Bottino, um amigo impar

    De Luciana Froes, do ‘Globo’.
    “Tenho laços com o Rodolfo Bottinho de algumas décadas, quando sequer sonhava em escrever sobre gastronomia. Mas ele já era dublê de ator e cozinheiro.  Chefiava um restaurante de massas, em Botafogo, o Madrugada. Isso lá pelos anos 80, 90.
Sempre estivemos por perto, em festas ou eventos ligadas a comida. Fui ao Gema Carioca, programa hilário que ele fazia na Tv Cultura, onde entrevistava seus convidados cozinhando e dando receitas. Uma maluquice completa. Nesse dia, ensinou uma tapioca que eu não consegui aprender, nem ele conseguiu fazer. Deu tudo errado, grudou, queimou, saiu fumaça… Segundo ele, nossa audiencia foi um espetáculo.
Na primeira edição do Premio RioShow de Gastronomia, no antigo Gourmet do Celidônio, em Ipanema, ele foi o nosso mestre de cerimônias. Interpretou um trecho de Risoto, uma peça onde ele cozinhava em cena. O texto, dele, era uma delicia.
Já passamos quinze dias juntos na Espanha. Josimar Melo, critico de restaurantes da Folha, também foi. Bottino nos fez rir durante 15 dias. Só bobagem. Lembro que dois programas eram sagrados em qualquer cidade que a gente chegasse (e foram muitas) : esperar dar meio-dia (antes disso, é coisa de bebado) para beber um “fino” Tio Pepe geladinho e dar um pulo na farmácia para ver os “lançamentos”. Ficava hooooras hablando num portunhol infame com o vendedor. E saia  cheio de sacolas. Me presenteou com um contorno de olhos revolucionário, que quando fui ler, era um creme para verrugas. Ele tinha trocado as sacolas.
A ultima vez que estive com ele foi em agosto, aniversário da Lou Bittencourt, quando fez um risoto otimo para nós. E um pouco antes, quando organizamos um jantar grande no restaurante onde ele cozinhava às terças-feiras, em Laranjeiras. Acabei na cozinha passando os pedidos e orientando os cozinheiros. Bottino ficou no salão de mesa e mesa.
No Shoptime, foi um sucesso.  Fez filmes importantes, novelas, teve coluna de gastronomia no Dia, foi garoto propaganda de azeite, tem livros ótimos de receitas (Comendo o Bottino), enfim, figura especialíssima, que já “morreu e viveu” algumas vezes. Quando a gente pensava que não dava mais jeito, ele ressurgia inteiro, de óculos novos enormes.
Sou personagem de  uma historia que Bottino adorava e me fazia contar  toda a vez que a gente se encontrava. É que fui cobrir um congresso de esquizofrenia, que ninguem no jornal queria cobrir, claro. Tres dias em Mar del Plata. Eu tinha lido no jornal que o free shop estava com uma promoção de impressoaras e eu estava precisando de uma. Custava um troco. Daí, me candidatei. So que o tal congresso era pauleira, pesadissimo, tristíssimo. Deprimi no primeiro dia e tive que ser medicada. Voltei de mãos dadas com um psiquiatra, que me deixou na porta de casa. E com um tarja preta na bolsa. Ah, e não comprei a impressora.  Desde ai, quando fico triste, meus amigos dizem que eu estou ” mar del plata”.
Pois hoje é desses dias mar de plata…”