Anderson, o homem aranha

 

       A mais deliciosa reportagem desse domingo, é o perfil de Anderson Silva, vencedor da Luta do Século. Eis o seu texto e as foto de  Eduardo Knapp, da Agencia Folha:
“A chegada ao Brasil, no último dia 13, marcou Anderson Silva com um episódio que ele vem contando desde então. Ao entrar em sua casa, em um condomínio na Barra da Tijuca, no Rio, viu um paparazzo em cima do muro, tirando fotos. “Eu disse: “Que p… é essa? Velho, tu vai cair daí! Quer foto, a gente tira”.” Fez duas poses para o fotógrafo, mas recusou o pedido para simular um “flagra” em que seria clicado tirando as malas do carro.
A cena ilustra o status de celebridade que o lutador de MMA (sigla em inglês para artes marciais mistas, o popular vale-tudo) ganhou no país após ter vencido, em 5 de fevereiro, o combate contra Vitor Belfort, disputado em Las Vegas e anunciado como “luta do século”. Derrubou o rival em menos de três minutos, com um chute de esquerda no queixo. Voltou ao Brasil uma semana depois para ver a família, dar entrevistas e promover a si próprio e à 9ine, empresa de marketing esportivo lançada pelo ex-jogador Ronaldo em sociedade com o grupo WPP e Marcus Buaiz. É o primeiro contratado da agência.
“Tudo bom, meu gato?”, diz ele ao repórter Diógenes Campanha enquanto almoça um sanduíche de peito de peru com queijo e salada, acompanhado de Coca Zero. Cumprimenta todos com essa expressão e uma voz fina que não combina com seus 105 quilos, 1,89m de altura e o cinturão de campeão mundial do UFC, principal torneio de MMA. O assédio do qual agora é alvo por aqui, conta, só havia conhecido nos Estados Unidos, onde tem casa e é conhecido como “Spider” (aranha em inglês).
“Uma vez, estava com a minha família na Disney e o cara sentou do meu lado na montanha-russa, tirando foto. Outra vez, fui convidado para uma festa da Paris Hilton e os os caras “pa, pá, pá” enquanto eu saía do carro.” Lá, é amigo de celebridades como o rapper Usher e o ator Vin Diesel, que treinam jiu-jítsu com o campeão. Outro fortão do cinema, Steven Seagal, se ofereceu para ensinar alguns movimentos e o ajudou a aperfeiçoar o chute que derrubou Belfort. “É como uma Ferrari. Eu sou o piloto, e tem os mecânicos que ajudam a andar mais rápido”, compara Anderson, que também tem outros cinco treinadores, de diversas artes marciais. “Eu via os filmes do Steven Seagal, mas nunca pensei que fosse aprender alguma coisa com ele.”
O chute em Belfort é motivo de piadas entre Anderson e o novo patrão, Ronaldo. “Eu tô numa briga acirrada com ele. Falo que também faço gol de bico.” Outra brincadeira ainda não teve coragem de mostrar ao chefe: ele inventou uma emissora fictícia, chamada “Rádio Loucura”, e costuma imitar a voz do Fenômeno, simulando uma entrevista para a rede. A pedido da coluna, faz uma demonstração de um minuto. “Vê lá, hein? Você vai me complicar, o patrão vai me mandar embora.”
Na sala do publicitário Sérgio Amado, presidente da agência Ogilvy (que pertence ao WPP, sócio da 9ine), em SP, Anderson faz planos. Espera fechar contratos com dois patrocinadores de Ronaldo: Hypermarcas e Nike. “A gente não tinha um grande nome dentro desse esporte, que poderia levar a marca [a Nike] como a gente gostaria. Agora temos. Será um grande gol para a Nike e para o Anderson”, diz, na terceira pessoa, como também fazem alguns boleiros.
No pulso direito, usa uma pulseira amarela, que promete aumentar o equilíbrio e é mania entre famosos como David Beckham. “Tenho um patrocínio da [fabricante do adereço] Power Balance, mas não é nada. Uso quando quero. Sei lá, acho que não funciona.”
Nascido há 35 anos no bairro paulistano da Barra Funda, Anderson diz que sua origem tem “tudo a ver” com a de Ronaldo. Foi criado por uma tia-avó, em Curitiba. Os pais tinham menos de 20 anos quando ele nasceu e não poderiam lhe dar uma boa educação. “Cara, é uma coisa muito louca. Minha tia teve dois filhos antes, que morreram. Na sequência disso tudo, eu fui para lá com quatro anos. Meu irmão George foi depois, com dois. A gente acredita que tem um quê aí por trás.” Sempre soube dos pais biológicos, com quem mantém contato.
“Tenho um carinho, uma admiração muito grande por eles. Entendo que tenham uma frustração porque não conseguiram ficar comigo. Mas agradeço a consciência e a humildade de me deixarem ir, porque tudo que eu me tornei eu devo a essa decisão deles.”
Em Curitiba, aprendeu artes marciais. Conheceu o racismo no primeiro emprego, como balconista de uma rede de lanchonetes. “Eu estava no balcão num domingo, a maior correria, e chegou um senhor: “Tem alguém para me atender?”. Eu disse que eu poderia, e ele disse que não queria ser atendido por um negro.” Anderson chamou o gerente e explicou a situação. O chefe disse ao cliente que, se não fosse atendido pelo garoto, não seria por mais ninguém.”Confesso que fui para casa meio mal. Conversei com a minha tia e chorei. Mas foi bom, eu cresci como pessoa.” Ele diz que aborda o tema com os cinco filhos: Kaori, 14, Gabriel, 13, Kalil, 12, Kauana, 10, e João, 6. Chama a prole de “a turma do Didi”.
As crianças moram com a mulher dele, Daiane, 29, na capital paranaense. “Lá eu não tenho casa. Quem manda é ela. Digo que a gente é muito mais amigo do que marido e mulher.” Na véspera da entrevista, Anderson foi homenageado por Ronaldo com um jantar na casa do craque, em São Paulo. Daiane cercou o campeão: ligou perguntando onde ele estava e a que horas havia chegado.
Anderson usa brincos brilhantes nas orelhas, que não são marcadas como a da maioria dos lutadores. As deformações ocorrem pelo atrito do órgão com o chão ou o corpo dos adversários, durante treinos e lutas, provocando hematomas. “A real é que, por muito anos, criou-se um mito de que quem tem a orelha estourada é casca grossa, pitbull. Tenho alunos de jiu-jítsu que passavam toalha na orelha para ficar assim.” Repreendeu os garotos. “Não tenho a orelha estourada e espero que continue bonitinha. Você vai chegar na casa do pai da tua futura namorada assim?” A filha mais velha, Kaori, começou a namorar recentemente. “A primeira coisa que olhei foi a orelha dele.”
Além de cuidar das orelhas, Anderson mantém no banheiro um estoque de cosméticos. “Tem creme para o rosto, para as mãos, isso que as mulheres usam para ficar bonitas e que os homens deveriam ter também. Meus amigos falam: “Cara, isso não é coisa de lutador, é coisa de boiola”.” Conta que, numa época, começou a sumir entre as sessões de treino, sempre por volta das 15h. Os amigos o seguiram e o encontraram em uma clínica de estética, “com um negócio no rosto”, para tirar as olheiras. “Aquelas coisas meio modernas, que lutador não usa”, brinca. “Mas como eu sou um lutador moderno, que quebra barreiras, estava lá.” Ainda assim, desconfiou da ideia do fotógrafo Eduardo Knapp de clicá-lo sem camisa e com uma rosa nas mãos. “Você está de sacanagem”, disse, antes de topar”.