• Domingo, 05 Fevereiro 2012 / 12:55

Desocupa

                                      Caetano Veloso*

 
       Quando cheguei à Bahia, na véspera do Natal, fui logo para Santo Amaro ver minha mãe e meus irmãos. Voltei para Salvador para ver meus netos e meu filho mais velho. Meus filhos menores chegaram logo em seguida. Não atentei muito para a cidade de Salvador, seus aspectos atuais e seus clamores. Mas cedo em janeiro já recebi e-mail de um camarada meu daqui com um protesto (e um convite para ir à rua me manifestar) contra a construção de um imenso camarote para o carnaval, gigante que cobria a recém-inaugurada pracinha da praia de Ondina. Parece que a construção dessa praça tinha sido patrocinada pela mesma empresa que agora construía o camarote. Por muitas razões – a menor delas não sendo o fato de Ondina ter sido meu bairro por muitos anos, onde Moreno cresceu e onde Dedé ainda passa os verões -, tive pena de não poder ir à manifestação. Mas fiquei (e ainda estou) fascinado com o nome que o movimento, nascido na internet, ganhou: DESOCUPA SALVADOR.
Era um modo de exigir que o monstro que cobria a praça fosse retirado, mas era também um comentário abrangente sobre a proliferação de camarotes para assistir à grande festa. Pelo menos foi o que pensei e senti logo no primeiro momento. Mas, como veio a se revelar pouco depois, essa abrangência era muito maior e, para além do carnaval e da pracinha, referia-se ao desconforto que os habitantes da cidade sentem em relação ao modo como ela vem sendo tratada pela prefeitura e pelo governo estadual. Há uma queixa no ar que fala sobre o mal-estar que as surpreendentes eleição de Jacques Wagner e reeleição de João Henrique provocam. Não conheço ninguém que exprima desrespeito por Wagner, mas já ouvi, em resposta à observação de que João Henrique se reelegeu porque a herança maldita da reeleição para cargos executivos que FH nos deixou faz com quem seja praticamente impossível quem já está no poder não ganhar de quem tenta substituí-lo: “Jacques Wagner ganhou impedindo a reeleição de Paulo Souto – e agora vemos que Paulo Souto era melhor do que Jacques Wagner.” Ninguém respeita João Henrique. Há é um vácuo de liderança com a saída de cena de Antônio Carlos Magalhães. É uma pena. ACM incorporava a velha política, em que o povo seguia líderes personalistas que agiam como se fossem donos dos estados ou regiões. Nada do que ele foi capaz de realizar, com seu talento para escolher quadros técnicos de bom nível e dar-lhes poder seguro para atuar (não importando se isso ferisse o império da lei ou danificasse a imagem do judiciário local), deve ser negado. E o povo deve tornar-se progressivamente capaz de escolher por razões de confiança testável, seguindo ideais de melhora na organização da vida, em vez de agir como um órfão que busca um novo pai.
A eleição de Jacques Wagner já significou algo disso. Mas não há quem não diga, hoje, que ela se deveu ao “fator Lula” – que, ao fim e ao cabo, tem demasiadas semelhanças com o personalismo antiquado. Na internet o número de pessoas que se organizam para ir às ruas e às praças é pequeno. Porém crescente. Claro que quem pensa em protestar contra a construção de um camarote de carnaval não é quem elegeu João Henrique. Essas reeleições automáticas se devem justamente à falta de diálogo consciente a respeito das coisas públicas: nascem da inércia da maioria desavisada, aquela que vota em alguém cujo nome conhece. É neguinho que não resiste à força da celebridade política – e da remota porém perene esperança de que, votando em quem já tem fama de ter poder, habilita-o a contar com alguma ajuda futura.
Mas o DESOCUPA não é tão desvinculado do ânimo popular desorganizado. Mostrando o Pelourinho a Criolo, Ganja Man, Duane e minha querida Mariana Aydar, acompanhei Paulinha Lavigne, que tinha vindo com eles à cidade. Um ladrão nervoso arrancou uma corrente de ouro do pescoço de Paulinha, deixando uma marca vermelha e sumindo na pequena multidão (embora com bem menor presença da classe media, as terças-feiras da Bênção ainda são animadas no Pelô). Uma baiana, vendedora de acarajé, percebendo mais ou menos o que se passara, gritou para mim: “Você tem voz, fale no jornal, diga na entrevista, isso aqui está abandonado.” Ela estava triste e revoltada – e descreveu como a decadência já vem vindo há um bom tempo. Prometo a mim mesmo fazer uma entrevista com Clarindo, o elegante dono da Cantina da Lua, para publicar aqui. Mantenho a promessa.
O que me comove é a coincidência poética de, por causa do camarote, as manifestações soteropolitanas terem todas tomado o nome de “desocupa”. Acho que é o único lugar do mundo em que o termo foi invertido. Na semana em que eu soube que Marco Polo morreu (ele tinha uma barraca de coco no Porto da Barra, mas nos anos 1970 nos chamou para mostrar a cidade pelo mar, como ele a usava, em seu barco; ao ver como a tudo em Salvador se pode ir de barco – e ele morava numa casa encravada na pedra do forte de São Diogo -, eu lhe disse: “Mas você vive aqui como se fosse em Veneza. Como é seu nome?” – “Marco Polo”, me respondeu aquele filho de um policial preto que não tinha ideia de quem eram os grandes homens cujos nomes escolhia para batizar os filhos), toca-me que “desocupar” seja a palavra de ordem. É algo muito baiano. Profundamente. Tem a ver com preguiça, tem a ver com respeito, tem a ver com inventividade. Hoje a polícia está em greve. Mas essa palavra me enche de melancólico otimismo.
*Caetano Veloso, cantor e compositor, escreve para ‘O Globo’.

  • Quinta-feira, 05 Janeiro 2012 / 11:54

Moraes fará livro sobre Lula

     Da colunista Monica Bergamo, da ‘Folha’:
     “O escritor Fernando Morais, autor de livros como “A Ilha” e “Chatô”, deposita nesta semana a última parcela do R$ 1,6 milhão que havia recebido do selo Benvirá, da Saraiva, para trocar de editora. Permanece, assim, na Companhia das Letras.
Deste total, R$ 1,2 milhão era de adiantamento de royalties e R$ 400 mil a fundo perdido. Morais diz que teve “certa paúra” quando, depois de assinar com a Saraiva, percebeu que ficaria preso a ela por contrato por mais dez anos, “até os meus 75 anos”.
Morais agora escreve um livro sobre Lula. Chegou a entrevistar o ex-presidente depois que ele começou o tratamento contra o câncer. Mas as conversas estão interrompidas até o petista terminar a radioterapia”.
                               * * *
Fernando Morais começou a escrever um perfil do ministro José Dirceu, logo depois que ele perdeu o mandando de deputado, mas sabe-se lá porque “abandonou” o projeto.
Ele tem outro livro pronto, há anos: um perfil do senador Antonio Carlos Magalhães.
O livro foi concluído há seis anos e ACM já morreu há quatro.
A obra certamente é um poço de revelações, mas Morais deve ter feito algum acordo com o líder baiano para que só o publicasse x anos após a sua morte.
Se forem 10 anos, ele irá às livrarias em 2017.

  • Quarta-feira, 04 Janeiro 2012 / 10:44

PMDB tenta atrair o DEM

    Das repórteres Catia Seabra e Maria Clara Cabral, da ‘Folha’:
    “Sob o comando do vice-presidente Michel Temer, o PMDB -maior aliado do PT na coalizão governista- tenta atrair o oposicionista DEM para dobradinhas nas eleições municipais de outubro, ação que se bem-sucedida pode gerar uma futura fusão.
Apesar de não atuar diretamente, o Planalto vê com bons olhos a movimentação. Além de ampliar sua base de apoio no Congresso, ela também abafaria algumas das principais vozes críticas à gestão de Dilma Rousseff.
O próprio Temer participa da costura das alianças municipais, especialmente dedicado à viabilização da candidatura do deputado federal Gabriel Chalita à Prefeitura de São Paulo.
Depois de encontros com integrantes do comando nacional do DEM, como o presidente nacional, José Agripino (RN), e o líder da bancada na Câmara, Antonio Carlos Magalhães Neto (BA), Temer convidou no último dia 21 o presidente estadual da sigla, Jorge Tadeu Mudalen (SP), para uma conversa sobre a eleição na capital.
Até então resistente a um acordo, Mudalen deixou o Palácio do Jaburu (residência oficial do vice-presidente) aberto a um acordo.
“Vejo com simpatia essa conversa com o PMDB”, disse Mudalen, que, dois dias antes, jantara com o ministro peemedebista Moreira Franco (Secretaria de Assuntos Estratégicos).
Temer e Moreira não são os únicos do PMDB a flertar com o DEM. Também no mês passado, o ministro da Agricultura, Mendes Ribeiro, recebeu o secretário-geral do DEM, Onyx Lorenzoni (RS).
Na conversa, os dois se comprometeram a fazer um levantamento das cidades gaúchas onde há compatibilidade entre os dois partidos. Mendes propôs objetivamente uma fusão. “O PMDB e o DEM precisam olhar para o Brasil com uma expectativa clara do que pode fazer uma aproximação cada vez maior entre os dois partidos: a eleição municipal como prévia de 2014.”
Lorenzoni admite uma afinidade com o PMDB do Rio Grande do Sul. Mas diz que uma fusão não será necessária porque, apesar de debilitado com a criação do PSD, o “DEM dará a volta por cima” para 2014.
DEM e PMDB ensaiam também aproximação na Bahia e no Rio Grande do Norte, entre outros Estados. “No Maranhão, o DEM e o PMDB sempre caminharam juntos”, disse o ministro do Turismo, Gastão Vieira (PMDB-MA).
A articulação preocupa a cúpula do PSDB. Preocupado com o risco de isolamento na oposição, o comando do partido pediu que seus governadores ampliem as negociações com o partido.
Segundo tucanos, o DEM já avisou que, caso constate que não é capaz de eleger 30 deputados federais nas próximas eleições (em 2010, elegeu 43, mas hoje só possui 27), terá que optar por uma fusão. Só não sabe se com o PMDB ou o PSDB”.
                               * * *
No Rio, o ex-prefeito Cesar Maia, do DEM, saiu na frente, ao procurar o deputado Anthony Garotinho e propor um acordo para as prefeituras da Capital e do interior do Rio de Janeiro.
Garotinho, hoje no PR, tem enorme influencia no PMDB no interior do Estado.
Para a Capital, está praticamente certo o lançamento de Rodrigo Maia para a Prefeitura, tendo como vice Clarisse Garotinho.
                               * * *
Quem achar isso exdrúxulo, mire-se no exemplo da Bahia citado pela reportagem da ‘Folha’.
Alguém já imaginou Geddel Vieira Lima de mãos dadas com os herdeiros políticos de Antonio Carlos Magalhães?
O velho senador deve estar esmurrando seu túmulo…

  • Sábado, 24 Julho 2010 / 8:45

Wagner vence na Bahia

     Da ‘Folha’:
“Com 44% das intenções de voto, o governador da Bahia, Jaques Wagner (PT), seria reeleito no primeiro turno, se a eleição fosse hoje. Somados, os seus adversários alcançam 37%.
De acordo com o Datafolha, o petista lidera a disputa com 21 pontos de vantagem sobre o segundo colocado, Paulo Souto (DEM), que tem 23%. Em terceiro lugar aparece Geddel Vieira Lima (PMDB), com 12%.
Os candidatos Luiz Bassuma (PV) e Professor Carlos (PSTU) têm 1% cada um. Marcos Mendes (PSOL) e Sandro Santa Bárbara (PCB) não pontuaram. Não opinaram 13% dos eleitores, e outros 6% disseram que votarão nulo ou em branco.
Esta é a primeira eleição para o governo da Bahia após a morte do ex-senador Antonio Carlos Magalhães (1997-2007). Herdeiro do carlismo, Souto lidera o ranking de rejeição: 30% dos eleitores dizem não votar nele de jeito nenhum. Outros 20% rejeitam Geddel, e 16% não admitem votar em Wagner.
Na pesquisa espontânea, em que o eleitor não vê a lista de candidatos, o governador tem vantagem ainda maior sobre os oponentes. Wagner é citado por 26% dos entrevistados. Souto tem 7%, e Geddel, 4% das menções.
O petista amplia a liderança entre os mais ricos. Dos entrevistados com renda familiar acima de cinco salários mínimos, 58% dizem que votarão nele. Na mesma faixa, Souto aparece com 16%, e Geddel, com 7%.
Na faixa abaixo dos dois salários mínimos, Wagner recua para 42%. Souto tem 24%, e Geddel, 12%.
O governador também apresenta vantagem maior entre os baianos mais jovens. Ele alcança 53% no eleitorado de 16 a 24 anos de idade. Entre os jovens, Souto cai para 19%, e Geddel, para 12%”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 2:45

Cristovam, o xerife e o estadista

O senador Cristovam Buarque, do PDT, deu uma entrevista a repórter Raquel Ulhôa, do ‘Valor Econômico’, a quem admitiu vir a se candidatar ao governo de Brasília, embora preferissse concorrer a reeleição para o Senado: “Eu queria terminar a vida como estadista e o GDF é tarefa para xerife”, comentou.
Eis a entrevista:
- O senhor já decidiu se será candidato a governador?
- Acho que a melhor posição que eu posso exercer na política a serviço do Brasil e do Distrito Federal é no Senado. Tenho mais de cem projetos em andamento, um deles é o mais revolucionário do Brasil: cria a carreira nacional do magistério. Não gostaria vê-los parados. As crises do Senado passaram a idéia de que aqui é casa de mordomia, boa vida. Fica parecendo que estou fugindo da luta por interesse pessoal. Eu continuo olhando para o Senado, mas não posso fazer isso de costas para a população. E, quando a população diz que estou querendo abandonar Brasília, fica difícil.
- O que vai pesar em sua decisão?
- Primeiro, o ex-governador Joaquim Roriz não ser candidato. Se ele não for, não precisam de mim para ganhar eleição. Os candidatos quer representam o passado estão tão enfraquecidos, salvo o Roriz, que qualquer um que a gente apresentar vence. E a renovação virá, que é o que o povo quer. O segundo fato que, se acontecer, me libera para disputar o Senado, é as esquerdas se unirem. Se a gente fizer uma frente com oito, nove partidos, incluindo o PT, vamos ter força suficiente até para bater o Roriz. Acho que ele não vai ser candidato, mas só deve decidir isso lá para junho.
- Essa aliança depende do PT?
- No dia 21, o PT vai escolher um candidato (entre Agnelo Queiroz e Geraldo Magela, que disputarão prévias). Espero que saia unido e no outro dia venha conversar conosco, com sete partidos que estão trabalhando juntos (PDT, PSB, PCdoB, PPS, PV, PRB e PMDB).
- Esses sete apoiariam o candidato do PT?
- Nós vamos discutir isso, mas o PT é o mais forte. Eu, pessoalmente, defendo que seja do PT e unifique as forças de esquerda. Qual é o meu medo? Que o PT escolha o candidato e, para se unificar, se feche contra os outros partidos. Ou seja, forme uma chapa só deles: o que perder as prévias vai indicar o vice ou o candidato ao Senado. Isso nos dividirá. Por que, para ficarmos unidos, nós, desses sete partidos, queremos que os outros três cargos majoritários (vice e dois de senador) sejam dessegrupo. O PT seria apenas cabeça de chapa.
- Por que o senhor acha que Roriz vai acabar não se candidatando?
- Primeiro, porque vai se expor a um bombardeio da Justiça e da mídia. Além disso, seria governador pela quinta vez, em condições muito negativas. Ele é um homem fortíssimo. Erra quem menospreza o Roriz. Mas ele está num partido sem tempo de televisão, sem militância na rua.Terá dificuldade de comprar cabo eleitoral. A Justiça vai estar de olho. O que ele poderia é ter voto de gratidão, de quem recebeu lote no primeiro governo dele, que terminou em 94. Mas acho que essa gratidão não vai pesar tanto, porque os que receberam já estão velhos e os filhos não têm a mesma gratidão.
- Então seu destino em outubro está nas mãos do PT e do ex-governador Roriz?
- Se a esquerda se dividir e Roriz estiver na disputa, eu vou ter que ser candidato, porque pelo menos não vai ficar a marca de que o Roriz ganhou sem eu brigar com ele. Ele pode até ganhar, mas ninguém vai poder me acusar de virar as costas. Essa é minha tragédia hoje. Olhar para o Senado de costas para o povo.
- O PMDB era aliado de Arruda. Com ele nesse grupo dos sete, dá para falar em união das esquerdas?
- A palavra esquerda é realmente muito forte. Na verdade, é a união das forças que desejam a mudança. Você pode dizer que o PMDB era o partido do Roriz até pouco tempo. Mas o PMDB conseguiu tirar o Roriz dele. E essa crise do Arruda, eu trabalho como sendo crise de pessoas, não de partidos. Até o Democratas está se recuperando bem, na medida que tirou Arruda, Paulo Octávio (ex-vice-governador) e deputados envolvidos.
- Esse escândalo que levou Arruda para a cadeia atingiu também a Câmara Legislativa. A política aqui está contaminada?
- Você já comparou nossa Câmara, com toda sua fragilidade – não estou desculpando -, a todas as 5.563 Câmaras de Vereadores do Brasil para saber se a nossa é pior?
- O senhor está tratando-a como Câmara de Vereadores mesmo?
- Assim como trato o governador como prefeito. Governador aqui é um prefeito. Quando fui governador, cheguei a discutir a possibilidade de a polícia ser comandada do Palácio do Planalto. Sabe por que? Por uma questão de estadismo. Um dia, pode haver um governador, comandando a PM, com mais tropa que o exército em Brasília, que queira invadir o palácio. Essas mudanças têm que ser discutidas. Realmente, são duas coisas diferentes: a capital e a cidade. Brasília hoje é muito maior que a capital. Brasília tem uma peculiaridade. Todo mundo que faz política aqui entrou na política recentemente. Eu não conseguiria ser eleito governador na primeira eleição que disputasse em nenhum outro Estado. Brasília ainda é um faroeste. Um lugar a ser desbravado. Em algumas áreas evoluiu, como em medicina e na ciência e tecnologia. Na política, a gente chegou atrasada. Aqui não tinha líderes, até porque os governantes eram nomeados. Eram interventores. Ficamos mais tempo da história sem direito a voto do que com voto. Temos existência pequena.Tivemos apenas quatro governadores e quatro Câmaras Legislativas até aqui. A primeira não foi ruim. Mas o fisiologismo chegou lá também. A política virou questão de marketing, compra.
- O fato de ser a capital estimula a corrupção, o fisiologismo?
- Não. É por ser nova, não ter tradição nem lideranças consolidadas. Aqui não teve um Miguel Arraes, um Leonel Brizola, um Antonio Carlos Magalhães, que levaram décadas para criar suas carreiras. Eu saí de uma reitoria para ser governador. Eu me filiei só em 90. Isso é fruto do fato de a cidade ainda estar sendo desbravada em todas as áreas,inclusive na política.
- O senhor acha que o escândalo atual vai forçar uma mudança, uma ruptura em relação à prática política de Brasília?
- Essa é minha esperança: que Brasília, daqui a quatro anos, seja a cidade com o melhor sistema governamental do ponto de vista ético. Não acredito que seja possível o eleitor repetir erros e que os governantes cometam os erros que Arruda cometeu, mesmo que tenham vocação para cometer esses erros. Por uma questão de sobrevivência. Brasília vai poder construir uma novidade na forma de administrar. Aliás, acho até que na campanha. Espero não ser candidato a governador, mas, se for,penso em algumas inovações. Exemplo: divulgar todas as contribuições imediatamente na internet e não receber contribuição para a campanha acima de R$ 10 mil ou R$ 20 mil. Ao estabelecer um teto por doador você não fica com débito. Quando vier um empresário disputar uma licitação de R$ 500 milhões, não vai poder cobrar nada. Se doou R$ 200 mil já começa a querer cobrar. Coisas como essa podem inovar Brasília.
- Uma intervenção federal não poderia ser uma solução para o momento em que nenhuma instituição é confiável?
- A possibilidade de intervenção está na Constituição. Esse negócio de dizer que é a falência da democracia não é verdade. A intervenção se dá dentro da democracia. Seria falência se fosse o comandante da PM que indicasse o governador ou um empresário rico. Mas não, é a justiça. Mas minha opção é que o governador para esse final de mandato seja eleito pela Câmara Legislativa. Mas, para ter legitimidade, o eleito tem queter cara, cabeça, coração e mão de interventor. Isso é uma das coisas que também me fazem temer ser candidato. Eu queria chegar nessa idade como estadista. O próximo governador vai ser um xerife. A principal prioridade não vai ser a educação. Vai ser a ética. A grande tarefa é construir uma máquina exemplar de governo, em que mesmo ladrão não consiga roubar e nem os desonestos possam ser corruptos. Essa vai ser a obrigação. Por isso não sou entusiasmado em ser candidato a governador.Não é o que eu gostaria de deixar como marca: construir um governo ético. Queria deixar como marca a mudança na sociedade e não na máquina do governo. Repito: não gostaria de terminar a vida como xerife, queria terminar como estadista.
- Sua proposta significa uma intervenção legalizada pela Câmara.
- É isso. E por que essa sutileza? Por que a intervenção não é um abalo na democracia, mas é um abalo na classe política. É o fracasso da política. E o fracasso da política é ruim pedagogicamente. A ideia que  vai passar é que foi preciso a Justiça intervir, porque os líderes daqui não foram capazes de encontrar uma saída. Falo da autonomia de 2 milhões de habitantes. É uma população do porte de outros Estados. A gente vai cortar a autonomia do Acre, de Rondônia? Por que cortar autonomia da população do DF?
- Mas essa Câmara, que tem entre seus deputados pessoas envolvidas no escândalo, tem condições de eleger uma pessoa com o perfil que o senhor defende?
- Essa é uma pergunta que não dá para responder ainda. Ninguém dizia, há duas ou três semanas atrás, que eles iriam aceitar o processo de impeachment do Arruda. E votaram por 17 a 0. E eu acho que vão cassar o Arruda.
- Há quem diga que ele pode apoiar um candidato em outubro. Acredita que ele ainda tenha alguma influência política no GDF?
- Tem. A gente fala muito dos lotes. Mas esquece que, como Brasília é Estado e prefeitura, o número de cargos comissionados é muito grande.Acho que são 35 mil num total de 150 mil servidores, mais ou menos.Aqui o governador se fortalece dando aumento salarial e distribuindo lotes. Um candidato apoiado por ele não teria chance de ganhar, mas teria muitos votos”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 2:23

Aleluia desrespeita memória de ACM

 O presidente da Câmara, Michel Temer, foi obrigado ontem a suspender a sessão, depois de um  bate-boca entre o vice-líder do DEM, deputado José Carlos Aleluia, e deputados do PT e do PCdoB.
O deputado baiano disse que Fidel e seu irmão  Raul Castro são assassinos.
Se o líder de Aleluia, Antonio Carlos Magalhães, estivesse vivo, ele certamente daria um puxão de orelhas no correligionário.
Morto, ACM deve ter dado um puxão nos pés de Aleluia na madrugada que passou.
ACM adorava Fidel, e vice-versa.
Todas as  vezes que Fidel esteve no  Brasil, inclusive na posse de Collor, ele fez escala em Salvador para almoçar com o amigo. Certa vez, ameaçou levar para Havana a cozinheira do governador.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 1:50

Um perfil de Michel Temer

O repórter Caio Junqueira produziu hoje o mais completo perfil do presidente da Câmara, Michel Temer, pré-candidato do PMDB à vice-presidente na chapa encabeçada por Dilma Rousseff. O texto foi publicado no ‘Valor Econômico’:
“Foi em uma viagem de três horas e meia entre Natal e São Paulo, em setembro de 2008, que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB), entre goles de uísque, consolidaram seu relacionamento partidário e pessoal. Apararam arestas, reduziram desconfianças mútuas e discorreram longamente sobre suas trajetórias que, de semelhante, têm apenas o êxodo das famílias para São Paulo em busca de melhores condições de vida. O restante de suas histórias os distancia, mas isso não será obstáculo para que o deputado seja avalizado pelo presidente como o vice na chapa governista encabeçada pela ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff.
Caçula temporão de oito irmãos – Salim, Sumaia, Tamer, Fued, Elias, Adib e Jorge – filhos de um casal de imigrantes libaneses foragidos das dificuldades do pós-guerra em seu país nos anos 20, Michel Miguel Elias Temer Lulia, 69 anos, paulista de Tietê (159 km a noroeste de SP), tem a chance de vencer a primeira eleição majoritária de seus 27 anos de vida pública.
Sustenta a expectativa na suposta capacidade que o presidente tem de transferir sua popularidade e votos a uma dupla composta por uma técnica sem carisma e um jurista sisudo e rigorosamente formal.
Temer só chegou a cargos executivos por meio de nomeações, como nas duas vezes em que ocupou a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, nos governos pemedebistas de Franco Montoro (1983-1987) e Luiz Antonio Fleury Filho (1991-1994), do qual também foi secretário da Casa Civil. Quando tentou articular uma pré-campanha ao governo do Estado, como na sucessão de Fleury Filho, em 1994, foi atropelado pelo atual presidente da Assembleia paulista, Barroz Munhoz (hoje no PSDB); e na sequência ao governo Mário Covas/Geraldo Alckmin (PSDB), em 2002, quando o ex-governador paulista Orestes Quércia articulou para barrar seu nome. Quando finalmente conseguiu emplacar como vice foi um fracasso eleitoral. Aconteceu em 2008, na disputa pela prefeitura paulistana, ao lado de Luiza Erundina (PSB). Amargaram um quarto lugar, com 4% dos votos.
Mesmo para a Câmara dos Deputados, onde está desde 1987, só foi eleito diretamente em 1995. Nas eleições de 1986 e 1990, estava na suplência e só assumiu porque os titulares deixaram o cargo. Em 2006, seus 99 mil votos em um universo de 30 milhões quase o tiraram da vida pública. Ficou com a vaga apenas na divisão das sobras do quociente eleitoral.
Relembrado dos péssimos números, aponta como motivo o fato de fazer política por Brasília, e não por São Paulo. “Sempre preferi a macropolítica em vez da micropolítica. Vejo colegas com clientela no fim de semana, recebendo um monte de gente. Eu não tenho muito isso”, explica ao Valor em seu espaçoso escritório político no Itaim, zona oeste de São Paulo.
Na macropolítica, Temer passeia. Desde sua eleição “de fato” para a Câmara, em 1995, conseguiu colocar seu gabinete como ponto obrigatório de passagem dos altos escalões da República, tanto no governo Lula como no governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB). E é aí que residia – e ainda reside – a principal aresta entre ele e os petistas. Temer foi, depois da segunda metade do primeiro mandato de FHC, um dos principais auxiliares dos tucanos no Congresso. Sua primeira eleição para a presidência da Câmara – com o apoio do Planalto – foi resultado de seu esforço em levar parte do PMDB a aprovar a emenda da reeleição. A segunda vez em que ocupou a presidência, em 1999 e 2000, decorreu da costura política que realizou para que o PMDB fechasse informalmente apoio a FHC nas eleições de 1998 e, de forma oficial, com o governo no segundo mandato. No discurso de posse na segunda presidência da Câmara, rasgou elogios a FHC, “um dos mais eminentes homens da história republicana, destacado por seu preparo, sua visão da geopolítica internacional, pelo equilíbrio com que vem comandando o mais arrojado programa de mudanças do Brasil contemporâneo”.
Mudanças que ganharam celeridade quando usou seus conhecimentos no direito para criar interpretações que agilizaram o processo legislativo. No governo tucano, as reformas caminharam mais rápido depois que as emendas puderam ser promulgadas mesmo sem todos os dispositivos aprovados. Fez algo parecido no ano passado, dessa vez em prol da Câmara, quando uma reinterpretação da tramitação das medidas provisórias fez com elas não mais trancassem a pauta da Casa.
Em suas movimentações políticas, contou com o apoio do grupo com o qual atua até hoje, cuja característica é a maleabilidade política e a capacidade de ocupar espaço no Executivo em troca de apoio no Legislativo. Compõem o grupo Henrique Eduardo Alves (RN), atual líder do PMDB na Câmara; o ex-governador do Rio Moreira Franco, atual vice-presidente da Caixa Econômica Federal e assessor especial de FHC entre 1998 e 2002; e Geddel Vieira Lima (BA), atual ministro da Integração Nacional, que foi líder do PMDB na Câmara entre 1997 e 2002.
A estratégia comum do grupo consiste em, inicialmente, proclamar independência e autonomia em relação ao governo e ameaçar barrar seus projetos no Legislativo. O Executivo, ciente do poder do PMDB e de suas grandes bancadas – não raro as maiores na Câmara e no Senado -, cede e aumenta a participação da legenda no governo, seja nos ministérios, seja no acesso aos recursos públicos federais pelas prefeituras pemedebistas, sempre ao redor de mil das 5.645 do país. Por fim, o grupo acaba aderindo totalmente ao governo.
O expediente utilizado nos anos FHC repetiu-se sob a era Lula. No primeiro mandato do petista, Temer proclamou a independência de seu grupo, o que fez com que o governo passasse apuros na Câmara, já que no Senado José Sarney (AP) e Renan Calheiros (AL) garantiam ao menos parte da sigla com o presidente. No segundo mandato, atendeu ao pedido de Lula por um PMDB inteiro na base e aderiu ao governo. Em troca, ocupou espaços no governo federal.
Essa prática política fez com que o partido ganhasse a pecha de fisiologista e pragmático, da qual Temer, presidente da legenda desde 2001, discorda. “Nem pragmatismo nem fisiologismo. Essa é a realidade conceitual da política. O PMDB, maior partido do país, apoia o governo. Lula conseguiu implantar todas as políticas sociais porque o PMDB deu apoio a ele. Agora, ele é fisiológico porque participa do governo? Estranho seria o PMDB apoiar o governo e não ter nenhum cargo”, afirma.
Para ele, é a característica do sistema político brasileiro que propicia esse tipo de relação. “Se o governo não fizesse uma aliança com o PMDB, conseguiria governar com cento e tantos votos contrários na Câmara e 21 contrários no Senado? Isso não é uma ameaça do PMDB, é uma realidade política. Se estivéssemos no parlamentarismo ninguém faria essa pergunta porque nele se faz coalizões. Aqui, de uma forma ou de outra, temos um arremedo do parlamentarismo: é preciso fazer uma coalizão no presidencialismo”.
O valor da “realidade política” a que Temer se refere pode ser medido em votos. No governo FHC, o apoio ao tucano lhe valeu, além da dupla presidência na Câmara, indicações para a diretoria da Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp), o porto de Santos. O resultado veio em 2002. Temer teve o maior número de votos em sua história: 252.229.
Com a vitória de Lula neste mesmo ano, o deputado afastou-se do poder central, perdeu o controle de Santos – dividido entre PT e PSB -, não ocupou cargos na Mesa e não indicou nomes para nenhum órgão federal. Passados quatro anos, teve a pior votação de sua história, 99.046, e só pôde assumir com as sobras do quociente eleitoral.
Ali viu que o casamento com o PT e Lula era uma questão de sobrevivência política. Fez-se, então, o acordo, semelhante ao realizado com FHC. O PMDB apoiou o petista Arlindo Chinaglia (SP) para a presidência da Câmara. Temer sagrou-se seu sucessor e, de quebra, arrematou indicações para cargos federais, mantidos até hoje: Wagner Rossi na presidência do Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), Moreira Franco na Caixa, Miguel Colasuonno na Eletronorte (diretor administrativo) e Raze Rezek, irmão do deputado estadual paulista Uebe Rezek, na coordenação paulista da Funasa.
Temer vê essa participação ativa nos governos dos arquirrivais PT e PSDB com naturalidade. “O PMDB se tornou um partido congressual e rótulos de esquerda ou direita não existem mais. O que o cidadão quer é política de resultados. Só houve controle da moeda e da inflação porque o PMDB apoiou FHC no Congresso. E se o PMDB estivesse contra as medidas sociais do governo Lula, ele não teria feito o maior plano de inclusão social que ele fez ao longo desses anos. Percebe?”
Evita, porém, comparar as duas gestões. “Precisamos ter consciência de que os governos têm uma sequência. Uns podem ir melhor que outros, mas todos têm uma âncora positiva ou negativa no passado. Este governo [Lula] tem uma âncora no passado na questão do Plano Real, por exemplo. Se não tivesse estabilidade da moeda não sei se esse grande plano de inclusão social que o Lula conseguiu fazer sairia do papel”, diz.
A profusão de elogios tanto ao governo FHC quanto a Lula deixa os petistas receosos. Temer sempre foi tido como “o mais tucano dos pemedebistas”. Em 2002, foi um dos coordenadores da campanha presidencial de José Serra (PSDB). Seu padrinho político, o ex-governador de São Paulo Franco Montoro, foi um dos fundadores do PSDB. Eleito governador em 1982, deu a Temer seu primeiro cargo público, de procurador-geral do Estado.
Até então, Temer acompanhava a vida política do país à distância. Formado na Faculdade de Direito do Largo São Francisco às vésperas do golpe militar de 1964, passou todo o regime advogando, dando aulas de direito e exercendo o cargo de procurador do Estado. Nos anos 70, compôs um dos mais importantes grupos de estudiosos de direito público do país, estruturado na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), com Celso Antonio Bandeira de Mello – considerado seu melhor amigo -, Celso Bastos e Geraldo Ataliba. O livro de Temer, “Elementos de Direito Constitucional”, é dos mais utilizados entre estudantes de direito.
Assim que foi eleito governador, Montoro nomeou o advogado e ex-ministro da Justiça de FHC José Carlos Dias para a Secretaria de Segurança e pediu nomes para a Procuradoria. Dias lembrou de Temer, que Montoro conhecia da PUC. Acabou levando o cargo. Meses depois, Dias deixou a secretaria e indicou Temer para ocupá-la. Montoro encampou a ideia e Temer assim chegou, pela primeira vez, a um cargo executivo de alto escalão. A gestão foi marcada por protestos e ocupações, comuns naqueles tempos de redemocratização, e nos quais Temer começou a mostrar sua habilidade política e capacidade de conciliação. Evitava usar a força policial para invadir prédios ocupados por representantes do movimentos sociais. Ao contrário, entrava ele mesmo com seus assessores para negociar as retiradas.
Montoro deixou o PMDB em 1988 para fundar o PSDB, com Covas, Serra e FHC, mas aconselhou Temer a permanecer no partido, para não correr o risco de ser “ofuscado pelas estrelas”. Temer titubeou, mas acabou ficando. “O partido estava desfalcado. Os grandes líderes estavam saindo. Em outras palavras, lá no PSDB ia ter muito cacique”, lembra.
Voltou a assumir a Segurança dias após o episódio do Carandiru, em que uma rebelião de presos no então maior presídio do país resultou em chacina com as mortes de 111 detentos. Sua missão ali era pacificar a polícia e a sociedade civil, em especial, as organizações de direitos humanos. Acabou ficando dois anos e meio no cargo.
Na entrevista ao Valor, o deputado definiu-se como um “conciliador”. Uma descrição que coincide com a percepção que outros políticos têm dele: “cerimonioso”, “diplomata”, “não entra em bola dividida”, “cordato”, “não é capaz de dizer um palavrão”, “comedido”, “preserva-se de vícios de linguagem” e “tem grande preocupação em não trombar com ninguém”.
Nem assim conseguiu evitar alguns enfrentamentos políticos. O maior, circunstancial, foi com o senador Antonio Carlos Magalhães (DEM), morto em 2007. Em 1999, discordâncias quanto à reforma do Judiciário fizeram com que ACM dirigisse fortes ataques a Temer, a quem chamou de “bajulador do governo”. Veio o revide: “Quem atravessou a praça dos Três Poderes para pedir ao presidente que ajudasse um banco falido não fui eu”, numa referência às relações entre ACM e o banqueiro Ângelo Calmon de Sá, do Banco Econômico.
ACM, porém, não foi o maior adversário de Temer. O posto é ocupado até hoje pelo ex-governador de São Paulo Orestes Quércia, presidente do PMDB paulista desde 1994. A relação entre os dois é espinhosa e turbulenta. Dificilmente estão juntos politicamente, situação que se repetirá neste ano: Quércia está com o PSDB e Temer, com o PT. Há quatro anos, Temer estava com o PSDB, Quércia, “independente”. Em 2002, Quércia foi de Lula e Temer, de Serra. Em 1998, Temer apoiou FHC e Quércia, a “independência”.
Para os quercistas, Temer não é confiável. Já aliados de Temer consideram que Quércia tem “ciúmes” do destaque nacional ocupado pelo presidente da Câmara. “Se eu fosse depender da cúpula do PMDB paulista para ser alguma coisa, eu não seria nada”, disse Temer. Em 2006, por exemplo, havia acordo para que ele fosse vice do então candidato a governador José Serra. Quércia, em junho, lançou sua candidatura e tornou inviável a composição. Depois, retirou a candidatura.
Temer fracassou nas tentativas de tirar Quércia da presidência regional do partido, algumas delas sangrentas. Hoje, controla cerca de 40% do diretório e ultimamente optou por fazer acordo com o ex-governador: em troca do apoio de Quércia no PMDB nacional, dá apoio a Quércia no PMDB paulista. Essa política deve se manter até a próxima disputa, dentro de dois anos, uma vez que os operadores de Temer no Estado já fazem os cálculos para tentar, mais uma vez, desbancar Quércia. Não querem que o vice-presidente – se eleito, evidentemente – não domine o diretório de seu Estado.
Mas a indicação a vice ainda terá que vencer alguns obstáculos – como a cautela de petistas em relação ao seu nome, as preferências do próprio Lula, além das articulações dos dois partidos nos Estados – para se concretizar. Rumores dão conta que o preferido de Lula para vice de Dilma é o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. Já Hélio Costa, ministro das Comunicações e pré-candidato do PMDB ao governo de Minas, passou a ser cogitado para dar uma solução à divisão da base aliada em Minas, Estado considerado crucial para a campanha deste ano.
A afamada cortesia de Temer também desaparece quando se menciona as reportagens que o envolvem na Operação Castelo de Areia, da Polícia Federal, sobre supostas ligações ilícitas entre a construtora Camargo Corrêa e políticos. O nome de Temer estaria em uma das planilhas que listam políticos que teriam recebido propina da empresa. “Não tenho nada contra que se noticie o fato, mas fico chateado quando só se conta metade da história, dando prioridade ao lado negativo. É tudo causa dessa história de ser vice”, diz.
Nas três horas de entrevista que deu ao Valor, esse foi a único momento em que o deputado saiu do tom: “Teve um rapaz que escreveu um negócio sobre mim tão doloroso, uma coisa tão biliar, como se eu fosse um reles, rasteiro, vagabundo, ordinário. E pior que uma vez ele almoçou comigo, fez muitos elogios a mim. Mas eu senti que ele tá…” [dando a entender que o jornalista apoia Serra na sucessão]. Conta que não reclamou ao veículo de comunicação, mas mandou seus livros de direito constitucional de presente ao jornalista.
Em seu segundo casamento, Temer é bastante discreto ao falar de seus relacionamentos afetivos. Sabe-se que sua primeira mulher, Neusa Aparecida Popinigis, era decoradora. Com ela teve três filhas. A mais velha, Luciana, 40 anos, é doutora em direito constitucional e trabalha em um órgão ligado ao governo paulista, a Fundação Faria Lima. As outras duas, Clarissa, 37 anos, e Maristela, 35 anos, são psicólogas. Entre o primeiro e o segundo casamento, Temer teve dois relacionamentos sérios sobre os quais mantém silêncio. Um deles com uma jornalista que mora em Londres e com a qual teve um filho, Eduardo, hoje com 10 anos, que nasceu na Inglaterra. A atual mulher, Marcela Tedeschi Araujo, 26 anos, participava de concursos de miss em Paulínia (126 km a noroeste de SP) e trabalhava na prefeitura, ocupada pelo PMDB. Em um evento político na cidade, há seis anos, se conheceram e casaram. Há oito meses, nasceu o primeiro filho do casal, Michel”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 1:19

A verdade sobre o painel do Senado

No dia 1º de novembro, o governador José Roberto Arruda deu uma entrevista ao repórter Kennedy Alencar, para o programa ?É Notícia?, da Rede TV.
Revendo o terceiro bloco do programa, no site da emissora, é espantoso como Arruda ? dizendo que a mentira o incomodava ? continua mentindo.
E o pior. Mente, e deixa a entender que o criminoso foi um morto: o senador Antonio Carlos Magalhães.
Vamos aos fatos.
Em 2001, o  senador e empresário Luiz Estevão sofria um processo de cassação no Senado, pois sua empresa era a construtora do prédio super faturado onde funcionaria a Justiça do Trabalho, em São Paulo, presidida pelo famoso juiz Lalau.
A punição contra o juiz era ponto de honra para ACM, que estava numa cruzada contra a corrupção. E a punição de Estevão era do maior interesse de Arruda, pois os dois disputavam votos na mesma cidade e eram antigos rivais.
Arruda, engenheiro de profissão, foi quem sugeriu a ACM a violação do painel. Não fez sozinho, pois necessitava do aval do presidente do Senado para solicitar a ilegalidade aos funcionários da Casa.
Portanto, a idéia foi de Arruda, e as providências foram tomadas por ele. Tanto que o envelope, com o voto de cada um dos senadores, foi entregue a ele, e não a ACM. Ele mesmo confessa que leu o relatório primeiro e, depois, foi ao gabinete do presidente.
Portanto, seu crime não foi apenas o de ler um papel que deveria ser sigiloso. Ele foi o arquiteto do crime, e mentiu durante cinco dias dizendo que nada sabia sobre o assunto.
Arruda é homem bastante inteligente e a violação do painel do Senado, na verdade, foi um golpe de mestre.
Ele queria ter apenas uma certeza: a de que Luiz Estevão seria cassado.
E por isso violou o painel.
Estevão era poderoso, articulado e temido por todos, além de pertencer a maior bancada do Senado. Portanto, tinha chances, através do voto secreto, de livrar-se da cassação.
Se Estevão fosse absolvido, Arruda subiria a tribuna, com a relação dos votantes, e diria que recebeu o envelope de um anônimo em seu gabinete.
Ao exibir os votos, estaria provada a violação do painel, e a absolvição de Estevão seria anulada.
Nova votação seria marcada, com tempo suficiente para pressionar, politicamente, aqueles que votaram com Estevão.
Como o senador foi cassado, Arruda perdeu o interesse pelo voto de cada um, já que seu intento já havia sido alcançado.
Por isso, levou o papel imediatamente ao presidente Antonio Carlos Magalhães, político experiente, mas que adorava um fuxico.
Foi a indiscrição do todo poderoso ACM que fez o caldo entornar.
O poder de Antonio Carlos não o bastava. Era preciso exibi-lo. E durante meses ele fez comentários sobre aquela votação.
E Arruda, que mentiu descaradamente durante dias sobre o assunto, acabou – junto com ACM – tendo de renunciar ao mandato de senador, onde era líder do governo FHC, para evitar a cassação por seus pares.
Portanto, o crime de violação do painel foi idealizado, solicitado, e recebido por um único homem: José Roberto Arruda.
Na época ele mentiu, em parte. Hoje, com ACM morto, sua mentira foi ampliada.
Mentir para ele é fácil.
Chorar também.
O difícil será conquistar um novo mandato.
Arruda simboliza hoje o que existe de pior na política brasileira.

  • Segunda-feira, 12 Julho 2010 / 23:21

De Arinos para Sarney

O jornalista Élio Gaspari publica hoje na ‘Folha’ e no ‘Globo’ o seguinte artigo:

“José,
Renuncie, homem. Aqui somos três a pedi-lo. Eu, o Milton Campos e o Pedro Aleixo, três amigos, velhos companheiros a quem você admirava com sorriso encantado quando chegou à Câmara, em 1959, aos 29 anos.
Todos três passamos por momentos em que nos enganamos quando as circunstâncias se confundiram com a existência. Na renúncia do Jânio eu era ministro das Relações Exteriores e deveria ter defendido, desde o primeiro momento, a posse do doutor João Goulart. Em 1964, diante dos primeiros casos comprovados de tortura, o Milton deveria ter renunciado ao Ministério da Justiça. O Pedro Aleixo reconhece que naquela reunião que editou o AI-5 ele devia ter devolvido a Vice-Presidência. Um ano depois, apearam-no. Nos três casos, as circunstâncias indicavam que devíamos fazer o que fizemos.
Confundidos, pensávamos que não havia opção melhor. Você sabe que a modéstia nunca foi um
dos meus atributos: não percebemos quão grandes éramos.
Com justos motivos você avalia suas opções levando em conta o que diz o presidente Lula, o apoio do senador Renan Calheiros e até mesmo a agressiva defesa representada por Fernando Collor. Você pensa até no PMDB. Tudo circunstancial. Em 1988, Lula te chamou de “incapaz” cinco vezes em 43 segundos. O que haveria de pensar o jovem José Sarney se visse a mim, ao Milton e ao Pedro almoçando no Bife de Ouro com o Tenório Cavalcanti e o Amaral Neto? Claro que pouca gente sabe quem são esses dois (nem estamos aqui para reapresentá-los). Assim como os jovens de hoje não lembram o que foi a UDN, os de amanhã não lembrarão o que foi o PMDB.
Renuncie, homem. Saia desse contratempo e carregue seus penares. A crise é sua, mas a essa altura ela interessa aos outros. Ao Lula convém um Congresso desmoralizado. Aos aliados do PMDB interessa mostrar que têm os poderes dos embalsamadores. Fuja do sarcófago.
Censurar jornal, José? Chantagear o Pedro Simon, Sarney? Esse não é nosso patrimônio. O presidente que ficou impassível enquanto seu ônibus era apedrejado e riscou com o traço da bonomia sua passagem pela vida pública está se apedrejando.
Orgulhamo-nos da tua alvorada. Não compartilhe o crepúsculo com os senadores Calheiros e Collor. O Antonio Carlos Magalhães diz que isso é feitiço de um certo Bita do Barão, com seus tambores de Codó.
Milton Campos e Pedro Aleixo pediram-me que escrevesse porque insistem em lembrar a qualidade do meu discurso de 9 de agosto de 1954. Até hoje sofro por esse ataque ao Getúlio Vargas. Não que devesse poupá-lo, mas padeço pelo que sucedeu 15 dias depois. (Ele evita encontrar comigo, nunca me dirigiu a palavra e, na chegada do d. Helder Câmara, negou-me a mão.) Sei que você memorizou trechos dessa fala e sei que você jamais viu malícia na minha alma.
Como o Pedro e o Milton insistiram ao ponto da impertinência, repito-me:
“Senhor presidente Getúlio Vargas, eu lhe falo como presidente (…) tome afinal aquela deliberação, que é a última que um presidente, na sua situação, pode tomar. (…) E eu falo ao homem Getúlio Vargas e lhe digo: lembre-se da glória de sua terra (…) lembre-se homem, pelos pequeninos, pelos humilhados, pelos operários, pelos poetas”.
Com as recomendações de Annah e os votos pela recuperação de Marly, deixa-lhe um abraço e a certeza da amizade, o seu,
Afonso”

  • Segunda-feira, 12 Julho 2010 / 21:30

Sarney, o supersticioso

O presidente do Senado, José Sarney, é conhecido como um dos políticos mais supersticiosos da República. Uma dessas superstições  é sempre sair pela porta que entrou, com medo de se perder de seu anjo da guarda.
Ao assumir a presidência do Senado em substituição ao baiano Antonio Carlos Magalhães, mandou fazer uma varredura no gabinete, a procura de grampos telefônicos. Descobriu patuás de candomblé e, por conta deles, preferiu ocupar um espaço menor.
É conhecido o episódio do jacaré empalhado que enfeitava o hall de seu apartamento funcional, no bloco G da Superquadra 309.
O animal pertencia ao vizinho Jarbas Passarinho, no início dos anos 80. Mas Sarney não gostou do animal e chamou o colega Itamar Franco, supersticioso como ele, para que o ajudasse a se livrar daquele espantalho.
Os dois pegaram o bicho empalhado e o afogaram no Lago Paranoá. O curioso nessa história, é que existe uma coincidência que liga a biografia de ambos: eles chegaram a Presidência da República devido a acidentes históricos: a morte de Tancredo Neves e o ‘impeachment’ de Fernando Collor.
Não se sabe se por superstição ou por exigir respeito a liturgia do cargo, o fato é que nas duas vezes que Sarney presidiu o Senado, ele mudou a cadeira da presidência – azul de couro como a dos demais senadores – e colocou uma velha poltrona que compunha o mobiliário do Palácio Monroe, antiga sede do Senado no Rio de Janeiro.
Suas duas administrações anteriores não tiveram sobressaltos.
Dessa vez, a crise é tamanha, desde sua eleição para a Mesa, que Sarney não teve tempo nem mesmo de mudar a cadeira da presidência.
Quem sabe ele muda a poltrona e as coisas se acalmam.
Pelo menos para o seu lado.

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