Carvalho explica ausência de Lula

   

     O secretário-geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, deu uma entrevista ao reporter Adriano Ceolin, do iG, e explicou a ausência de Lula no banquete oferecido a Obama:  “Conhecendo bem o Lula e o cuidado que ele tem de não fazer sombra para a presidenta Dilma Rousseff, eu achei que fosse muito natural que ele não viesse”, disse. “Lula iria dividir os holofotes com a Dilma. Ele é extremamente cuidadoso nessa questão”.
O ministro criticou o esquema de segurança de Obama que manteve o presidente norte-americano distante do Palácio do Planalto e que determinou a revista a ministros do governo Dilma que participaram de um evento com empresários em Brasília. “Fiquei sabendo pelos jornais. Mas é estranho, não é legal. Nosso cuidado todo com o Obama seria tratá-lo como presidente de um país importante, mas não tratá-lo como nada excepcional”, afirmou.
- O presidente Lula tinha adiantado para o senhor que não viria ao encontro com o presidente dos EUA, Barack Obama?
- Não. Agora já faz mais de uma semana que eu não falo. A última vez foi por telefone. Mas achei muito natural (ele faltar ao encontro com Obama). Conhecendo bem o Lula e o cuidado que ele tem de não fazer sombra para a presidenta Dilma, eu achei que fosse muito natural que ele não viesse. Porque se ele viesse, quer queira, quer não, seria um personagem forte. Uma coisa é o Fernando Henrique Cardoso ou o José Sarney. Outra coisa é o Lula, que deixou o governo agora e teve uma relação com Obama. Teve aquela história do “O Cara”. Teve a crise do Irã. Então, tem uma história de relação com o Obama diferente do Fernando Henrique. Quer queira, quer não, Lula iria dividir os holofotes com a Dilma. Ele é extremamente cuidadoso nessa questão.
- O senhor atuou para evitar os protestos de movimentos sociais na passagem do Obama? O senhor entrou nesse assunto?
- Não entrei. Nossa relação com os movimentos pega sempre no essencial. Nossa preocupação é que não houvesse nenhuma manifestação violenta. Mas a manifestação democrática não vejo nenhum problema. Eu acho até que o público ficou longe demais. Mas isso não foi exigência nossa. Quem botou o pessoal lá perto do Supremo Tribunal Federal não fomos nós. Foi a segurança norte-americana que pediu para limpar a praça (dos Três Poderes).
- Em evento em Brasília, a segurança dos EUA pediu que ministros fossem revistados. O senhor ficou sabendo disso?
- Não fiquei sabendo.
- Foi um evento da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Eles abandonaram o local.
- Eu abandonaria também. Não acho que seja justo no seu próprio País.
- Alguém reclamou para o senhor?
- Fiquei sabendo pelos jornais. Mas é estranho, não é legal. Nosso cuidado todo com o Obama seria tratá-lo como presidente de um país importante, mas não tratá-lo como nada excepcional. Se você olhar todo ritual que houve com Obama, é exatamente o mesmo ritual que ocorre quando qualquer presidente vem ao País em visita de Estado. Acho que a presidenta Dilma teve uma postura muito altiva, forte. Quando houve divergência ela falou no meio da conversa sobre a Líbia dizendo: “Acho que a guerra não resolve. Não é caminho para paz”. Aliás, está se mostrando isso de novo com a morte de civis.
- Esta semana uma coluna política citou que o PMDB estaria com saudade do presidente Lula. - Risos…
- Porque o Lula tem estilo diferente da Dilma. O senhor podia comentar esses estilos de cada um.
- Não posso responder pelo PMDB evidentemente. Mas eu sempre digo: é o mesmo projeto com estilos diferentes. O que é mais marcante na presidenta Dilma? Ela é mais preocupada com a gestão interna. Ela vai mais ao detalhe. Permanece no gabinete conduzindo todo o processo. Não quer dizer que ela não delegue, mas ela chama muito para si. O Lula ia mais para rua. Não quer dizer a Dilma não vá. Na relação com os partidos, sinceramente, eu não vejo grandes diferenças. Todos os partidos que sentam com a Dilma saem muitos satisfeitos porque ela conversa bem. Ela não quer fazer uma espécie de hegemonia absoluta do PT. Ela está preocupada. Acho que ela convive com o Temer hoje.
- Pelo fato de conhecer muito bem a gestão, a presidenta Dilma é mais rigorosa na escolha dos nomes que vão compor o governo?
- Ela tem uma grande vantagem sobre o Lula. São oito anos de vivência dentro do governo. Herdou algo que já conhecia. Por exemplo, essa coisa de botar gente mais técnica nas agências. É uma conclusão de uma experiência que ocorreu. Essa é a diferença. Tem a vantagem de ter a experiência anterior.
- Nos bancos públicos também deverá ser assim?
- Sim, mas não quer dizer que não vai haver composição política. Vai ter sim composição política (na escolha de nomes para os cargos em bancos públicos).
- Mas o critério…
- O critério principal, claro, vai ser na questão da competência.
- Durante a formação do ministério da presidenta Dilma, houve uma disputa entre o PMDB e PSB por algumas pastas. O senhor acha que, agora, as coisas já estão mais ajustadas?
- Penso que sim. É claro que agora é que vai ser constituído o segundo, terceiro escalão e as empresas estatais. Podemos ter ainda trepidações. Mas acho que as relações estão bem mais assentadas. O PMDB é maior partido aliado nosso, depois o PSB e outros partidos. Por isso não vejo tanta briga entre os partidos da base aliada.
- O senhor acha que esta semana deve acelerar um pouco mais a formação do segundo e terceiro escalões?
- Essa é a tendência de o governo: sentar com os partidos e terminar a montagem do governo. Até porque quanto mais demora isso é pior para o governo.
- O senhor acha que demorou muito?
- Demorou, mas é típico de começo de governo. Em 2003, foi a mesma coisa. Até em 2007 (segundo mandato do Lula) a gente também demorou um pouco. É natural, porque tem de estudar bem.
- Conhecendo a presidenta, o senhor não acha que ela já tem uma avaliação dos ministros? Quem está indo bem, quem está indo mal.
- Ela não tem externado isso. Eu observo que ela faz comentários, mas são pontuais. Já fez comentários bons sobre mim, ruins também. Já me deu uma…
- Já tomou bronca?
- Uai, natural.
- O que é mais difícil: tomar bronca do Lula ou da Dilma?
- Igual. Bronca nunca é bom.
- Mas bronca de mulher…
- Não, não. Ela é super carinhosa. Ao contrário da imagem…
- Está acabando esse mito de durona?
- Ela é muito exigente. Qual é a vantagem? Ela fala na lata. Pá, pá, pá e acabou.
- Mas o Lula também falava, não é?
- O Lula falava muito! Em 23 de março (de 2003), eu já havia levado 30 vezes mais bronca do Lula do que da Dilma.
- O senhor fica mais à vontade na função de ministro do que na função de chefe de gabinete pessoal?
- Não.
- Por quê?
- Pelo temperamento, pela minha história, eu prefiro bastidor. Prefiro ajudar por trás da cortina. Confesso que custa um pouco a função. Claro, é tudo novo, estou me adaptando agora.
- O governo prepara algum pacote de medidas econômicas? O senhor irá fazer a intermediação com os movimentos sociais?
- É natural que haja sempre medidas do governo que precisam ser discutidas com centrais sindicais. A presidenta pediu para mim que eu fizesse com os movimentos sociais um diálogo permanente. Eu já recebi a Contag (Confederação Nacional dos Trabalhadores de Agricultura), o MST (Movimento do Sem Terra) e vou receber os demais. Isso será permanente. Não está previsto nenhum pacote. Salvo a apresentação de um programa de combate à erradicação da pobreza — que não é um pacote, é um programa. Deve ser anunciado em maio. Mas não tem nenhum pacote previsto. Sempre o diálogo será nossa ferramenta.
- O senhor foi quase presidente do PT. O senhor continua com muita relação com o partido, fazendo esse canal entre o partido e o governo?
- Agora muito mais do que antes. Porque nesses oito anos eu era um pouco monge aqui dentro (do Palácio do Planalto). Eu ficava recolhido e não tinha condição para sair e ir nas reuniões do partido. Agora eu aproveito os fins de semana para retomar o contato com o partido. Vários ministros vão fazer isso, mas eu tenho um papel importante de fazer um ponte com o PT.
- Por causa disso o senhor tem conversado bastante com o presidente Lula?
- A cada dez dias, quinze dias. Fala, a gente troca idéias. Ele está muito contente. Pessoalmente, ele está muito bem. Está muito tranquilo.
- Ele já desencarnou do cargo de presidente?
- Está desencarnando. Está muito agitado, a mil por hora. Fazendo viagens, palestras e reuniões. Está se interessando pela política em São Paulo, para ajudar. Ele não tem jeito.