Eliana: “Fui presa com 15 anos…”

     

     “Há muitas histórias perdidas e famílias sem respostas no Brasil. Os pedaços de informação que se tem sobre os desaparecidos políticos exibem a face de um regime que torturou, matou e ocultou cadáveres. A democracia, em 27 anos, não conseguiu romper o impedimento dos militares às investigações. No caso Rubens Paiva, fica clara a culpa das Forças Armadas.
Feriado no Rio, dia ensolarado aquele 20 de janeiro de 1971. Rubens Paiva viu a filha Eliana, de 15 anos, descer as escadas do sobrado à beira-mar, no número 80 da Delfim Moreira, no Leblon, enquanto conversava com o amigo Raul Riff. Pediu à filha um beijo.
Eliana viveria o próprio horror. Quando voltou da praia, a casa já havia sido invadida, e o pai estava preso. Foi ameaçada por um militar com um cabo elétrico. No dia seguinte, foi levada presa, encapuzada, junto com sua mãe, para o DOI-Codi. Ela falou pela primeira vez depois de 40 anos para a GloboNews.
- Eliana, o que você lembra do seu pai?
- Meu pai era uma figura muito alegre, muito viva, muito feliz. Ele tinha sido cassado em 1964. A partir daí, sofreu nove meses no exílio. Quer dizer, ele ficaria mais, mas, em determinado momento, ele chegou em casa, em São Paulo. Ele tinha pego um avião via Buenos Aires ou Uruguai, não me lembro direito, e conseguiu sair com o passaporte de diplomata ou diplomático, que é um passaporte vermelho. Então, dessa maneira, ele foi passando pelos aeroportos, até chegar em São Paulo. Eu me lembro no final de 64… quer dizer, a cassação dele foi na primeira ou na segunda listas de cassação de deputados federais. O exílio dele foi a partir de junho. Depois de 31 de março, da intentona revolucionária ou golpe militar, ele ficou na embaixada iuguslava até junho, julho… Ele foi para Iuguslávia, a partir daí ele foi para outros países da Europa. Nove meses depois ele chega em casa pela porta dos fundos, as empregadas tomaram o maior susto e era o jeito dele. De repente, ele decidiu “vou voltar pra casa. Chega, já fiquei no exílio muito tempo, ninguém vai fazer nada pra mim. Eu estou livre de processos, enfim.”
- Até porque ele não tinha nenhuma atuação assim…
- Tinha. Ela tinha tido uma atuação na época do processo contra o Ibad..
- Uma atuação parlamentar…
- Parlamentar. Mas atuação política, de esquerda, que realmente agredisse os militares, a não ser isso, que foi uma coisa séria, denuciar o Ibad. Aquilo era uma coisa muito séria dentro do governo militar, que provava uma série de verbas mal utilizadas por gente que depois assumiu o regime. Mas, a partir disso, ele não tinha tantos problemas. A personalidade dele era viver. “Não estou conseguindo ficar longe da minha família na Europa, tá tudo muito chato aqui, eu vou voltar pra casa”. E foi assim que aconteceu
- E em casa, como ele era como pai?
- Papai trabalhava muito. Ele era uma pessoa participante de todo tipo de grupo social em que ele estava envolvido, inclusive na própria profissão de engenheiro civil. Ele tinha uma firma de engenharia. E quando se tornou deputado federal, ele tinha um grupo de amigos, de deputados bastante ativos, E como pai ele estava presente, junto conosco, os cinco irmãos. A vida pública, todo mundo sabe disso, qualquer político, qualquer deputado principalmente na década de 60, tinha uma vida muito intensa. A geração dele era muito exigente em relação a discussões, a conversas, a debates. Apesar da pouca idade de todo mundo. Foi uma geração muito importante para o Brasil. Geração dos anos 50, do Celso Furtado, do Fernando Henrique Cardoso e, enfim, de todas essas pessoas…
- Você viu a prisão do seu pai?
- Pois é. Antes, você me perguntou sobre a personalidade dele…Exatamente por ser uma pessoa muito viva, ele começou a se sentir cerceado em São Paulo. Papai não podia trabalhar mais do jeito que estava trabalhando, aí ele conseguiu um emprego no Rio de Janeiro, como engenheiro civil, mas, mesmo assim, não podia assinar porque ele era um deputado cassado. Todas as contas dele como engenheiro civil eram ligadas ao governo, porque ele fazia pontes e estradas. As obras envolviam verbas federais, então ele não podia aparecer. Ele conseguiu um emprego no Rio, entrou como sócio de uma empresa lá. Nós mudamos pro Rio. A primeira coisa que ele fez foi alugar uma casinha em frente à praia do Leblon, um sobradinho e mudamos pra lá. De novo volta essa personalidade da alegria, da vontade de viver, da praia, do Rio de Janeiro. O Rio de Janeiro de 65 em diante foi uma cidade muito especial. Aconteciam muitas coisas no Rio de Janeiro que não aconteciam em São Paulo. Pra ele, era muito importante. Tanto que ele foi preso no Rio de Janeiro. Isso é que estou tentando chegar. Como foi essa prisão? Raul Ryff, jornalista e assessor de imprensa de João Goulart, também cassado, já morava, já tinha voltado pro Rio de Janeiro, depois de ficar um tempo na Europa. Raul Ryff morava perto, no condomínio dos Jornalistas, que existe até hoje no Leblon. Quer dizer: uns jornalistas, uma série de jornalistas moram ali, compraram apartamento nesse lugar. E ficava a três quarteirões de casa. Então, Raul Ryff de manhã saia da casa dele, passava em casa, pegava papai e iam pra praia andar, conversar, encontrar gente. Era o que mais eles gostavam de fazer. Então, quando acordei e levantei, era feriado, estavam os dois sentados numa poltrona, numa espécie de jardinzinho que a gente tinha. O Ryff e meu pai, os dois conversando. Então botei biquini, botei saída de praia, peguei minhas coisas. Eu tinha uma turma de praia, como todo mundo tinha na adolescência, eu tinha 14, 15 anos de idade. Eu me lembro de estar saindo correndo e ele me disse: “ué, você não vai me dar um beijo?”. Eu disse: “vou, claro”. Dei um beijo nele e o Raul pediu um beijo. Dei um beijo no Ryff e fui embora pra praia. Fui embora pra praia, com minha turma, fiquei um tempo lá, e quando eu voltei…isso devia ser o quê? Dez horas, onze horas da manhã…Quando voltei uma, duas horas da tarde, eu entro em casa e mamãe, até hoje vem muito essa memória, estava com olho muito arregalado, quer dizer, uma coisa que eu nunca tinha visto nela. Ela estava muito arregalada, falando muito baixo, muito contida. Perguntei: O que aconteceu? Ela me falou: “Teu pai foi preso”. Chamou de lado. Eu não tinha visto os militares à paisana, que estavam lá. Quando.tinha entrado na casa, mamãe parecia estar me esperando. Porque minha irmã mais velha estava em Londres, quer dizer, eu era a segunda mais velha. Eu acho que pela idade. Ela disse: “seu pai foi preso, você vai tentar sair e avisar ao seu tio”. Era o cunhado do meu pai, casado com uma irmã da minha mãe, Cássio Mesquita Barros, que é um advogado, ainda é advogado até hoje. “Você vai tentar telefonar pra ele e avisar à família que seu pai foi preso.” Eu jogava vôlei pelo Botafogo, na equipe do juvenil. Então, o que eu fiz: me vesti de Botafogo, peguei minha mochila, tomei banho, aí que eu vi, quando fui entrando, vi que tinha uns três ou quatro homens dentro de casa. Me vesti inteirinha, a caráter, de jogadora de vôlei, desci. Disse: “estou indo pro clube, tenho compromisso, não posso deixar. E fui saindo, quer dizer, não vão me impedir de sair. .E fui exatamente até o condomínio dos Jornalistas onde estava a maioria da minha turma, na casa do Ronaldo Pacheco e pedi para telefonar. O Ronaldo Pacheco é um amigo meu até hoje. O Ronaldo deixou eu telefonar. Telefonei pro meu tio, consegui falar com ele. Depois não sabia se voltava pra casa, mas tinha que fazer uma hora pelo menos pra dizer que tinha ido até o Botafogo, jogar e voltar. Fiz uma hora, uma hora e meia, mais ou menos. Não sei se o Ronaldo ficou comigo, mas a gente ficou andando um pouco. Eu pedi para ele pra não aparecer, inclusive. Eu falei um pouco pra ele do que eu sabia. Voltei pra casa, e aí que comecei a perceber que a barra era muito pesada. Quando eu cheguei em casa, um deles, o mais fortão, estava com um cabo elétrico na mão e perguntou: “o que você foi fazer na rua?” Eu olhei pra ele e falei assim: “Eu fui jogar”. “Não, você não foi jogar, você foi avisar às pessoas que teu pai foi preso. Ou seja, meu tio, ingenuamente, tinha ligado pra casa da minha mãe, pra perguntar o que tinha acontecido. E o telefone estava grampeado. Como é que grampeavam o telefone naquela época? Havia várias extensões na casa. Cada um ficava numa extensão. Na hora que tocava, alguém atendia, alguém ouvia na extensão. Ainda era uma coisa rudimentar. Não sei se eram realmente grampos. Foi muito difícil, porque eu consegui sentar na sala com este sujeito que estava completamente transtornado – eu nem vi minha mãe na sala – e tentei acalmar o cara. Falei: “olha, eu fui avisar ao meu tio porque a gente não sabe o que está acontecendo, e o senhor, por favor, abaixe esse cabo elétrico, porque o senhor não vai fazer nada com isso.” E aí a sensação que eu tive foi que ele se acalmou. Eu acho que esse ambiente familiar é absolutamente isento dessa culpabilidade de militância. Mamãe com empregadas, enfim, meu pai era um burguês, um empresário bem sucedido. E a coisa acalmou. Então, nós pudemos dormir. Eu tenho a impressão de que os meus três irmãos Marcelo, pela ordem, Ana Lúcia, que é a do meio, e Beatriz. Ana Lúcia tinha ido pra casa de uns amigos, eu acho. Marcelo e a caçula Beatriz, a Babiu, estavam em casa.
- Você chegou a ser presa. Como foi esse episódio?
- Pois é. Nos dias 20 e 21, a gente ficou em casa. Prisão domiciliar. Ninguém mais entrava, ninguém mais saía. Dois amigos nossos, jovens, Nelson Prado, filho da dona Yolanda Secchin Prado, mais o namorado da minha irmã mais velha, passaram em casa e foram presos e levados. Não aconteceu muita coisa com eles. Parece que só foram interrogados. Eu não sei se foi nesse dia, é um testemunho que gostaria de dar, porque já houve uma série de consequências: o Ronaldo Pacheco, que me acolheu na casa dele, também foi levado. Tinha minha idade, tinha 15 anos. Parece que foi bastante maltratado, foi muito torturado. Aos 15 anos. Fiquei sabendo disso muito tempo depois, porque, enfim, uma série de ciircustâncias fez com que a gente não se encontrasse ou ele não contasse. Fiquei sabendo disso há pouco tempo, quando ele me pediu um documento pra ver se ele não conseguia entrar com um processo. Tive que documentar que ele realmente tinha sido preso, porque não havia testemunhas. Só não sei por que o Ronaldo exatamente. Talvez pela circunstâncias de ser um meninão. Ele chegou lá em casa preocupado comigo, e o pegaram. Nem vi ele ser pego. Acho que ele foi pego na entrada de casa. E eu soube o que aconteceu. Isso foi no dia 21. Do dia 20 pro dia 21. No dia seguinte, minha mãe acorda, eu dormi normalmente, não me lembro do clima ter ficado tenso, enfim….eu era uma garota, não conseguia encaixar muito as coisas…e no dia seguinte, minha mãe me acorda e me diz: “se veste, que a gente vai ter que dar depoimento.” Eu falei assim; “Eu?”…É…Eu me vesti, me lembro de ter colocado uma túnica bem preta, uma calça bem discreta. Aí, de novo, mamãe começou a ficar muito nervosa. Isso mais ou menos às 11h, 11h30 nos colocaram num fusca. Depois, se soube que eles andavam de fuscas pra cá e pra lá, os fusquinhas. Nos colocaram num fusca e nos levaram pra Tijuca, pra Barão de Mesquita, na Tijuca, onde funcionava o Doi-Codi no Rio de Janeiro. Nessa ida para a Tijuca, eles pararam em frente ao Maracanã e nos encapuzaram. Um capuz que vinha daqui até aqui, na altura do peito. A gente estava sentada atrás nesse fusca, um fusca azul, e o rádio o tempo todo passando todas as conversas entre os militares, o código, enfim, a guerra para eles, que eles mesmo falam que a guerra era uma guerra, né? Que eles venciam ou não venciam.
- Você se lembra do que eles falavam no rádio?
- Falavam em código. Sempre em código. Havia uma movimentação paralela ao que estava acontecendo em casa, havia um controle dentro de casa. Eles por fora já viam uma movimentação. Mas sempre me pareceu uma coisa muito ingênua. Você dentro de um fusca, encapuzada, parece um teatro, né? Bom, aí nós paramos na Barão de Mesquita, fomos levados para o Doi-Codi, e me separaram da minha mãe. Nós fomos separadas. Eu fui revistada de alto a baixo, em todos os sentidos, uma coisa desagradabilíssima. Fui revistada por um homem inclusive.