Clarissa será mesmo a vice de Rodrigo

     Dos repórteres João Antonio Barros e Rozane Monteiro, do ‘Dia’:
      “A política é capaz de misturar azeite e água e até juntar na mesma chapa o deputado federal Rodrigo Maia (DEM) e a deputada estadual Clarissa Garotinho (PR). Filhos de dois históricos adversários políticos do Rio, os sucessores de Cesar Maia (três vezes prefeito) e Anthony Garotinho (ex-governador), anunciam no dia 8 a chapa que vai concorrer à sucessão de Eduardo Paes (PMDB).
Para fechar a parceria, só faltava o “sim” da moça, que vai ser a vice. Ele veio na quinta-feira (aniversário da cidade), durante entrevista em que os dois deram o tom da dupla. Fala mansa, Rodrigo é o articulador, o homem do cálculo, o estrategista. Falante, apaixonada por política, Clarissa parece estar sempre pronta para a briga.
- A senhora confirma que é candidata a vice-prefeita na chapa do deputado federal Rodrigo Maia (DEM-RJ)?
CLARISSA GAROTINHO: Aceitei ser vice do Rodrigo e estou muito feliz com essa decisão.
- E o senhor? Está feliz?
- RODRIGO MAIA:  Eu sempre quis que a Clarissa fosse minha vice. Sempre tive certeza de que é o melhor caminho para essa aliança, do PR com o Democratas. A gente compõe uma chapa onde vamos ser dois quadros muito fortes. Não vai ser uma chapa onde você tem um candidato a prefeito e um vice desconhecido. Você vai ter uma chapa com dois quadros com muita densidade, com famílias com histórias fortes no estado e na cidade do Rio de Janeiro.
- Por que a senhora demorou tanto a confirmar? Havia alguma dúvida, alguma negociação que ainda estava em curso?
CLARISSA: Na cidade do Rio de Janeiro, dentro desta aliança, coube ao DEM indicar o candidato a prefeito. Mas eu tive muita dificuldade no início pelo fato de nossos pais terem sido adversários durante muito tempo. Meu pai chegou a dizer para mim: “Olha, se eu fui capaz de superar essas diferenças, você também tem que ser. Ele me disse: “Eu estou convencido de que essa aliança vai ser positiva”. Só que, para mim, não bastava que ele (o pai) estivesse convencido porque quem estaria no processo eleitoral seria eu. Quando eu entro em alguma coisa — e eu sou assim em tudo —, eu entro de cabeça. Eu não poderia compor uma chapa simplesmente por um arranjo familiar que entendeu que agora os dois partidos deveriam se unir para enfrentar o PMDB. Eu precisava estar convencida de que seria bom para mim e para a cidade compor essa chapa. Eu me lembro até hoje da primeira vez que eu e Rodrigo sentamos juntos. Eu me lembro que eu falei para o Rodrigo: “Essa aliança é muito difícil, mas ela não é impossível.” Então, eu resolvi me dar uma oportunidade, diante da necessidade da aliança, de conhecer o Rodrigo. Eu falei: “Eu e ele nunca fomos adversários. Então, eu preciso conhecer o Rodrigo Maia. Eu não sei como ele é, eu conheço da mídia. Não sei o que ele pensa.” E eu disse para ele: “Eu sou uma pessoa de muitas convicções, você também. Imagina se eu sou sua vice e lá no meio da campanha a gente fica batendo cabeça. Não vai ficar bonito isso. Então, eu preciso te conhecer, preciso saber o que você pensa sobre a cidade, preciso saber se nós vamos conseguir tratar um projeto comum para a cidade do Rio, como é que vai ser nós dois trabalhando juntos. Então, estamos há três meses nos reunindo. Já tivemos reuniões temáticas para discutirmos educação, infraestrutura da cidade… – Qual mais, Rodrigo?
RODRIGO: Esporte…
CLARISSA: … esporte, saúde… Nós fomos nos reunindo para tratar de vários temas. Chegou num momento em que essas questões temáticas estavam avançando bem. Então, sugerimos que começássemos a fazer reuniões públicas — ele já seria o candidato apoiado por nosso partido independentemente de eu ser a vice. Até para saber como seria nós dois juntos num ato público. Nós começamos a andar e fizemos várias reuniões grandes, ouvindo as pessoas, os problemas dos bairros… Eu acho que a gente se deu bem trabalhando junto. Isso, para mim, foi determinante na minha decisão. O Rodrigo me surpreendeu muito: ele é uma pessoa que sabe ouvir, humilde, que sabe ouvir quem pensa diferente e reter o que é bom. Eu acho que nós precisamos de políticos com essas características.
- “Surpreendeu” porque a senhora esperava uma outra coisa?
CLARISSA: Talvez por ser filho do prefeito que administrou a cidade por mais tempo — mais de 12 anos —, ele podia achar que era só reunir a equipe do pai que sabia exatamente o que tinha que fazer. Mas o que eu vi foi exatamente o oposto. O que eu vi foi uma pessoa disposta a ouvir, a rever algumas questões, disposta a trabalhar em equipe. Foi uma grata surpresa.
- Ela também o surpreendeu, deputado?
RODRIGO: Não. Eu tinha certeza de que ela era isso: talentosa, corajosa, boa de rua, boa de reunião com muita gente. Desde o primeiro dia, eu sabia que, para mim, a melhor alternativa era Clarissa de vice. As virtudes que eu conhecia de longe, que as pessoas confirmavam, todas elas foram confirmadas na aproximação. Agora, eu estou mais convencido ainda de que esta é uma chapa que vai dar muito trabalho nesta eleição.
- Tinha Plano B se ela não aceitasse?
RODRIGO: Não. Eu ia convencê-la. Quando entra num projeto, você tem que ter muita certeza dos seus objetivos. Eu tinha muita certeza de que o caminho era nós disputarmos uma eleição nesta aliança. Nós tínhamos que sair do isolamento. A primeira certeza que eu tinha: sozinhos, nós não íamos a lugar nenhum. Nós não podemos priorizar projetos pessoais, então, precisamos estar juntos num projeto coletivo, para construir a partir de 2012 um outro cenário para o Rio de Janeiro. Numa eleição que tem essa estrutura toda contra a gente, a gente tem que ter muita certeza. Não queria um vice do tipo “pelo menos, esse não tira voto”. Eu queria um vice com personalidade forte, que agregasse voto. Eu entendo minhas qualidades, mas entendo também alguns defeitos que eu tenho. Eu sou uma pessoa muito tímida, e acho que o perfil da Clarissa vai agregar muito na rua.
- Ela é mais coração, de batalha. O senhor é mais pragmático, mais de elaborar. São pessoas diferentes. Não dá dor de cabeça?
RODRIGO: Não, não dá dor de cabeça. Nós vamos construir um programa de governo juntos e vamos governar juntos a cidade do Rio de Janeiro. Quando eu escolhi a Clarissa, sabia que não podia colocar na chapa uma pessoa que, vencendo as eleições, iria colocar numa salinha escondida no 13º andar da Cidade Nova ( localização do gabinete do prefeito na sede da prefeitura). Eu precisava de uma pessoa que não ia ser apenas coadjuvante, que ia ser tão importante como o próprio candidato a prefeito.
CLARISSA: Ele me chamou e disse: “Clarissa, eu quero governar junto com você.” Nós nunca discutimos qual seria minha função no governo. Mas eu gostaria de ser a fiscal número 1 de nosso governo.
- Nas reuniões, o que convergia e o que divergia?
CLARISSA: Eu falei: “Olha, vocês estão dispostos a rever a questão da aprovação automática (nas escolas)?” Na verdade, a aprovação automática foi um nome que inventaram aqui. Acredito que funcione bem em muitos lugares do mundo, mas aqui…
RODRIGO: Foi feito no final do governo (de Cesar Maia), sem um estudo maior, sem trazer os pais e os professores para o debate. É um assunto que o Cesar Maia, num documento do partido em relação à cidade, deixou isso claro. Está lá, ele tem clareza que nós acertamos muito, mas nós erramos também. E esse foi um ponto que foi muito mal colocado. Nós temos é que melhorar a qualidade do ensino, valorizar o magistério, acabar com a privatização na Educação e na Saúde.
- O que o carioca deve esperar com relação às obras que já foram iniciadas pelo prefeito Eduardo Paes?
RODRIGO: Obras que estão sendo executadas vão ser todas terminadas. Agora, nós não acreditamos que a privatização da Saúde e Educação dá e dará bons resultados. Nós queremos dar clareza: nós, ganhando a eleição, não vamos manter a privatização nem na Educação, nem na Saúde.
- De que forma os índices de rejeição de Garotinho e Cesar Maia podem afetar a campanha dos senhores?
RODRIGO: A minha equação é que nós vamos poder entrar no eleitor do Cesar Maia e no eleitor do Garotinho. Agora, muito mais importante do que isso vai ser a nossa capacidade de trabalho e de convencimento para a gente poder agregar uma fatia que é a maior de todas: a de 70% do eleitorado que, com toda a máquina, com todo o gasto de publicidade, está indecisa. Um tem uma rejeição, outro tem outra. Parte dessa rejeição é a todos os políticos. E, depois, eu sou Rodrigo Maia, ela é Clarissa. Claro que o cara que odeia o Cesar Maia e o cara que odeia o Garotinho é óbvio que não vai votar na gente. É óbvio que nós nem vamos atrás desse voto. Agora, aquele que pensa: “Ah, o último governo do Cesar Maia eu não gostei muito. Pô, mas foi muito bom antes, o que aconteceu?”; aquele cara que é saudoso do primeiro e do segundo e ficou com a memória negativa do final do terceiro, esse, nós temos toda a condição de trazer. Da mesma forma que o eleitor do Garotinho que viu a gestão do Garotinho e a da Rosinha e depois acompanhou nos últimos anos toda a pressão em cima do Garotinho por alguns órgãos da mídia, ele também…
CLARISSA: Vai ser um desafio muito grande. São 12 partidos contra 2 ou 3, 14 minutos de TV contra 5, a máquina municipal, estadual, federal, muito dinheiro. Acho que é um grande desafio, mas desafio sempre foi uma palavra que me moveu muito.
- Se ganharem, os senhores vão dar continuidade às obras que estão previstas para a realização das Olimpíadas de 2016?
RODRIGO: Vamos honrar
- Como atingir, durante a campanha, o personagem Eduardo Paes?
RODRIGO: Ele não é um personagem. Hoje, na cidade do Rio de Janeiro, o (Fernando) Gabeira é um personagem, Cesar Maia é um personagem, o Garotinho é um personagem. Eduardo não é um personagem, Eduardo não tem identidade própria.
- Como avaliar o fator Marcelo Freixo nesta eleição?
RODRIGO: Todos os candidatos são nossos aliados. O Freixo (deputado estadual do PSOL que deverá sair candidato à Prefeitura) caminha numa faixa que hoje nós não temos. Mas ele também não entra na nossa faixa. O Otávio Leite (deputado federal do PSDB, também pré-candidato) é que entra um pouco na nossa faixa, que é o trabalho que ele fez com portadores de deficiência.
CLARISSA: E tem a Aspásia (Camargo, do PV, que poderá entrar na briga).
RODRIGO: Todos eles vão cumprir o papel para ter o segundo turno. E eu tenho a convicção de que nós estaremos no segundo turno.
- Quando os pais dos senhores ainda eram adversários ferrenhos, muitas vezes subiram o tom na troca de farpas. Referindo-se aos governos de Garotinho e Rosinha, Cesar Maia já disse que o Palácio Guanabara estava num “mar de lama”. Garotinho já disse que era “difícil” discutir ética com Cesar Maia. Quem estava com a razão?
RODRIGO: São momentos políticos, de adversários políticos e jovens. Garotinho foi governador com 38 e meu pai tinha 50 e poucos anos. Isso gera sempre um tom acima da crítica. Acho que é do jogo e já passou. O Cesar Maia e o Garotinho têm seus defeitos e virtudes. Vamos trabalhar com as virtudes. Nenhum de nós está abrindo mão de princípios. Mas nossas convergências são maiores.
CLARISSA: Para nós, que somos uma nova geração, isso é um aprendizado, que não dá para fazer política com o estômago. Não pode analisar um fato fora do contexto. O Garotinho disputava eleição de governador contra o Cesar Maia (1998). O Garotinho ganhou do Cesar Maia. Existia ali, de certa maneira, o orgulho ferido do Cesar, o prefeito do Rio, que perdeu para o Garotinho, que era um prefeito de Interior (Campos). Não interessa a nenhum de nós o confronto. Não nos interessa ficar discutindo se o pai dele tinha razão ou se o meu pai tinha razão. O que nos interessa agora é caminhar juntos e trabalhar pelo bem da nossa cidade.
RODRIGO: Se for analisar estas frases, vai ver que nenhum dos dois tinha razão. O excesso da agressividade até tem o seu papel, mas prova que nenhum dos dois tem razão.
- O que os difere dos pais dos senhores?
RODRIGO: Meu pai é um gestor, um quadro pensador do partido, e eu fazia política, organizava a burocracia do partido, organizava as alianças, tanto aqui como em Brasília. Meu perfil é mais de agregar, de conversar. Meu pai tem o perfil mais combativo, de confronto. Logo no início da carreira, vi que eu tinha uma qualidade que ele não tinha, a paciência de dialogar.
CLARISSA: Acho que meu pai é mais centralizador. Eu gosto mais de trabalhar em grupo, de dividir tarefas. Eu não sou muito centralizadora. Acho que é porque meu pai teve uma convivência muito grande com o (ex-governador do PDT Leonel) Brizola, que era muito centralizador. Não tenho dificuldades de ouvir conversas diferentes. Tanto que as minhas passagens pela Câmara (Municipal) e pela Assembleia (Legislativa) marcaram muito para mim porque a minha relação política se deu melhor sempre com os adversários políticos da minha família.
- Como os senhores se conheceram?
CLARISSA: Não sei se o Rodrigo vai lembrar, mas eu lembro. Foi através de um amigo comum.
RODRIGO: Foi no Garcia & Rodrigues
CLARISSA: Ele (o amigo) me ligou e falou: “Estou no Garcia & Rodrigues tomando café com um amigo meu, o deputado federal Rodrigo Maia, e eu queria te apresentar a ele. Você pode vir aqui?” E eu fui (risos). Fala sério, você (virando-se para Rodrigo) nem lembrava disso.
RODRIGO: Lembrava. Lembrava também de uma vez no plenário do Congresso (Nacional), uma vez que você foi lá.
- E, para as eleições de 2014, quem seriam os candidatos da chapa, se a aliança DEM-PR for mantida até lá?
RODRIGO: As eleições de 2012 são importantes para todos os partidos. E aqui no Rio não será diferente. O que sair de 2012 vai viabilizar candidaturas ou não. É lógico que nós estamos construindo a nossa aliança e quem são os nomes que os partidos têm? Garotinho é o mais forte e Cesar Maia o segundo mais forte, a nível regional.
CLARISSA: Vocês são muito ansiosos…