-deputado Carlos Araújo, que relembra:
Dilma estudava demais, sempre foi uma obstinada, queria saber de energia com profundidade.
Quando voltou à secretaria, em janeiro de 1999, enfrentou naquele verão uma grave crise de abastecimento. Seus conhecimentos teóricos mergulhavam no breu de apagões sistemáticos. Herdara um sistema de distribuição precário. Criou o Comitê de Operação e Planejamento do Sistema Elétrico, com representantes das concessionárias, RGE, AES-Sul e CEEE.
Conquistou os empresários do setor privatizado um ano e meio antes. Buscou recursos em Brasília, tocou obras emergenciais, cercou-se de técnicos. Queria entender tudo de geração, transmissão, distribuição.
Dilma se empenhou em aprender diz o engenheiro e consultor de energia Paulo Milano, que coordenava na época o grupo temático do setor na Fiergs e pôde testar a impulsividade da secretária e sua capacidade de reconhecer erros.
Num evento na Fiergs, o engenheiro fez uma avaliação não muito otimista do abastecimento de energia. Ficou sabendo que a secretária questionara seus conhecimentos ao indagar a um participante:”Quem é ele para dizer isso?”
Dias depois, uma Dilma constrangida convidou Milano a ir a seu gabinete, para saber por que o cenário que ele apresentara na Fiergs era preocupante. O engenheiro Sidney Simonaggio, hoje vice-presidente executivo da Enersul, de Mato Grosso do Sul, presidia na época a RGE, empresa privada de energia do Rio Grande do Sul, e acompanhou a evolução da secretária em meio ao caos do setor:
Ela ouvia, aprendia e nos mobilizávamos juntos para buscar recursos para o sistema de distribuição do Estado. O modelo que levou para o setor elétrico, como ministra, serenou a convivência com geradores, transmissores e distribuidores, não afugentou investidores e evitou o risco de apagões.
Simonaggio foi um dos empresários que contribuíram para que se desfizesse, logo depois da escolha de Dilma por Lula, a ercepção disseminada por parte da oposição de que uma ex-guerrilheira, sem conhecimento técnico, assumiria o comando da complexa área de energia do país:
Chegaram a apresentá-la como uma fera radical no governo. Na verdade, ela já chegou a Brasília como uma gigante do setor elétrico. Dilma não tolera embromation, não tem paciência com conversas que não sejam claras.
O ex-prefeito de Porto Alegre Sereno Chaise, que em 2001 saiu do PDT com Dilma e outros trabalhistas históricos e se filiou ao PT, conhece a mineira-gaúcha como poucos:
Ela está sempre na roda viva. Há um ano, fui a Brasília para jantarmos. Fiquei ao seu lado das 22h até depois da meia-noite, no gabinete. Desisti. Fui embora e ela ficou ao telefone.
Para o deputado e ex-governador Alceu Collares, Dilma revelou-se boa gestora como sua secretária da Fazenda, de 1986 a 1989, quando ele era prefeito de Porto Alegre. Desentenderam-se em 2000. Collares chegou a abrir um processo contra a economista por injúria contra sua mulher, Neuza Canabarro. Pouco depois, se reconciliaram. O deputado torce para que Dilma não mude:
Tomara que o marketing político não tente modificá-la e que ela se apresente ao povo como é. É uma durona porque sabe tomar decisões fortes.
                  * * *
Prefeito de Piracicaba, o economista Barjas Negri conviveu com José Serra de 1983, no governo Franco Montoro em São Paulo, até sua saída do Ministério da Saúde, em 2002, para concorrer à Presidência da República. Conhece bem um folclore em torno do tucano:
O momento certo para falar com ele é quando o Palmeiras ganha de goleada. Se o Palmeiras perdeu para o Corinthians, nem pensar.
Claro que pode ser assim, mas não é bem assim. Assessores sabem que o momento certo de conversar com Serra é quando o tema a ser tratado na reunião foi destrinchado. Se não foi, o chefe decreta:
Estude melhor e volte depois.
Negri foi coordenador de políticas sociais do governo Montoro, quando Serra ocupou a Secretaria de Economia e Planejamento, entre 1983 e 1986. Foi o primeiro cargo executivo de Serra, que voltara do exílio em 1978 e até então dava aulas de economia na Unicamp. Foi ali que se revelou gestor. Paulo Maluf quebrara as finanças do Estado. Serra tomara gosto por orçamentos na teoria, quando estudou economia na Universidade de Cornell, nos Estados Unidos. No governo, submeteu-se ao teste de provar na prática que era possível pagar dívidas, aumentar receitas, equilibrar o caixa e retomar a capacidade de investimento do governo.
Com ele, é preciso trabalhar em três turnos diz Negri, que também conviveu com o tucano quando era secretário executivo do Fundo Nacional de Educação e Serra comandava o Ministério do Planejamento de Fernando Henrique Cardoso.
Depois, voltaram a trabalhar diretamente, com Negri como secretário executivo do Ministério da Saúde, o segundo em hierarquia na pasta. O tucano chegava tarde ao trabalho, aí pelas 10h, quando todos já estavam ralando. Mas convocava reuniões para depois das 20h e saía do Ministério à meia-noite. Negri testemunhou confrontos tensos. Como os duelos com presidentes de laboratórios, quando o ministro ameaçou, em 2001, quebrar a patente de medicamentos do coquetel contra a Aids:
Assisti a discussões duríssimas.
Os laboratórios foram dobrados e reduziram os preços dos remédios. Serra sente prazer ao se impor diante de interlocutores enroladores. Fica desconfortável com soluções adiadas. E mergulha no que pretende resolver, acionando assessores de madrugada, para que não dependa de ninguém na hora de argumentar e decidir.
Nas reuniões com o presidente Fernando Henrique, ele nunca recorria a assessores para que falassem em seu nome, ele defendia sozinho e com convicção o que pretendia lembra o deputado Eliseu Padilha (PMDB), colega de Serra no governo FH como ministro dos Transportes, entre 1997 e 2001.
Um engenheiro recrutado para a equipe que está montando o programa de governo de Serra para o Brasil conta:
Ele é extremamente fiel a sua equipe e dá o exemplo pela capacidade de trabalho. Mas tem dias em que eu sei que não devo abrir a caixa de e-mails.
O economista Wilson Cano, da Universidade de Campinas, foi colega de Serra. Recorda-se de um professor preocupado em compreender a realidade brasileira, no retorno ao país, do desafio que enfrentou, ao deixar a Unicamp, sem experiência executiva, para assumir a Secretaria de Planejamento de Montoro e das dificuldades como ministro da Saúde, sempre em confronto, brigando por verbas, com o então ministro da Fazenda, Pedro Malan:
Como ele tem personalidade forte, o exercício da autoridade, por competência reconhecida, se confunde com autoritarismo. Ele e Dilma são centralizadores.
Geraldo Biasotto, outro economista também formado pela Unicamp, trabalha com Serra como diretor executivo da Fundação do Desenvolvimento Administrativo (Fundap), encarregada de melhorar a gestão pública. Foi secretário de Gestão e Investimentos de Serra no Ministério da Saúde, de 1999 a 2002.
Biasotto conta que, além do duelo com os laboratórios na questão das patentes de medicamentos contra a Aids, Serra enfrentou os grandes grupos do setor quando da implantação da lei dos genéricos, afastando, com mecanismos de fiscalização da produção, a ameaça de ver os remédios sem marcas serem desqualificados por suspeita de ineficácia:
Dizem que Serra é um homem de planejamento, mas o forte mesmo dele é dar sentido prático as suas ideias, acompanhar, cobrar e ver resultados.
O governador tem de novo ao seu lado, desde abril do ano passado, um parceiro de exílio no Chile, no início dos anos 70. O economista Paulo Renato Souza deixou a Câmara dos Deputados para assumir a Secretaria de Educação de São Paulo. Paulo Renato, ex-ministro de Educação de FH e também ex-reitor da mesma Unicamp, sabe que Serra tem obsessão por números desde quando estudava Engenharia:
Ele sempre se interessou pelo debate, não só de questões teóricas e abstratas, mas também pelas coisas concretas.
Paulo Renato observa que Serra chegou ao cargo de secretário de Montoro porque antes havia coordenado a equipe que elaborara o programa de governo. Foi a primeira vez, segundo o economista, que grupos de várias áreas fecharam-se numa casa em São Paulo para decidir o que seria a cara de um governo estadual. Em 1986, deixou a secretaria e se elegeu deputado federal Constituinte pelo PMDB. Foi relator das questões tributárias e fiscais da nova Constituição.
Ninguém irá se lembrar de Serra como tribuno, apesar de ter sido deputado e senador, e tampouco como participante de articulações políticas de bastidores. Gosta de executar, de enxergar o que projetou. Em 1985, coordenou o time que desenhava o que seria o governo de Tancredo Neves, morto antes de assumir, e depois contribuiu para a elaboração dos programas dos governos de FH (1995-2002), coordenados por Paulo Renato.
O amigo comenta a fama de turrão do governador:
Ele cobra, quer saber de todos os detalhes, mas também mete a mão na massa, como fez quando foi ministro e faz agora como governador.
Para o ex-secretário executivo do Ministério da Saúde Barjas Negri, a imagem de casmurro não pode estar dissociada do perfil do tucano, desde que não o transforme numa caricatura, em detrimento do talento para a gestão de recursos e pessoas:
Defender posições com convicção não significa ser brigão. Ele é na verdade um exigente. Trabalha à noite e dorme pouco porque este é o seu jeito criativo de fazer as coisas”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:07

Franklin perde terreno no PT

De Renata Lo Prete, no Painel da ‘Folha’:
“Já foi melhor a situação de Franklin Martins na campanha de Dilma Rousseff. Vem de longe a má vontade da máquina do PT com o ministro da Comunicação Social. A novidade é que agora ele está em baixa também com os “pragmáticos” integrantes do núcleo decisório da candidatura. Alega-se que Franklin, com sua atitude permanentemente combativa em relação aos veículos da grande imprensa, não ajuda num momento em que é preciso “construir pontes” para Dilma, notadamente com a Rede Globo, emissora de maior audiência do país. O ex-ministro Antonio Palocci tem sido encarregado dessa tarefa. Antes de integrar o governo Lula, Franklin trabalhou na Globo, de onde saiu em circunstâncias pouco amistosas”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 2:17

Pimentel: PT será refém de Dilma

 O ex-prefeito de Belo Horizonte é amigo de Dilma Rousseff há 40 anos.Ele é um dos coordenadores da campanha da ministra à Presidência e ainda luta para se candidatar ao governo de Minas. Veja a entrevista que ele deu a ‘Folha’, aos repórteres Fernando de Barros Silva e Malu Delgado:
“- O PT incorporou às diretrizes do programa de governo para Dilma Rousseff bandeiras da esquerda. Se eleita, ele teria perfil à esquerda ou de centro, como Lula?
- A tônica de um governo Dilma vai ser uma continuidade do governo Lula, até porque ela é personagem fundamental deste governo. O grande salto do governo foi depois de 2005, após a crise do mensalão, quando ela assumiu [a Casa Civil]. Ela foi a pessoa que liderou a reconstrução interna do governo, com a chegada do PMDB aos ministérios. Como é a âncora do governo Lula, o que se deve esperar é a continuidade desta linha pragmática. Nem à direita, nem à esquerda. É fazer o que é necessário para o Brasil dar certo.
- Dilma tem um perfil ideológico mais definido que Lula. O PT vê em Dilma a possibilidade de recuperar bandeiras históricas, com menos concessões?
- Não vejo por que haveria tal inflexão.
- Houve inflexão de Lula à esquerda no 2º mandato?
- Podemos dividir o nosso governo em dois momentos: o que precede a crise política do chamado mensalão e o momento posterior. Naquele primeiro nós tínhamos definição clara do que deveria ser feito sob o ponto de vista das políticas macroeconômicas. Palocci foi fundamental para garantir a estabilidade. O José Dirceu, na Casa Civil, também cumpriu papel fundamental. Havia uma forte aposta, quando Lula foi eleito, de que nós não íamos dar conta de governar o Brasil. Diziam que a gente não teria governabilidade. Tivemos. Gosto de ressaltar isso porque o Dirceu foi muito castigado neste processo, estigmatizado, como se fosse uma pessoa nociva. E não foi. Ele foi uma pessoa importantíssima na montagem inicial do governo e na sustentação até o momento fatídico da crise. Lula teve uma enorme sabedoria quando convocou Dilma para assumir o lugar de Dirceu. E logo em seguida, o Palocci sai. Convivi muito de perto [com o governo] neste período. Foi um momento de muita solidão. O Palácio do Planalto estava esvaziado, virou um lugar meio maldito. Neste momento dramático, quando a Dilma chega, o presidente está começando a fazer sua opção. Claro que ela estava sendo colocada à prova. Passou no teste.
- Palocci e Dirceu estariam num governo Dilma?
- Quem tem que decidir é a própria Dilma. Ela tem relações pessoais e fraternas com os dois. As situações são diferentes. O Zé está sendo processado ainda. Dificilmente teria uma função pública. São personagens políticos de primeira grandeza. Não vejo como prescindir dessas pessoas. O Palocci não tem mais nenhum processo.
- E a sua presença num governo da Dilma?
- Eu não posso falar em causa própria. Estou ajudando a Dilma, que é minha amiga de 40 anos, e sempre estarei disponível para ajudá-la. A escolha da equipe é de quem ocupar o posto de presidente.
- Isso desemboca na questão de Minas.
- O presidente Lula disse que nós [ele e Patrus Ananias] estamos numa enrascada em Minas. No fundo, não tem essa coisa tão áspera. Tivemos uma disputa muito acirrada pelo diretório estadual do PT. Passou. Sou amigo do Patrus. O PT vai ter que decidir qual é a tática em Minas Gerais, se vamos ter candidato próprio ou se vamos nos aliar ao PMDB. Hoje todo mundo trabalha com a ideia de palanque unificado. Vou fazer o que for melhor para o projeto coletivo, que é eleger a Dilma. Neste momento, meu sentimento é Zeca Pagodinho: deixa a vida me levar.
- Os problemas no PT começaram a partir de sua aliança com Aécio Neves (PSDB)?
- Há um entendimento um pouco equivocado disso. A questão de fundo não é essa, da aliança com o PSDB. É a concepção de partido e de estratégia política. Os adversários em Minas dizem que maculei o partido porque fiz filiações em massa. E o outro lado defende militância de raiz. O PT do pós-Lula tem de ser o partido das grandes massas brasileiras, da nova classe média, que é o canal da política. Não pode ser a política no sentido de 30 anos atrás, quando fundamos o PT. O mundo mudou. Eu não tenho que exigir que o sujeito tenha lido Marx e Lênin para ser militante do PT.
- André Singer, em seu artigo recente sobre as raízes sociais e ideológicas do lulismo, coloca que houve em 2006 um descolamento entre a base histórica do PT e a base que elegeu Lula. Como essa massa, que não é petista, vai se comportar?
- Vai votar na Dilma. Acho o artigo do Singer extremamente bem posto, mas prematuro. Não sei se tem lulismo. Nós temos um líder excepcional, que é o presidente Lula. Nunca houve outro como ele na história do Brasil. Mas, daí a dizer, como forçam nossos adversários, que há um subperonismo, é demais. É diferente. O Peronismo eu sei o que é, está lá, há os subprodutos. Aqui não temos tempo histórico para fazer essa análise ainda. Caracterizarmos que tem o lulismo de um lado e o petismo de outro é meio precipitado. Há um fenômeno novo mesmo, que é a emergência de um novo segmento social. É esse cidadão, que estava na linha de pobreza, e agora é uma classe média baixa. Se interessa pela política com um olhar diferente, mais cidadão. Essa gente não é massa de manobra, que vai para onde o líder for.
- O sr. também descartaria uma certa vinculação de Lula com o getulismo?
- Sem dúvida. Getúlio nunca teve um partido. Era um líder fantástico, mas foi um ditador. Não tinha nenhuma inserção autêntica como tem Lula. Lula tem um senhor partido. A Dilma valoriza muito isso.
- Lula se referiu ao congresso do PT como uma verdadeira “feira ideológica”. Ele é hábil ao administrar as diferentes correntes do partido, mas isso não ocorre com Dilma. Como ela vai lidar com o PT, que não conhece bem, e qual será sua autoridade política numa coalizão?
- Às vezes a mídia tem uma tese pronta, de que a Dilma vai ficar refém. É o contrário. O PT é que vai ficar refém dela. Ela tem uma autonomia muito maior em relação ao partido do que Lula tem. Lula é o partido. Ele construiu o PT. Ele não tem como se autonomizar, digamos assim. Ela tem muito mais autonomia para ouvir o partido, respeitá-lo, mas, se for o caso, não pagar os pedágios que Lula pagou e paga. A tese de que ela vai ficar refém não subsiste à realidade. O PMDB e os outros partidos não são um problema de Dilma. Podemos dizer que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ficou refém do PFL. Lula, refém do PMDB. É uma visão um pouco pobre. A realidade política é muito complexa. Nós não podemos prescindir de um partido como o PMDB. Nem nós nem nenhum governo.
- O ex-ministro Ciro Gomes (PSB-CE) vê uma “frouxidão moral” nesta aliança.
- Tenho muito respeito por Ciro, mas essa é uma crítica fácil. Como é que nós vamos fazer a construção política necessária para dar governabilidade a qualquer governo ao largo deste roçado de escândalos [termo usado por Ciro]? Porque o roçado de escândalos significa um terço do Parlamento. Na condição de franco atirador, tudo bem. Se quer ser presidente da República, terá que governar com isso. O ideal é que Ciro não seja candidato à Presidência. A realidade vai se encarregar disso.
- Qual a sua opinião sobre a candidatura da ex-ministra Marina Silva (PV)?
- Acho uma candidatura emblemática. Vejo companheiros fazendo uma crítica pesada a ela, de que é oportunista. Não é. Ela tem uma história de vida que a qualifica. Ela exerce um pouco um apostolado nesta área. Temos que respeitar.
- Num eventual segundo turno ela estaria ao lado da Dilma?
- Com certeza. Não vejo hipótese de a Marina estar num palanque do PSDB. Isso não existe. Ela pode discordar, fazer críticas, mas ela é nossa companheira.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 2:15

Dilma:”Sem aventuras ou retrocessos”

  De Vera Rosa, Clarissa Oliveira, Wilson Tosta e Lisandra Paraguassu, do ‘Estadão’:
“Aclamada ontem como pré-candidata do PT à Presidência, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, encarnou o pós-Lula e ensaiou o discurso de sua campanha. No encerramento do 4.° Congresso Nacional do PT, preparado para sacramentar sua candidatura e aprovar as diretrizes do programa de governo, Dilma pregou o fortalecimento do Estado, mas fez questão de defender com todas as letras a preservação da estabilidade econômica, com manutenção do equilíbrio fiscal, controle da inflação e câmbio flutuante.
“Não haverá retrocesso nem aventuras”, avisou a ministra no ato político que também comemorou os 30 anos do PT. “Mas podemos avançar muito mais e muito mais rapidamente.” Atrás dela, um painel com sua foto ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva exibia a inscrição “Com Dilma, pelo caminho que Lula nos ensinou”.
Vestida de vermelho, a cor do PT, a chefe da Casa Civil falou por uma hora em um salão decorado com estrelas, logo após Lula apresentá-la como herdeira para a plateia, assumindo o papel de avalista da candidatura. “Eleger a Dilma é a coisa mais importante do meu governo”, disse. “Eleger a Dilma não é secundário para o presidente da República: é a coisa prioritária na minha vida neste ano.”
Lula não escondeu a emoção ao apresentar a ministra. Contou que a conheceu quando ela foi secretária de Energia do Rio Grande do Sul no governo de Olívio Dutra (1999-2002), fato que muitos petistas não sabiam. Depois, teceu elogios à sua capacidade de trabalho, dedicação e solidariedade nos momentos difíceis, como na crise do mensalão, que, no seu diagnóstico, não passou de um “golpe” contra o Palácio do Planalto.
O presidente recomendou à candidata que esteja pronta para responder aos ataques da oposição na campanha. “Vão dizer que a Dilma vai ser estatizante. Se prepare”, afirmou, olhando para a ministra. “Isso não é ruim, não. Isso é bom.” Logo depois, porém, emendou: “Claro que você não vai querer estatizar borracharia, bar, pizzaria, cervejaria. Mas aquilo que for estratégico, não estiver funcionando e precisar colocar para funcionar, a gente não tem que ter medo de tomar decisões importantes para o nosso país.”
Em meio a promessas de continuar investimentos sociais iniciados no governo Lula, Dilma encontrou espaço para críticas à oposição. E foi com elas que arrancou os primeiros aplausos. “Não praticamos casuísmos. Basta ver a reação firme e categórica do presidente ao frustrar as tentativas de mudar a Constituição para que pudesse disputar um terceiro mandato. Não mudamos, como se fez no passado, as regras do jogo no meio da partida”, insistiu.
Ao citar os poetas Carlos Drummond de Andrade, mineiro, e Mário Quintana, gaúcho, e relembrar seu passado de combate à ditadura, ela afirmou que nunca esperou ser candidata, mas disse estar preparada para o desafio.
Na tentativa de tranquilizar quem viu viés estatizante nas diretrizes de sua plataforma, Dilma garantiu que tudo será feito para manter a estabilidade. Enfatizou, no entanto, a determinação de “continuar valorizando o servidor público” e “reconstituindo o Estado” e rebateu as críticas de que o governo petista inchou a máquina pública. “Alguns ideólogos chegavam a dizer que quase tudo seria resolvido pelo mercado”, comentou, atacando a defesa da privatização, feita por tucanos.
O discurso de Dilma, lido em dois teleprompters, demorou para empolgar os petistas. Com menos espontaneidade que Lula, ela se revelou um tanto dura ao falar e seguiu praticamente à risca o pronunciamento escrito dias antes, com a colaboração do ex-prefeito Belo Horizonte Fernando Pimentel, do ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci e do coordenador do programa de governo, Marco Aurélio Garcia.
“Quem duvidar do vigor da democracia em nosso país, que leia, escute ou veja o que dizem livremente as vozes oposicionistas. Mas isso não nos perturba. Preferimos as vozes dessas oposições, ainda quando mentirosas, injustas e caluniosas, ao silêncio das ditaduras”, afirmou.
Ex-guerrilheira, a ministra se emocionou ao citar três companheiros mortos na luta armada. Eram Carlos Alberto Soares de Freitas, desaparecido em 1971; Maria Auxiliadora Lara Barcelos, exilada que se matou em 1976, em Berlim; e Iara Iavelberg, morta em 1971.
Dilma também foi acompanhada no Congresso do PT pelo presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), cotado para vice na chapa. O comando do partido só foi à festa depois que Temer e o líder do governo no Senado, Romero Jucá (RR), pediram a Lula sua interferência para resolver impasses em Estados onde os dois partidos disputam a cabeça de chapa.
“Acho que foi boa a presença do PMDB aqui”, disse ela. “O Brasil precisa de um governo de coalizão. Não acho bom para o País governo de um partido só.”

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