• Quinta-feira, 15 Julho 2010 / 11:51

A multiplicação dos bens

Rodrigo Betlhem é excelente administrador. Seu patrimônio, em quatro anos, aumentou 421,7%. Diz que é a sua academia. Ou seja: os outros suam e ele fatura

Dulio Victor e Fábio Brisolla são os responsáveis pela melhor reportagem de hoje, em ‘O Globo’: “A multiplicação de bens dos deputados” – prova maior de que a lei da Ficha Limpa, por si só, não é barreira suficiente para por fim a pouca vergonha de muitos de nossos parlamentares:
“O cadastro com informações repassadas ao TSE pelos candidatos às eleições proporcionais no Rio de Janeiro revela o talento de um grupo de políticos à frente da administração de seus bens pessoais. Em algumas declarações, os valores quadruplicaram, como no caso do deputado federal Rodrigo Bethlem (PMDB), que conseguiu aumentar seu patrimônio de R$230 mil para R$1,2 milhão no período de quatro anos. Outro exemplo é o deputado federal Alexandre Cardoso (PSB), que subiu de R$656 mil para R$3,3 milhões. Os bens da deputada federal Senhorita Suely (PR) variaram 1.712%. A lista é eclética, com representantes de diversos partidos.
O deputado federal Alexandre Cardoso (PSB) é médico de formação e um dos principais nomes de seu partido no Rio. O crescimento patrimonial informado à Justiça Eleitoral foi de R$2,64 milhões em quatro anos. Na lista de bens divulgada pelo TSE, o candidato, que concorre à reeleição, informou ter guardado R$1 milhão em espécie.
Além do dinheiro no colchão, um prédio em Duque de Caxias, avaliado em R$650 mil, e uma aplicação em renda fixa de R$962 mil não existiam na declaração de bens de 2006.
Um dos recordes registrados é da deputada federal Senhorita Suely (PR), que aumentou de R$25 mil para R$453 mil. De 2006 para cá, ela comprou dois apartamentos em São Paulo.
Antes de alcançar um aumento de 421% no patrimônio, Rodrigo Bethlem começou sua carreira em 1993, como subprefeito da Lagoa, no Rio. Em 2007, quando estava na lista de suplentes para a Câmara dos Deputados, virou xerife das operações Choque de Ordem do governo do estado. Foi nomeado secretário municipal da Ordem Pública da prefeitura. Sua maior aquisição no período em que combateu a desordem urbana foi uma casa em um condomínio na Zona Oeste do Rio, no valor de R$906 mil.
O deputado estadual Rodrigo Dantas (DEM) chegou a ocupar a secretaria municipal de Obras do Rio, em 2008, sucedendo ao pai, Eider Dantas. Em quatro anos, de acordo com TSE, aumentou o patrimônio em 337%, para R$1,36 milhão. Em 2006, declarara R$297 mil.
Colega de Assembleia Legislativa de Dantas, Márcio Panisset (PDT) é este ano 562% mais rico que em 2006, quando se candidatou. Tem oito imóveis declarados entre o R$1,1 milhão em bens informados ao TSE. A família Panisset domina o cenário político de São Gonçalo, onde sua irmã, Aparecida Panisset está no seu segundo mandato como prefeita. Até se candidatar a mais um mandato na Alerj, Márcio já ocupou o cargo de secretário de Saúde da cidade.
O carioca Felipe Bornier, de 31 anos, é filho de Nelson Bornier, ex-prefeito de Nova Iguaçu e com quatro mandatos como deputado federal, o último deles obtido na eleição de 2006. Na mesma ocasião, Felipe também foi eleito deputado federal pelo nanico PHS fazendo uma dobradinha com o pai. O rapaz estreou na vida pública com R$1,9 milhão. Em quatro anos, aumentou em R$500 mil esse valor, alcançando a marca de R$2,4 milhões. Entre os bens da lista estão salas comerciais e cotas de três apartamentos na Barra da Tijuca. Outro deputado em primeiro mandato, Adilson Soares (PR) viu seu patrimônio multiplicar em 465%, chegando a R$657 mil. Em 2006, eram R$116 mil.
O assistencialismo caracteriza a atuação do veterano deputado estadual Domingos Brazão. Em julho passado, o TRE determinou o fechamento da sede da Ação Social Gente Solidária Domingos Brazão, na Taquara, Zona Oeste. Os fiscais do TRE apreenderam no local centenas de escovas de dente com o nome Brazão entre outros produtos com a imagem do candidato. Nascido em Jacarepaguá, Brazão acumula três mandatos como deputado estadual. Na última eleição, ele declarou um patrimônio de R$1,2 milhão. Desde então, alcançou um aumento de 316%. A cifra de R$5 milhões inclui cotas em mais de dez postos de gasolina, lotes de terra e um apartamento avaliado em R$2 milhões na Barra da Tijuca.
A divulgação do patrimônio dos políticos na internet é uma prática recente. Em junho de 2004, O GLOBO publicou a série de reportagens “Os homens de bens da Alerj”, com um levantamento inédito do patrimônio de 27 deputados do Rio. Até então, os bens acumulados pelos candidatos eram declarados à Justiça Eleitoral, mas não divulgados pelos tribunais na internet”.

Alexandre Cardoso declarou que tem R$ 1 milhão em espécie, para viagens e despesas pessoais  Alexandre Cardoso  tem R$ 1 milhão, em espécie, para viagens e despesas pessoais

 
 
Riqueza viria da iniciativa privada

Essa é assinada por Alessandra Duarte, Carolina Benevides e Marcelo Remígio:
“Herança, lucro com empresas e reavaliação de imóveis foram as principais justificativas apresentadas pelos candidatos que aceleraram o crescimento do patrimônio desde 2006. O deputado estadual Domingos Brazão (PMDB) informou que é sócio-cotista em diversas empresas privadas, como postos de gasolina.
- Gero emprego e renda para quase 800 famílias e pago meus impostos rigorosamente em dia – disse Brazão, que franquia ao público o acesso à sua declaração de Imposto de Renda.
Sobre o R$1 milhão que tem em dinheiro vivo, o deputado federal Alexandre Cardoso (PSB) explicou que, desta quantia, R$900 mil estão aplicados – apesar de não ter declarado onde – e que não guarda o dinheiro em casa. Os outros R$100 mil, ele disse usar para viagens e despesas pessoais. De acordo com o deputado, a evolução do patrimônio decorre da venda de uma apartamento no valor de R$750 mil na Tijuca, de outros cinco na Vila da Penha e do aluguel de um prédio em Duque de Caxias para a Universidade Unigranrio. O deputado afirma ainda que tem um terreno que explora como estacionamento. Os alugueis teriam rendido cerca de R$1,8 milhão.
- Mandei reavaliar todos os meus imóveis, por isso o crescimento expressivo – respondeu Cardoso.
O candidato Rodrigo Bethlem justificou que sua prosperidade vem de uma academia de ginástica no Recreio, que abriu em 2004, e do patrimônio da esposa, com quem se casou no intervalo das duas eleições: – Tenho a academia, um negócio que demora a maturar. Agora, o Recreio é um bairro em franca expansão. Vivo dos rendimentos da academia desde 2005, e não da política.
No DEM, dois deputados estaduais alegaram erro de digitação da Justiça Eleitoral. Rodrigo Dantas informou que o valor do patrimônio declarado na página do TRE em 2006 está errado e que o total correto seria R$860 mil. A evolução de 2006 a 2010 é fruto da renda anual de uma mineradora e de uma empresa agropecuária, segundo o deputado.
Para Jair Bolsonaro (PP), o fracasso no casamento foi a razão para o aumento de patrimônio. O parlamentar disse que vendeu uma casa na Barra da Tijuca, após a separação:
- Tudo está informado na declaração do Imposto de Renda. Além do salário de deputado, tenho minha renda de capitão do Exército na reserva.
Com um patrimônio que foi de R$1,9 milhão em 2006 para R$2,4 milhões agora, Felipe Bornier (PHS), filho do também deputado federal Nelson Bornier (PMDB), disse que a variação é devido ao fato de ele morar com os pais:
- Tenho casa, comida e roupa lavada. Não tenho muito com o que gastar – disse o deputado, morador da Barra da Tijuca, acrescentando que, além disso, possui três lojas na Avenida Sernambetiba, na Barra, que ele aluga por R$20 mil por mês, cada uma.
Já o deputado federal Adilson Soares (PR) justificou a evolução de patrimônio com o fato de ele acumular o salário de deputado com outros rendimentos:
- A justificativa é o trabalho, né? Além do que ganho como deputado, trabalho como agente de investimentos, fazendo assessoria financeira, e aplico na Bolsa.
A assessoria do deputado Márcio Panisset (PDT) informou que não conseguiria localizar o deputado nem teria informações sobre seu patrimônio.
A deputada Senhorita Suely não foi localizada até o fechamento desta edição”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:47

Gabeira coloca a viola no saco

Da repórter Alessandra Duarte, de ‘O Globo’:
“Após tanta polêmica, o deputado federal Fernando Gabeira (PV) deve mesmo ser candidato ao governo do Rio pela coligação inicial dos verdes com PSDB, PPS e o DEM de Cesar Maia. Gabeira havia afastado essa opção depois de críticas de aliados, que temem a rejeição que o nome do ex-prefeito do Rio poderia provocar. Segundo Gabeira, a coligação com Cesar ?é a proposta que vamos manter?:
? A gente encerrou a fase de consultas a diretórios e eleitores pelo Estado do Rio. O que ficou claro é que a única alternativa com mais unanimidade é esta.
Os partidos da coligação do verde haviam consultado o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para saber se poderiam apresentar mais de dois candidatos ao Senado. Segundo Gabeira, mesmo sem o TSE ter respondido, será essa a configuração das candidaturas a serem lançadas:
? Dois candidatos pela coligação: o Cesar e o do PPS, Marcelo Cerqueira; e, por fora, a Aspásia Camargo (PV).
Quando o TSE responder, se não puder haver três ao Senado, a Aspásia sairia ? diz o verde.
? Temos de valorizar o que nos une, acabar com a dominação do PMDB.
E minimizar o que nos separa, a questão (da rejeição) do Cesar.
Outro motivo para a decisão é a necessidade de palanque no Rio para a candidatura presidencial de José Serra (PSDB).
? Nada no Rio é dissociado da candidatura Serra ? diz o deputado Luiz Paulo (PSDB).
? Serra aguarda uma solução ? afirma Márcio Fortes (PSDB), cotado para vice de Gabeira.
O anúncio oficial da decisão sai até sexta, após Alfredo Sirkis, presidente do PV-Rio, voltar de Washington”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:17

Gabeira precisa do DEM

Dos repórteres Alessandra Duarte e Cássio Bruno, do ‘Globo’:
“O deputado Fernando Gabeira (PV) acha que o ex-prefeito Cesar Maia (DEM) “é o melhor candidato para o Senado”, como ele afirmou mês passado num evento do DEM, ou não quer saber do ex-prefeito em seu palanque na campanha a governador do Rio, como disse o PV em seguida? Para cientistas políticos, o vaivém da relação do pré-candidato verde com Cesar Maia já teria feito com que as imagens dos dois comecem a ser associadas. Os analistas também acreditam que a necessidade de um palanque forte para o tucano José Serra no Rio vai pressionar Gabeira a aceitar o DEM de Cesar, aliado do PSDB. Ontem, na Câmara de Vereadores do Rio, nenhum vereador do DEM compareceu a um evento organizado por Gabeira para falar das eleições deste ano.
Para o professor Ricardo Ismael, coordenador do curso de ciências sociais da PUC do Rio, “o copo d”água já entornou”:
- Houve falta de habilidade política por parte do Gabeira. Ele não podia ter ido a público elogiar Cesar Maia se havia a possibilidade de voltar atrás depois. Isso causou estranhamento tanto aos eleitores do Gabeira, quando ele o apoiou, quanto aos eleitores mais próximos do Cesar, mais conservadores, quando voltou atrás – afirma Ismael, para quem o fato também serviu para relembrar o apoio dado por Cesar a Gabeira no segundo turno das eleições municipais de 2008. – Ali, o Gabeira não levou o apoio do Cesar Maia à TV, mas também não falou mal dele. E o (então candidato) Eduardo Paes utilizou isso contra o Gabeira. Houve folhetos com fotos dos dois juntos…
A aproximação entre Gabeira e Cesar é criticada por nomes do PV como o presidente regional, Alfredo Sirkis. Um dos motivos seria o temor de que a rejeição a Cesar na classe média carioca seja transferida para Gabeira.
- Qualquer que seja o desfecho, vai ficar registrada a aproximação dos dois – diz Ismael. – Mas o estrago será menor se ele aceitar de vez o DEM. O PV tem pouco tempo de TV, depende do DEM e do PSDB. Ele não pode pensar que será como campanha a prefeito. O PV não tem estrutura fora da capital, não é a parte mais forte da chapa. Se o Gabeira acha que pode, sem aliados, quebrar a força de Cabral e Garotinho no interior do estado, engana-se. O Zito (presidente estadual do PSDB) não gosta dele; e ele (Gabeira) nega os aliados que pode ter?
Ismael lembra ainda o fator nacional nesse imbróglio: para ele, o DEM “tem bala na agulha” para exigir que o PSDB pressione o PV a apoiar Cesar, já que o PSDB precisaria do DEM no Rio para a campanha de Serra. O professor Eurico Figueiredo, coordenador de pós-graduação em ciência política da Universidade Federal Fluminense (UFF), também acredita que a campanha nacional do PSDB afetará as alianças no Rio.
- O Sirkis tem importância local. Nacionalmente, é dez vezes menos importante que o Cesar, assim como o PV é menos importante nacionalmente do que o DEM. O que der respaldo a uma frente de oposição e à candidatura Serra será o parâmetro – diz Figueiredo.
Ontem, um evento organizado por Gabeira na Câmara do Rio teve como público metade dos 300 inscritos – por causa da chuva, alegou o verde. Dos 17 vereadores da coligação de apoio a Gabeira, quatro compareceram, nenhum deles do DEM. Segundo Gabeira, ele não teria convidado nenhum vereador. No evento, o pré-candidato elogiou as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) do governo Cabral, ressalvando que a segurança não pode ser “só para a Zona Sul”. Mas criticou o transporte público no estado (“o que o Metrô fez para receber uma renovação de concessão de mais 20 anos?”), além das viagens de Cabral e do gasto do governo com propaganda:
- Um gasto de R$180 milhões foi o que o Obama transferiu para o Haiti”.

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