Angela Maria, 84 anos, vai casar

       De Monica Bergamo, na ‘Folha’:
       “Ângela Maria nasceu em 13 de maio de 1928. No mesmo dia, 40 anos antes, era proclamada a abolição da escravatura no Brasil. Também em 13 de maio, só que no ano de 1917, Nossa Senhora apareceu para três crianças em Fátima, Portugal. Tudo isso contou na hora de escolher a data: no dia 13 de maio de 2012, em seu aniversário de 84 anos, Ângela Maria vai casar.
“Muita coisa importante aconteceu em dias 13 de maio”, diz a cantora, com olhar reflexivo. Ela recebe o repórter Marcus Preto no estúdio da Lua Music, onde grava o novo CD, “Eu Voltei”. O título vem da canção “O Portão”, de Roberto e Erasmo Carlos, que vai estar no álbum. E remete aos oito anos em que está sem lançar trabalho novo.
“Vamos ver se nesse disco a coisa desabrocha”, diz. Ângela está em cartaz todas as quartas deste mês no Bar Brahma, na av. São João, dividindo show com Agnaldo Timóteo. “Ele é um dos meus [cantores] preferidos. E o Altemar Dutra. E, claro, o Cauby [Peixoto].”
Cauby é seu único convidado no CD. Ele é o irmão espiritual de Ângela Maria?
“Irmão, não. Ele é o marido musical dela”, retifica seu noivo, Daniel D’Ângelo, enfatizando a palavra “marido”. Ele se tornou empresário da cantora oito meses depois do começo do namoro. Tem 50 anos e namora Ângela desde os 18. A cantora tinha 51. “Por pouco ela não foi pedófila.”
Ele conta que era dono de um restaurante e estava noivo de outra quando conheceu Ângela. Foi em 22 de novembro de 1979. Estavam na entrega de um “prêmio fajuto”. D’Ângelo apostou com amigos: “Vou convidar essa tal cantora tão famosa pra jantar”. Rolou.
“Eu nem sabia quem era Ângela Maria antes disso”, garante. “Mas a mãe e a tia dele eram minhas fãs”, ela lembra. Daniel conta que, na infância, acordava com “Gente Humilde” tocando no rádio. “Mãe, tira essa mulher daí que eu não aguento mais.” Só ligou o nome à pessoa no primeiro show, já namorando. “Ela
cantou ‘Gente Humilde’ e eu pensei: Olha onde eu me meti.” Ela ri: “Foi castigo!”.
Em casa, Ângela gosta de ouvir música de amor. “Sou romântica, bem?” O noivo responde curto: “É”.
A festa de noivado aconteceu no Rio, onde a cantora nasceu, reunindo os parentes dela. “Foi meu irmão que falou para o Daniel me pedir a mão”, ela conta. “Daí eu tive que pedir, né?”, ele rebate. Se estão preparando uma festona de casamento? Ele: “Calma!”. Ela: “Claro que sim”.
Daniel se faz de durão. Tenta escapar das declarações de amor e dos beijos que ela quer dar nele na frente de todo mundo. Mas se derrete ao falar da estrela Ângela Maria. “Pra mim, que vejo 24 horas por dia, ela é uma caixinha de surpresas. Já vi cada coisa…”
Há casos de todos os tipos em 60 anos de carreira. “Já cansei de ver gente beijar os pés dela, chorando no chão. Vi até pessoas que estão na cadeira de rodas e levantam pra dar um beijo na Ângela”, ele relata.
O produtor Thiago Marques Luiz, que cuida do novo CD de Ângela e dos últimos de Cauby Peixoto, lembra um desses casos. “Quando ela participou da gravação do DVD do Cauby, uma mulher passou mal a ponto de termos que chamar a ambulância”, ele diz. Isso sempre acontece contigo, Ângela? “Sempre.”
“Thiago, você tem a voz da Gal Costa”, ela diz ao produtor. “Ele canta bem, mas é meio envergonhado.”
A cantora, resfriada, teria que esperar alguns dias para colocar as vozes definitivas nas gravações. Reclama do frio que faz em São Paulo, onde vive desde 1967. “Carioca não se acostuma com isso. Quando vim morar aqui, chegava a fazer um grau.”
O sucesso chegou quando ela ainda morava no Rio. Era, possivelmente, a maior cantora do país. Ao menos é isso o que sempre repetiram futuros astros como Elis Regina, Ney Matogrosso, Milton Nascimento e outros “pupilos” da Sapoti, como era chamada. “Nunca tive nenhuma relação com eles”, ela conta. “Sempre foi coisa de corredor de televisão, de encontrar no aeroporto.”
Elis se dizia “imitadora” de Ângela Maria. “Ela tinha loucura pra me conhecer.” As duas se encontraram pela primeira vez graças ao compositor Ronaldo Bôscoli, com quem Elis era casada. Ele armou uma participação
surpresa de Ângela no “Elis Especial”, que ia ao ar pela TV Globo em 1972. A música era “Vida de Bailarina”, sucesso de Ângela regravado por Elis.
“Ela começou a cantar e eu vim por trás. Quando me viu, ela chorou sem parar e interrompeu a gravação, brava porque o Bôscoli não tinha contado que eu ia.
Quando voltamos, ela teve outro ataque de choro. E depois outro. Toda vez que eu entrava, ela chorava. Até que Ronaldo começou a engrossar: ‘Parou, Elis. Você já conheceu a mulher, já sabe como ela é. Vamos trabalhar?’ Só aí ela acalmou e a gente conseguiu gravar.”
No novo CD, Ângela regrava “A Chuva Caiu”, uma das primeiras canções de Tom Jobim (com o parceiro Luiz Bonfá), escrita muito antes de se ouvir falar em bossa nova. O registro original é dela, feito em 1956.
“Eu andava com aquela turma: Tom, Nara Leão, João Gilberto. Mas, apesar de eu estar no grupo, eles preferiam que as músicas não fossem gravadas por uma cantora popular”, diz. João Gilberto já era como é hoje? “Maluco? Sim! Era um cara muito gente, mas tinha aquelas ideias. Compunha em cima de uma árvore.”