Lula deixa saudades

     Dos repórteres Johanna Nublat e Simone Iglesias, da ‘Folha’:
Olá, presidente. O senhor mostrou que os políticos não são todos iguais. Estudei pelo ProUni e me formo em 2011. Obrigado por ajudar esse povo tão sofrido e parabéns pela eleição da Dilma. Sei que no dia 1º o senhor não será mais presidente, mas espero que volte. A propósito, venha conhecer nosso projeto social. Um abraço!
O trecho acima reúne frases de diferentes cartas e e-mails recebidos pela Presidência da República desde abril deste ano, com mais intensidade a partir de agosto.
O objetivo é dar um caloroso adeus, ou ao menos “até logo”, ao presidente mais bem avaliado no pós-ditadura, Luiz Inácio Lula da Silva.
Até meados de novembro, o volume da correspondência somava cerca de 1.700 mensagens, enviadas de todos os Estados, por homens, mulheres, crianças e idosos.
Não falta, também, quem queira convidar o petista, depois de deixar a Presidência, para inaugurações, visitas e projetos sociais.
Esses recadinhos, às vezes recolhidos em eventos em que Lula comparece, se somam à média de 250 mensagens diárias que chegam ao Palácio do Planalto desde o início do governo petista.
Na presença da reportagem, as mensagens de despedida foram abertas, de forma aleatória, pelo responsável pela documentação histórica da Presidência, Cláudio Rocha. Todas elas eram elogiosas ao presidente.
Somente uma tecia críticas ao PT, “comprado por outros partidos”, segundo alguém escreveu de Marília (SP).
Mais de 70% das mensagens chegaram por e-mail, 80% foram escritas por adultos com até 60 anos e mais de 50% foram enviadas de São Paulo, do Rio de Janeiro e de Minas Gerais.
Do Estado natal do presidente, Pernambuco, chegaram 18 cartas e 91 e-mails.
O tom é geralmente informal, muitas vezes usando “você” como tratamento e um “olá, presidente”.
Em outros casos, o remetente exagera na tentativa de formalidade e embaralha as letras ao experimentar um “excelentíssimo senhor”.
O “companheiro”, usado com frequência no início do governo do PT, foi abandonado nos últimos anos.
As mensagens recebidas são catalogadas pela Presidência e dificilmente chegam às mãos do destinatário. No máximo, são lidas pelo chefe de gabinete do presidente, Gilberto Carvalho.
Agora, ao fim de seu governo, Lula vai recebê-las e direcioná-las para seu instituto, ainda a ser criado. O mesmo acontecerá com os presentes.
Lula foi o destinatário do e-mail número 1 de um menino de oito anos de Santa Catarina. “Sempre desejei falar com você, estou usando o computador da minha avó. Estou muito nervoso”, disse.
Depois da introdução, o garoto discorreu sobre o sofrimento com a saída do petista e agradeceu pelo “país que temos hoje”.
Ao se despedir, mandou um abraço para a presidente eleita, Dilma Rousseff, e outro para a primeira-dama, Marisa Letícia.
Em outro e-mail elogioso, uma senhora de 73 anos escreveu para dizer que é admiradora de Lula “desde os tempos do sindicato” e aproveitou para fazer um apelo pelo filho, preso fora do país.
Pedidos pessoais como esse são recorrentes. A Folha se deparou até com uma demanda para resolver uma dificuldade com consórcio.
O mais comum nas mensagens lidas pela reportagem é que o remetente diga apenas “olá” e “adeus”. Caso da criança que mandou um e-mail no aniversário de Lula, em 27 de outubro. “Apesar de ser criança, sempre soube que o país ia mudar. O senhor é o melhor presidente que o Brasil já teve (…) Não me canso de agradecer.”