• Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:43

Lula, a favor da reeleição

  Dos repórteres Denise Rothenburg, Josemar Gimenez e Sílvia Bessa, do ‘Correio Brasiliense’: 
“O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi procurado pelo PSDB há algum tempo para tratar do mandato presidencial. A proposta era unir PT e PSDB em torno da ampliação do período de quatro para cinco anos e incluir no pacote o fim da reeleição. O relato foi feito ontem pelo próprio Lula, durante entrevista aos Diários Associados, concedida na Biblioteca do Palácio da Alvorada. ?Eu disse ao interlocutor que não queria mais o fim da reeleição, não quero mais o fim da reeleição?, contou. O presidente explica que mudou a opinião porque percebeu que ?para se fazer uma obra estruturante neste país, o sujeito, até fazer o projeto básico, executivo, conseguir a licença ambiental e vencer o Judiciário, já terminou o mandato?. Em quase uma hora de conversa, acompanhado do ministro da Secretaria de Comunicação, Franklin Martins, Lula deixou claro que conversará com Ciro sobre a não candidatura, enquadrou o PT de Minas, dizendo que a prévia para escolher candidato do PT acirrará os ânimos. Afirma ainda ver como certo que Michel Temer será o vice capaz de levar o PMDB para Dilma Rousseff. ?O PMDB é peça importante na aliança nacional?, diz Lula”
                          * * *
Eis a entrevista:
“- O senhor acha que o brasiliense tem o que comemorar hoje nesses 50 anos?
-  O povo de Brasília tem que comemorar. O significado de Brasília como capital não pode ser confundido com os administradores que cometeram absurdos. Muitas vezes, os erros são cometidos porque as pessoas acham que ficarão impunes. Brasília, de um lado, tem que estar de luto, porque aconteceu essa barbaridade, mas, ao mesmo tempo, tem que ter orgulho. É uma cidade extraordinária, que tem crescido muito acima do que foi previsto por Niemeyer e JK. Em alguns aspectos, cresceu um pouco desordenada. Acho até que houve irresponsabilidade em alguns momentos, mas Brasília é isso: tem um lado humano, o Plano Piloto, o centro das cidades satélites, e o lado desumano, daqueles que vivem no Entorno, em situações adversas. Ainda assim, acho que o povo tem que comemorar porque foi uma epopeia o nosso Juscelino cumprir e ter coragem de fazer uma coisa pensada em 1823. Não era fácil tirar a capital do Rio de Janeiro.
- Tivemos uma eleição indireta em que o candidato indicado pelo PMDB ganhou. O senhor acha que ainda cabe a intervenção?
- Essa é uma coisa que depende exclusivamente do Judiciário. Não cabe a um presidente dizer se cabe ou não intervenção. O Judiciário, em função das informações que tem, deve tomar a decisão. Minha preocupação era a paralisação das obras. Não podemos, em função de uma crise política, ver o povo ser prejudicado. No mês passado, pedi para a CGU uma investigação porque era preciso mostrar para a sociedade como estava o andamento de cada obra. No levantamento, detectamos coisas graves, como R$ 300 milhões da saúde depositados numa conta bancária para fazer caixa, quando o dinheiro deveria ser usado para pagar salário de médico, comprar remédio.
- O PT terá uma chapa em Brasília: Agnelo candidato ao governo, Cristovam Buarque (PDT) e Rodrigo Rollemberg (PSB) para o Senado. O senhor fará campanha aqui?
- Primeiro, o presidente da República não defende chapa dentro do PT em cada estado. O presidente geralmente acata aquilo que os companheiros do estado fizeram. Se o Agnelo, como candidato a governador, e a direção do partido entendem que é necessário fazer essa composição para ganhar as eleições, eles que sabem. Agora, nessa chapa toda está faltando um componente, que é o PMDB. Para onde vai? Não sei se o PT do Distrito Federal está conversando com o PMDB, mas acho importante conversar. O PMDB é peça importante na aliança nacional. De qualquer forma, o Agnelo é um homem de muita respeitabilidade, de dignidade incomensurável. Acho que ele irá empolgar os eleitores.
- E, em Minas, cansou, já chegou no limite? Como vai ficar aquilo ali?
- A política seria fácil se as pessoas a percebessem como o leito de um rio: a água desce normalmente se ninguém resolver fazer uma barragem. As coisas em Minas tinham tudo para ocorrer normalmente, sem trauma, sentar PT e PMDB e tentar conversar. Tínhamos e temos chance de ganhar na medida em que o Aécio Neves (ex-governador de Minas) não é candidato e ninguém pode transferir 100% dos votos. De repente, o PT resolve fazer uma guerra interna. Essas guerras não resolvem o problema. As pessoas pensam que podem fazer insultos, provocações e, depois, botar um papel em cima. No PT não volta à normalidade.
- Mas como faz? No momento em que escolhe um candidato a governador, como é que tira?
- Se o PT precipitar as decisões, vai ficar cada vez mais num beco sem saída. A prévia é importante, mas não pode ser usada para resolver problemas que os dirigentes criaram e não conseguem resolver. Se eu criei uma confusão, em vez de resolver, falo: ?Vamos para uma prévia?? Na história do PT já tivemos guerras fratricidas nessas prévias. Minas é um estado importante, interessa muito ao PT, ao PMDB e ao PSDB. É o segundo colégio eleitoral e muito sofisticado, porque você tem a Minas carioca, a Minas Bahia, a Minas Brasília, a Minas São Paulo, a Minas Minas . É preciso trabalhar isso com carinho.
- Minas, pelo jeito, se o senhor não intervir, não resolve.
- Se as pessoas fizeram isso achando que tenho que resolver, não é uma boa atitude. Não sou eleitor de Minas, não estou lá no embate cotidiano. Pimentel e Patrus (pré-candidatos do PT ao governo mineiro) são experientes, conhecem bem o PMDB de Minas. Já deveriam estar conversando entre eles e com o Hélio Costa (pré-candidato do PMDB) para trazer uma solução sem mágoas.
- Por falar em mágoas, e Ciro Gomes?
- Pretendo conversar com Ciro na medida em que a direção do PSB entenda que já é momento. Achei interessante quando ele transferiu o título para São Paulo porque era uma probabilidade. No primeiro momento, houve certa reação do PT, depois todos os quadros importantes passaram a admitir que era importante o Ciro ser candidato a governador de São Paulo. Depois, o PSB lançou o Paulo Skaf. O problema não era dentro do PT. Disse para o Ciro que jamais pediria para uma pessoa ou partido não ter candidato a presidente se não tiver argumento sólido. Ser candidato significa a possibilidade de fortalecer os partidos, mas também a possibilidade de perder uma eleição. Eu estou convencido de que essa deveria ser uma eleição plebiscitária. Fazer o confronto de ideias, programas, realizações.
- E como fica a disputa pelo governo de São Paulo?
- O PT não precisa provar para ninguém que tem 30% dos votos em São Paulo. Precisamos arrumar os outros 20%. Eu disse a Mercadante: ?É preciso que você arrume o teu José Alencar?. O Alencar teve importância para mim que não é a da quantidade de votos, mas da quantidade de preconceito que quebrou. Se um cara com 15 mil trabalhadores na fábrica, a maior empresa têxtil do país, estava sendo meu vice, um cidadão que tinha dois empregados e tinha medo do Lula perdia o argumento. O discurso do José Alencar quebrou barragem maior do que a de Itaipu. O PT de São Paulo precisa arrumar esse Alencar.
- Nesse conceito de vice, Michel Temer não teria esse perfil para a chapa de Dilma?
- Deixa eu contar uma coisa: a Dilma tem cartão de crédito de oito anos de administração bem-sucedida no Brasil. Ela foi uma gerente excepcional. O Temer dará a segurança de um homem que deu a vida pública já de muito tempo, tem uma seriedade comprovada no Congresso e hoje está mais fortalecido dentro do PMDB. Se ele for o indicado pelo partido, dará a tranquilidade de que nós não teremos problemas de governabilidade.
- A oposição já percebeu essa questão da eleição plebiscitária e começou agora a trabalhar com o slogan ?Pode ficar melhor?. Isso muda alguma coisa com relação à candidatura da ministra Dilma?
- Não. Mudaria se eles fizessem a campanha ?pode ficar pior?. Eu acho que eles têm que prometer fazer mais coisas. O que é importante e que me dá prazer de falar desse assunto, com humildade, é o seguinte: eu mudei o paradigma das coisas neste país. Quem não queria enxergar, durante meus oito anos de mandato, vai enxergar já daqui para frente.
- O senhor disse recentemente que se ressentia de não ter feito a reforma política. O Serra disse que, se eleito, proporá os cinco anos de mandato sem reeleição. Como o senhor avalia isso?
- Em política não vale você ficar falando para inglês ver. A história dos cinco anos eles já tiveram. É importante ter em conta que eles reduziram o mandato de cinco para quatro anos pensando que eu ia ganhar as eleições em 1994. Eles ganharam e, em 1996, aprovaram a reeleição. Aí, para tentarem convencer o Aécio a ser o vice, vieram até me propor que, se o PT e o PSDB estivessem juntos numa reforma política para aprovar cinco anos, seria o máximo, a gente aprovaria. Eu falei para meu companheiro interlocutor: ?Olha, eu era contra a reeleição, agora eu quero que tenha a reeleição mesmo se você ganhar, porque em quatro anos você não consegue fazer nenhuma obra estruturante, nenhuma?. Entre você pensar uma grande obra, fazer projeto básico, executivo, tirar licença ambiental, enfrentar o Judiciário, enfrentar o Tribunal de Contas e vencer todos os obstáculos, termina o mandato e você não começa a obra, sabe? Então eu falei: ?Não quero mais o fim da reeleição?.
- Essa conversa aconteceu quando, presidente? Com quem?
- Faz algum tempo. Não, porque era a tese do ex-presidente para convencer o Aécio a ser vice. Então, em política não vale ingenuidade. Ou seja, ninguém vai acreditar que o mesmo partido que criou a reeleição venha querer acabar com ela. É promessa para quem? Ninguém está pedindo isso. Só o Aécio está pedindo.
- O senhor já está trabalhando com a hipótese de o Aécio ser o vice?
- Sinceramente, acho que o Aécio está qualificado para ser o que quiser. Se ele for vice, vai se desgastar. É só pegar o que o Estado de Minas escreveu sobre as divergências de Aécio com Serra para perceber que o Aécio vai colocar muita dúvida na cabeça do povo mineiro.
- O senhor tem uma segurança grande com relação ao partido. A ministra Dilma não veio da base do partido. A preocupação é a seguinte: será que a ministra tem condições de ter um poder sobre o partido? Não será monitorada por ele?
- Não, não existe hipótese, gente. Primeiro porque uma coisa é a relação de respeito que você tem de ter com o partido. Não é uma relação de medo. Eu vou poder ajudar muito mais a Dilma dentro do PT não sendo presidente. Estarei mais nos eventos do PT, estarei participando mais das coisas do PT.
- O senhor acha que vai transferir quanto de sua popularidade para a ministra?
- É engraçado porque as pessoas que acham que eu não vou transferir voto para a Dilma acham que o Aécio vai transferir para o Serra. É engraçadíssimo porque as pessoas olham o seu umbigo o dizem ?o meu é o mais bonito de todos?.
- Mas essa transferência seria automática?
- Não, não seria automática. Não existe um automaticismo em política.
- E o que lhe dá, então, uma segurança tão grande?
- O que me dá segurança é que ao mesmo povo que me dá o voto de confiança há sete anos vou pedir para dar um voto de confiança a Dilma. Vou fazer campanha. Não pensem que vou ficar parado vendo a banda passar. Eu quero estar junto da banda, até porque acho que a campanha da Dilma é parte do meu programa de governo para dar continuidade às coisas que nós precisamos fazer no Brasil.
- Há tempo suficiente para torná-la conhecida em alguns lugares do país, como os grotões do Nordeste?
- Lá eu não vou nem chegar, lá eles são Lula. Lá estou representado. Eu quero ir é aos outros lugares.
- O Nordeste, então, não lhe preocupa?
- Lógico que me preocupa. Não existe eleição ganha antes da apuração, mas o carinho que o povo nordestino e do Norte têm por mim é de relação humana forte. Vou pedir o apoio desses companheiros para a minha candidata e vou trabalhar em outros estados. O meu trabalhar é o sinal mais forte que posso dar à sociedade brasileira de que não estou pensando em 2014. Quando o político é canalha, ele não quer eleger o sucessor. O velhaco quer voltar.
- Essa eleição da Dilma, parece que o senhor tem mais garra com a campanha dela do que com a sua reeleição. É uma questão de honra eleger a Dilma?
- Em política não se coloca questão de honra. É de pragmatismo. Estou muito mais animado com a campanha da Dilma do que com a minha. Meu governo já foi avaliado com a minha reeleição. Ele será biavaliado se eleger a Dilma. Daí a minha responsabilidade.
- Presidente, nesses oito anos o que o senhor olhou para trás e pensou: que pena que eu não fiz isso?
- Uma coisa eu digo: quando eu deixar a Presidência, vou ser uma pedra no calcanhar do PT para que o PT coloque a reforma política como prioridade, com 365 dias por ano falando de reforma política, procurando aliados para a gente fazer. Sobretudo porque eu acho que o fundo público para financiar as eleições, com a proibição de dinheiro privado, seria uma chance que a gente teria de moralizar o país.
- Qual a quarentena que o senhor dará com relação ao futuro governo?
- Não tem quarentena. Pretendo não dar palpite no próximo governo se pedirem alguma opinião (falava de Dilma), porque sinceramente acho que quem for eleito tem o direito de governar e de fazer o que entender que deva ser feito. Depois vai ser julgado. Não cabe a mim julgamento e ficar cobrando, como se fosse ex-marido ou ex-mulher, dizendo como o outro tem de ficar vivendo.
- Em relação ao seu projeto internacional?
- Esse negócio da ONU, vamos ter claro o seguinte: a ONU não pode ter como secretário-geral um político. Tem que ter um burocrata do sistema porque, caso contrário, você entra em confronto com outros presidentes. Vamos melhorar a ONU, mas acho que a burocracia tem de continuar existindo para manter certa harmonia. Eu tenho vontade de trabalhar um pouco a experiência acumulada no Brasil tanto para a África quanto para a América Latina. Não tenho projetos. Só penso agora em terminar o mandato e animar os meus ministros porque vai chegando o fim do mandato e, sabe aquele negócio, vai dando 2h da manhã, você está num baile e já começa a procurar uma cadeira para sentar. Eu quero que todo mundo continue animado e dançando porque eu quero continuar muito bem até 31 de dezembro.
- E o PAC 2? Não vai dar tempo de ser começado, presidente…
- Por que eu tive de fazer o PAC 2? Para facilitar a vida de quem vai entrar depois. Se não quiser fazer, não faça. Foi eleito presidente, tem o direito de pegar tudo, rasgar e não fazer. O que eu quero? Quero deixar uma prateleira de projetos que não recebi. Deixar a estrutura semeada”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:42

Brasília, a invenção de Oscar Niemeyer

 

O arquiteto Oscar Niemeyer e sua mulher, Vera, escreveram um artigo sobre a construção de Brasília para a edição especial da revista Nosso Caminho. O ‘Estadão’ reproduz hoje o seu texto:
“Somente em 1957 surgiu o problema da nova capital. JK me procurou na casa das Canoas e juntos descemos para a cidade. Queria construir Brasília, a nova capital do nosso país, e, como ocorreu em Pampulha, desejava a minha colaboração – a minha e de Marco Paulo Rabelo, que como eu o acompanhou, de Pampulha à inauguração daquela cidade.
Entusiasmado, JK contou-me que pretendia uma capital moderna, concluindo, empolgado, “a mais bela do mundo”. E ficou combinado que eu procuraria Israel Pinheiro, responsável pela obra.
Na primeira viagem que JK fez ao local o acompanhei. Lembro o ministro da Guerra, o general Lott, a me perguntar: “Os prédios do Exército serão modernos ou clássicos?” E eu a responder: “Numa guerra, o senhor prefere armas modernas ou clássicas?” E ele sorriu com simpatia.
Foram três horas de voo; confesso não ter tido boa impressão do lugar.
Longe, longe de tudo, e a terra vazia e abandonada. Mas o entusiasmo de JK era tal, e o objetivo de levar o progresso para o interior tão válido, que acabamos, todos, com ele concordando.
A distância, a conveniência da presença de JK no local para manter o calor do empreendimento nos levou a pensar na necessidade de iniciar os trabalhos com a construção de uma pousada onde ele pudesse ficar nos fins de semana. Uma casa de madeira foi pensada. Fiz as plantas. Juca Chaves e Milton Prates comandaram a construção, e eu assinei uma promissória que, descontada num banco, permitiu realizar essa obra, depois conhecida como “Catetinho”. Em quinze dias JK já a utilizava.
Era o seu refúgio da política, dos que contestavam a construção da nova capital, a conversar com os amigos, a discutir como seria aquela cidade, o seu sonho predileto. À volta da casinha um grupo de árvores – como um pequeno oásis – a distinguia na terra rasa e vazia do cerrado.
Lembro que a água vinha de uma caixa pendurada em uma das árvores, que o lugar de estar e de conversa era sob os pilotis, ao redor de uma longa mesa com bancos de madeira. E havia uísque e muita camaradagem.
Cedo, o nosso amigo Bernardo Sayão trazia de helicóptero os mantimentos necessários, e Brasília já estava no coração de todos nós.
Na sede do Ministério da Educação e Saúde, no Rio de Janeiro, os trabalhos se iniciaram. Pouco depois, senti a conveniência de mudarmos para Brasília. E para lá segui com os meus colaboradores. Não pensava levar apenas arquitetos e convidei outros amigos – um médico, dois jornalistas e quatro camaradas que não cuidavam de arquitetura.
Estavam sem trabalho, eram inteligentes e divertidos, e compreendi ser o momento de ajudá-los. Eu não gostaria de passar as noites de Brasília a falar de arquitetura – para mim um complemento da vida, muito mais importante do que ela.
O problema do Plano Piloto se fazia urgente, e organizamos um concurso internacional. Inquieto, JK me propunha: “Niemeyer, não podemos perder tempo. Faz você o Plano Piloto.” E eu não aceitava. Pensava, inclusive, que talvez o Reidy participasse do concurso. Era de todos nós, pela própria função que exercia na Prefeitura do Rio, o mais informado no assunto, mas isso não ocorreu, surgindo Lúcio Costa com seu talento excepcional.
Recordo como tentaram cancelar o concurso já por terminar, com o projeto do Lúcio se destacando. O presidente do IAB a procurar Israel Pinheiro, sugerindo nomearem uma comissão de urbanistas para elaborar um novo projeto. Israel disse que o assunto era comigo, e foi no Clube dos Marimbás, na presença do arquiteto João Cavalcanti, que declarei: “Da minha parte vocês vão encontrar todos os obstáculos.” E o Lúcio foi o vencedor.
Era uma solução urbanística inovadora, os diversos setores independentes, a área habitacional ligada ao pequeno comércio e às escolas, o Eixo Monumental a lembrar com sua monumentalidade a grandeza de nosso país, e a Praça dos Três Poderes a completá-lo, debruçada sobre o cerrado como ele preferia.
E o plano se desenvolvia numa escala variada, humana ou monumental, que só um homem sensível como Lúcio podia conceber.
O primeiro projeto iniciado em Brasília foi o Palácio da Alvorada. Sua localização ainda não fora fixada pelo Plano Piloto. Não podíamos esperar. E lá fui eu com Israel Pinheiro a procurá-la, o capim a nos bater nos joelhos, pelo cerrado afora.
Elaborei o projeto. Um prédio em dois pavimentos. Destinava-se à residência do presidente e sua área de trabalho. E com tal apuro o projetamos que ambas se entrelaçam sem perderem a independência desejável. Recordo a larga varanda, sem peitoril, um metro acima do chão, protegida por uma série de colunas a se sucederem em curvas repetidas. Lembro André Malraux, ao visitar o palácio: “São as colunas mais bonitas que vi depois das colunas gregas.” E elas a serem copiadas no Brasil, num prédio de correio nos Estados Unidos, na Grécia, na Líbia, por toda a parte. As cópias não me incomodavam. Tal como com relação à Pampulha, as aceitava satisfeito. Era a prova de que meu trabalho agradava a muita gente.
E o palácio sugeria coisas do passado. O sentido horizontal da fachada, a larga varanda protegendo-o, a capelinha a lembrar no fim da composição nossas velhas casas de fazenda.
Depois do Alvorada, começamos a estudar o Eixo Monumental e pela Praça dos Três Poderes iniciamos nosso projeto. Dela faziam parte, como fixava o Plano Piloto, o Palácio do Planalto, o do Supremo e o Congresso, este último localizado mais afastado da mesma. Um afastamento que espelhos d”água e renques de palmeiras justificavam.
Mas a ideia de que o Congresso deveria se integrar na Praça me preocupava, o que explica ter mantido a cobertura desse palácio no nível das avenidas, permitindo aos que se aproximassem ver, por cima dela, entre as cúpulas projetadas, a Praça dos Três Poderes da qual este fazia parte.
E com essa solução as cúpulas do Senado e da Câmara se faziam mais imponentes, monumentais, exaltando a importância hierárquica que no conjunto representam.
Lembro Le Corbusier, dizendo a Ítalo Campofiorito, a subirem a rampa do Congresso: “Aqui há invenção!” Eram as enormes cúpulas daquele palácio que o surpreendiam, pela ousadia inventiva que revelavam.
Ao desenhar os Palácios do Planalto e do Supremo, deliberei mantê-los dentro de formas regulares, tendo como elemento de unidade plástica o mesmo tipo de apoio, o que explica o desenho mais livre que para as colunas desses dois edifícios adotei. E os palácios como que apenas tocando o chão. Uma opção arquitetônica que Joaquim Cardozo, engenheiro e poeta, um dos brasileiros mais cultos que conheci, defendia, a dizer: “Um dia vou fazê-las mais finas ainda, de ferro maciço”. O croqui inicial mostra, num corte do Palácio do Planalto, o tipo de estrutura que desenhei, mais rico sem dúvida do que aquele que uma arquitetura menos ousada teria preferido.
Nos dois prédios a seguir, o Palácio da Justiça e o Itamaraty, minha preocupação foi prever uma arquitetura mais simples, essa arquitetura elegante e repetida, fácil de ser elaborada e aceita pela grande maioria. Seria como um momento de pausa e reflexão para melhor compreenderem a arquitetura mais livre que prefiro.
A ideia de fazer uma arquitetura diferente me permite afirmar hoje aos que visitam a nova capital: “Vocês vão ver os palácios de Brasília, deles podem gostar ou não, mas nunca dizer terem visto antes coisa parecida”. E isso se verifica na Catedral de Brasília, diferente de todas as catedrais do mundo, uma expressão da técnica do concreto armado e do pré-fabricado. Suas colunas foram concretadas no chão, para depois criarem juntas o espetáculo arquitetural. E vale a pena lembrar outros detalhes, com a arquitetura se enriquecendo, como o contraste de luz com a galeria em sombra e a nave colorida. E lá estão os anjos de Ceschiatti, e a possibilidade inédita, que muito agradou ao núncio apostólico, de os crentes olharem pelos vidros transparentes os espaços infinitos onde acreditam estar o Senhor. É o arquiteto a inventar sua arquitetura, que poucos, muito poucos, vão poder compreender.
Não foi fácil trabalhar em Brasília, e o projeto do Congresso Nacional serve de exemplo. Um trabalho elaborado sem programa, sem uma ideia de como se ampliaria o número de parlamentares. “Tudo a correr” era a palavra de ordem. Recordo como foi iniciado aquele projeto, Israel Pinheiro e eu indo ao Rio com o objetivo de dimensionar o antigo Congresso daquela cidade, para, multiplicando a área estimada e os setores existentes, iniciar os desenhos.
Tudo isso explica os prédios anexos depois realizados. Basta mencionar um deles, para avaliar as nossas dificuldades. Quando veio o parlamentarismo, o grande hall do Congresso ficou coberto de novas salas e gabinetes, pedindo uma solução. Aquele hall continuava indispensável e aquelas salas deveriam ficar junto do plenário. Eu queria defender a arquitetura do palácio, e a solução foi aumentar sua largura em 15 metros. A vista da Praça dos Três Poderes que do antigo salão se descortinava desapareceu, mas a arquitetura externa do Palácio foi preservada, e com tanto apuro que ninguém percebe essa modificação que, como arquiteto, sempre lamentei.
Felizmente o contato com deputados e senadores foi tão cordial e a atuação do meu amigo Luciano Brandão, secretário-geral, tão hábil que a obra do Congresso seguiu sem problemas.
Mais recentemente, desenhei três novos edifícios em Brasília – a Procuradoria Geral da República e os anexos do Supremo e do Tribunal de Contas da União. Prédios arquitetonicamente, a meu ver, importantes, mas, para alguns, de construção excessivamente dispendiosa. Recordo-me como os defendi. São prédios públicos; sei que meus irmãos mais pobres nada vão usufruir, mas, se forem bonitos e diferentes, vão parar para vê-los – será para eles um momento de surpresa e encantamento.
Como a própria vida, Brasília teve bons e maus momentos, e um dos melhores, que chegou a nos lembrar os tempos de JK, foi o do governador José Aparecido de Oliveira. Foi ele quem construiu o panteão, quem concluiu a catedral, a Praça dos Três Poderes, o Memorial Lúcio Costa, que, a meu pedido, nela realizou. Foi esse meu amigo que tentou melhorar as cidades-satélites, fazê-las mais acolhedoras e com isso defender um pouco o Plano Piloto da densidade demográfica que se multiplica.
O tempo correu. Pouco a pouco Brasília se foi consolidando em função do traçado de Lúcio Costa, das formas inesperadas que sua arquitetura assumiu, dando vida àquele planalto sem fronteiras, onde o céu parece maior.
Tudo isso me leva a recordar aqueles serões inesquecíveis que o nosso grupo passava na presença de um presidente possuído do maior dinamismo, mas capaz de guardar tempo para ver os amigos e, como outro homem qualquer, rir e brincar um pouco. Tarde, uma ou duas horas da madrugada, JK nos acompanhava na saída. E aí nos retinha, empolgado com a noite de Brasília. O céu imenso, cheio de estrelas, os palácios já erguidos a se destacarem com suas formas brancas na enorme escuridão de cerrado.
Mansamente, como a me dizer um segredo, JK tomava-me pelo braço: “Niemeyer. Que beleza!”

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:42

O compromisso de JK com Brasília

 O ex-prefeito Cesar Maia resgatou o depoimento de Juscelino Kubistchek, no livro ‘Por que contruí Brasília’, onde o Presidente relata como tomou a decisão de construir a nova Capital:
“Tudo teve início na cidade de Jataí, em Goiás, a 4 de abril de 1955, durante minha campanha como candidato à Presidência da República. Os políticos que me antecederam realizavam sua pregação ao longo das cidades e capitais, situadas na faixa litorânea. Só ocasionalmente quebravam a linha desse roteiro, concordando em fazer um comício num centro populacional do interior. A conduta que adotei era inédita, e revelou-se da maior eficiência possível. Ao invés das populações do litoral, iria falar, em primeiro lugar, aos eleitores do Brasil Central.”
“Daí a razão por que o meu primeiro comício foi realizado justamente em Jataí, cidade perdida nos sem – fins de Goiás. No discurso que ali pronunciei, referindo-me à agitação política que inquietava o Brasil e contra a qual só via um remédio eficaz – o respeito integral às leis -, declarei que, se eleito, cumpriria rigorosamente a Constituição. Contudo, era meu hábito, que viera dos tempos da campanha para a governadoria de Minas Gerais, estabelecer um diálogo com os ouvintes, após concluído o discurso de apresentação da minha candidatura. Punha-me, então, à disposição dos eleitores para responder, na hora, a qualquer pergunta que quisessem formular-me.”
“Foi nesse momento que uma voz forte se impôs, para me interpelar: ?O senhor disse que, se eleito, irá cumprir rigorosamente a constituição. Desejo saber, então, se pretende pôr em prática o dispositivo da Carta-Magna que determina, nas suas Disposições Transitórias, a mudança da capital federal para o Planalto Central?. Procurei identificar o interpelante.  Era um dos ouvintes, Antônio Carvalho Soares – vulgo Toniquinho – que se encontrava bem perto do palanque. A pergunta era embaraçosa. Já possuía meu Programa de Metas e, em nenhuma parte dele, existia qualquer referência àquele problema.”
“Respondi, contudo , como me cabia fazê-lo na ocasião: ?Acabo de prometer que cumprirei, na íntegra, a Constituição e não vejo razão por que esse dispositivo seja ignorado. Se for eleito, construirei a nova capital e farei a mudança da sede do governo?. Essa afirmação provocou um delírio de aplausos. Desde muito, os goianos acalentavam aquele sonho e, pela primeira vez, ouviram um candidato à Presidência da República assumir, em público, tão solene compromisso.”

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:42

Brasilia, a cruz e a espada

Do economista Paulo Rabello de Castro, para a ‘Folha’:
“No retrospecto do seu primeiro cinquentenário, a verdade econômica de Brasília é que ela nos custou caro. E continua custando. Mas sua “verdade” admite muitas versões, algumas delas favoráveis ao projeto que, afinal, não era de Juscelino, mas já estava firmado no imaginário dos nossos tataravós, ao inscreveram o sonho de uma capital interiorana na primeira Constituição da República em 1891. Juscelino, gênio político, apenas colheu a quimera no ar, na resposta de improviso que deu ao Toniquinho, um jovem que escutava a arenga do candidato, num comício na longínqua Jataí. As melhores e as piores coisas costumam nascer de um improviso.
Naquele comício, a pergunta seminal faria Brasília nascer. Mas foi a obsessão persistente de JK que transformou a palavra dada ao eleitor em blocos de concreto armado, a partir dos traços igualmente fabulosos de Niemeyer e de Lúcio Costa. Como sonho telúrico e afirmação de identidade nacional, Brasília inflacionou mas valeu a pena.
Brasília foi, no entanto, politicamente desestruturante. Isso nos custou mais caro. Da construção de Brasília, resultaram o desequilíbrio orçamentário que a financiou, a carestia que se seguiu, os apertos para rolar os empréstimos americanos, o inconformismo da população e o rugido político do pensamento conservador, que alimentaria o desfalecimento derradeiro da democracia em 1968. Brasília matou, inclusive, a carreira política do seu criador. Não deixa de ser contraditório, e por isso, bem brasileiro, que Brasília, nascida de um mutirão lindamente popular, uma espécie de quermesse de humanismos, tenha se consolidado no determinismo castrense dos anos de chumbo. Tal como a conheci, ainda era uma jovem meio desengonçada, capital com jeito de guarnição de fronteira. Agora aos 50, com árvores frondosas e bairros amadurecidos, vestida pelas festivas alegrias democráticas, Brasília já se assumiu como capital, deixando o Rio na saudade.
Com seus quadros da alta burocracia do Estado, políticos e assessores, toda sorte de acólitos do poder -gastadores da multibilionária verba federal-, Brasília se tornou a maior renda per capita, apesar de não produzir quase nada que se coma, que se vista ou que se use na vida comum dos cidadãos. Brasília produz comandos. Sua arquitetura lembra tanto uma cruz como uma espada. A cruz tributária dos brasileiros não tem sido leve. Na era brasiliense, a carga tributária total saltou de 20% para 40% do PIB. Mas a máquina federal continua perto da lanterna do mundo (128º lugar) no ranking de eficiência mundial em gastos públicos, segundo pesquisa do World Economic Forum. Aqui, Brasília responde por tabela, pelo fato de ser uma cidade que reúne, sobretudo, os gastadores oficiais e onde os contribuintes são desproporcionalmente mal representados.
Também registro uma injustiça que vai ficando na poeira da história.
Brasília nasceu da costela de Adão, quando se extraiu do Rio sua serventia como capital federal, no mais completo descuido do replanejamento de uma cidade que, mal ou bem, ainda representa a pátria amada. Enquanto Brasília, como Distrito Federal, ganhava hiper-representação política (e que políticos!) com três senadores, o general -presidente Geisel- capava o Rio da sua condição de autonomia, ao extinguir o Estado da Guanabara sem consulta ao povo, disso resultando a decadência carioca até hoje.
Mesmo assim, por cumprir um destino onírico, Brasília merece nossos encômios. O resto é conosco e o futuro”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:42

Brasília sem ter o que comemorar

 Brasília, humilhada, comemora hoje 50 anos.
É pena que o Supremo não tenha examinado o pedido de intervenção federal, antes que ela festejasse o cinquentenário.
Mais do que o seu aniversário, Brasília hoje lembra Tiradentes.
Por isso comemora a forca.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:21

Planalto longe dos 50 anos do DF

 Da ‘Folha’:
“A obra de reforma do Palácio do Planalto não ficará pronta no próximo dia 21, na comemoração dos 50 anos de Brasília. Será necessário, ao menos, mais um mês para a restauração ser concluída. A previsão feita pelo Exército, responsável pela execução da obra, é que ela seja entregue no dia 30 de maio.
Pelo cronograma anterior, o prédio ficaria pronto em 28 de fevereiro. O contrato previa mais 30 dias para ajustes -e a entrega, portanto, seria feita em 30 de abril.
“Os trabalhos estão em fase final de acabamentos, com o volume maior de serviços concentrados nas instalações, identificação das redes lógicas e testes dos equipamentos e sistemas que compõem a modernização da infraestrutura de serviços de apoio”, disse a assessoria do Exército.
O presidente Lula afirmou que já assimilou a ideia do atraso na obra do Planalto. “Eu já estou dando de barato que não mudarei para lá no dia 21″, disse no Itamaraty.
O contrato já teve um aditivo, no ano passado, que elevou de R$ 78,8 milhões para R$ 96 milhões o custo da obra. Do Orçamento, estão reservados R$ 110 milhões”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:15

Os 50 anos de Brasília

Da jornalista Tereza Cruvinel, presidente da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), no ‘Correio Braziliense’:
?Abril, o mais cruel dos meses.? Escrevi algumas colunas valendo-me desse verso de T. S. Eliot para comentar crises políticas recorrentes neste quarto mês do ano. Nele acontecia, até há poucos anos, a fixação do novo salário mínimo, hoje antecipada para primeiro de janeiro, e isso produzia grande conturbação no Congresso. Nele, como ocorreu agora, ministros deixam os cargos para disputar cargos eletivos em anos eleitorais, e isso traz fervura política. Nele, os movimentos sociais, hoje mais pacificados, sempre fizeram marchas e agitações diversas. Em abril, Tiradentes foi enforcado e, no mesmo dia, séculos depois, Tancredo Neves morreu e o Brasil chorou. Mas foi também em abril, no mesmo dia 21, que Juscelino Kubitscheck inaugurou Brasília há 50 anos.
O cinquentenário da capital, já escrevi aqui, deve ser festejado por todo o Brasil, pois a obra tida como impossível cumpriu o objetivo de modernizar o país, interiorizar o desenvolvimento e assegurar plenamente a soberania sobre o território nacional, incorporando definitivamente o Centro-Oeste e a Amazônia. Essa obra, pela ousadia, foi comparada ao desatino do faraó Amenófis IV, ou Akhenaton, que, por motivos político-religiosos, transferiu a capital do império egípcio da resplandecente Tebas para a longínqua Akhetaton, que hoje é ruína. Mas, aqui, nem JK negligenciou o reino, como o faraó, nem a cidade fracassou como projeto. Aos 50, é símbolo da capacidade realizadora dos brasileiros, tanto dos geniais, como Lucio Costa e Niemeyer, como dos anônimos candangos que armaram o concreto ou plantaram o verde.
Mas não foi no comício de Jataí, em 1955, quando Juscelino prometeu num lampejo construir a nova capital no Planalto Central, que tudo começou. Os inconfidentes mineiros, sonhando com independência e República, imaginaram uma capital no interior do país. José Bonifácio de Andrada e Silva, patriarca da independência, também incorporou a ideia. Francisco Adolfo de Varnhagen, historiador, diplomata, um dos mais completos intelectuais que o Brasil já teve, trocou os salões europeus por peregrinação ao sertão goiano, chegando a sugerir que a nova capital ficasse entre as três lagoas: a Formosa, a Feia e a Mestre D`Armas.
Brasília acabou ficando próxima, porém mais ao sul. Proclamada a República, a previsão foi inscrita na Primeira Constituição, a de 1891. Para cumpri-la, foi instituída a Missão Cruls, que percorreu novamente o sertão, identificando o quadrilátero ideal. Nada aconteceu na República Velha e no Estado Novo, mas a ideia foi ressuscitada pela Constituinte de 1946, que determinou a demarcação do local. Nova comissão demarcadora foi nomeada em 1953, optando pelo chamado ?sítio castanho?, entre outros quatro aventados. JK e seus pares só puderam construir a cidade no prazo recorde de três anos porque encontraram a previsão inscrita na Constituição e o local já demarcado.
Mas Brasília só foi possível também porque muito antes os bandeirantes cortaram o sertão, plantando vilas e fazendas. Anhanguera já havia passado, fincando bandeiras. Então, aqui havia uma espécie de Idade Média, mas não o vazio absoluto. Todas essas passagens inscrevem Brasília no roteiro da civilização brasileira que estamos construindo. É com essa perspectiva histórica que a TV Brasil homenageia os 50 anos de Brasília, exibindo conteúdos como Os anos JK, de Silvio Tendler, os interprogramas Bem te vi, Brasília, de Tânia Quaresma, A vida é um sopro, confissões de Niemeyer, e a inédita série documental coproduzida com o cineasta Pedro Jorge de Castro, Brasília, um sonho de três séculos. Viva Brasília e o povo brasileiro!” .

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 1:49

Panetone é tema de bloco no DF

O bloco carnavalesco brasiliense ?Nós Que Nos Amamos Tanto?, grupo idealizado pelo jornalista Ilimar Franco,  que desfila na Capital da República, no próximo dia 6, a partir do Bar Brahma, na 202 Sul, em frente a Polícia Federal, escolheu no início da noite de hoje o seu samba.
A folia desse ano é dedicada aos 50 anos da Capital, e a roubalheira comandada por seu governador: “Dos traços do arquiteto ao panetone: apogeu e glória em meio século de alegria candanga”.
Segundo o enredo, ?vanguarda não só do Brasil, mas do mundo, Brasília dita moda – e a comemoração de seu meio século não poderia ser diferente! Vamos assoprar as velinhas do quadradinho colocadas sobre um panetone! Vamos todos, com as meias de nossos corações cheias de amor pra dar, inspirados nos traços do arquiteto, celebrar a vida, as superquadras e a seca!?
O samba vencedor ? ?Apogeu e glória em meio século de alegria candanga” ? é de autoria de Fernando, Paulo, Ricardo, Robson e Ricardo M . É a seguinte a letra do samba:

Oh meu Deus
Protegei nós que roubamos
Nós Que Nos Amamos Tanto, em 2010
Brasília faz 50 anos

Tudo começou num avião
De Lucio Costa e Niemeyer
Tesourinhas, superquadras e palácios
Os candangos em todos os traços
Mas o projeto era superfaturado
Nem Juscelino segurou a malandragem
E agora que já é cidade feita
Veio o Durval e entregou toda a receita

Tem uva passa, fruta seca e propina
É o panetone do Arruda em Brasília
Tem uva passa, fruta seca e propina
É o panetone do Arruda em Brasília

Regeneração,
No GDF não existe
Tem caixa 2, tem cueca, mensalão
Não tem ladrão que fique triste
Democrata Arruda,
Reza, chora e nunca muda
Depois do painel, embolsou 50 mil,
E vai torrar lá na Papuda

Grana na meia, mas que catinga
Até o Roriz pode acabar no Buritinga
Grana na meia, mas que catinga
Até o Roriz pode acabar no Buritinga

O samba é super  otimista, já que prevê não só a punição dos mensaleiros do DEM, mas também a de Joaquim Roriz, governador por quatro vezes do Distrito Federal e mentor de todos os envolvidos.
Ele será cantado dia 6, na exibição única do bloco pré-carnavalesco, criado há 5 anos, mas que se intitula centenário, pois foi fundado pelos índios avá canoeiros, habitantes ancestrais do planalto central e que vivem dramático processo de extinção.

  • Segunda-feira, 10 Maio 2010 / 4:00

Ainda Brasília

Da jornalista Tereza Cruvinel, presidente da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), para o ‘Correio Braziliense’:
“Ainda é tempo de falar dos 50 anos de Brasília. Aliás, a celebração do cinquentenário não pode ficar restrita ao 21 de abril que passou. Deve estender-se por todo este resto de ano. Assim faremos na TV Brasil, assim farão outras instituições da cidade. Mas a passagem do 21 de abril evidenciou a grande intolerância com a cidade. Muitos foram os registros corretos, alguns compreensivelmente eufóricos, mas outros foram preconceituosos e desinformados. Escreveu-se muita bobagem repetindo a rasteira confusão entre a cidade ? seus habitantes, sua singularidade urbana, seus vícios e suas virtudes, sua beleza e seu espírito de síntese do Brasil ? com o quadrilátero que abriga o poder federal e o poder local.
É inacreditável que, tantos anos depois, ainda tenham desenterrado avaliações sobre o custo da obra e os recursos nela empregados ? malversados ou não. Inacreditável que ainda não se tenha compreendido que, sem Brasília, este sertão vasto e profundo estaria ainda na Idade Média (e eu vivi nela, como já contei aqui) e talvez nem fosse mais brasileiro. Inacreditável que alguns não tenham se rendido a evidências que iluminaram outros espíritos há três séculos: o espírito rebelde dos inconfidentes, o espírito nacionalista de José Bonifácio, o espírito vanguardista de Hipólito José da Costa, fundador deste Correio Braziliense, bem como o do iluminista Varnhagem ou do desbravador Luis Cruls.
Tudo isso muito antes de JK, que sem dúvida emprestou as esses vislumbres seu espírito realizador. E sem falar, pois disso pouco se falou, da capacidade realizadora de nosso povo. Dos que se mandaram do Nordeste em paus de arara, dos que vieram aqui de Goiás, dos que não hesitaram em deixar o balneário encantado do Rio de Janeiro, mas já inadequado como capital, e da maioria de migrantes que, como eu, veio de Minas, ?atravessando o Rio Paranaíba?, como dizíamos então. Vieram, viemos, acreditando no sonho de uma civilização brasileira, que se entenderia, como se estendeu, sobre todo o território, deixando de ser a civilização litorânea do ?país dos caranguejos?.
Mas de todos os absurdos que li, o mais grave foi a avaliação de um acadêmico, de que a transferência da capital para Brasília propiciou a chegada e a vitória da ditadura. Ela teria vindo de todo modo, por força das injunções políticas criadas. Foi em São Paulo e foi no Rio que se instalaram os mais violentos e bárbaros centros de tortura, de onde desapareceram com tantos brasileiros. Mas nem São Paulo nem o Rio devem ser culpados por isso. Assim como a liberdade, a ditadura não tem pátria nem cidade.
Escreveu-se muita besteira, mas também foram pródigas as recordações. O nosso arquivo público disponibilizou seu rico acervo inconográfico, através do qual pudemos ver a catedral ainda nos ossos, a Esplanada como cerrado, o lago ainda inexistente ou malformado. Pudemos recordar a Vila Amaury, que o lago engoliu, ou ver o Congresso com as lajes ainda expostas. O Núcleo Bandeirante como um grande acampamento e as asas de Brasília ainda como crisálidas.
Falemos de Brasília todo o ano, repudiando a confusão entre a cidade e os escândalos aqui revelados, personificados pelos daqui ou pelos de fora. Eles são também fruto de um sistema político que o Congresso como um todo ? composto por representantes de todos os estados ? resiste em reformar. Os tempos são difíceis para nossa capital. Ainda pode haver uma intervenção, federal, mas decisão do Supremo não se discute nem se advinha, respeita-se. Seja como for, o que não podemos permitir é que a conjuntura política local subtraia, como alguns já defendem, o direito dos brasilienses à representação popular. Lutamos pela representação política da capital ao tempo em que não votávamos. Elegemos maus representantes? Certamente. Mas os outros brasileiros também já votaram a cabresto ou no bico de pena. Eram as circunstâncias. Temos as nossas. Vamos mudá-las, mas sem permitir que nos transformem em cidadãos de segunda. Viva Brasília”.

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