Política e cultura

                                                 Cesar Maia*

       Brizola dizia que governo investir em cultura cria sempre problema, pois, aí, cada cabeça uma sentença: sempre se desagrada mais do que se agrada.
Parece que, em geral, essa tem sido a motivação dos presidentes da República nestas últimas décadas. Às vezes um ministro silencioso, outras vezes um alegre… e tudo vai ficando na mesma: o patrimônio cultural se deteriorando, os museus do mesmo jeito, e episódicos programas, projetos e eventos. As leis de incentivo fiscal têm sido um alívio para os governos: demonstram que gastam e repassam ao setor privado. Ou se empurra para as empresas estatais.
Eventos ocasionais e em dias-calendário de festas religiosas e folclóricas geram um dissenso muito menor. A defesa do patrimônio histórico e cultural se faz com zelo, mas os recursos para recuperar esse mesmo patrimônio são escassos. Há PAC de tudo, só não há de cultura.
As escolas de música vão sendo fechadas país afora, e o apoio se concentra em percussão, como um sinal da relação de cultura com inclusão social. A formação de plateia para concertos, óperas e balés pouco existe e nada cresceu.
Os promotores têm o cadastro praticamente invariável. No Rio, representa mísero 0,1% da população com mais de 14 anos. Os concertos para a juventude ocupam mais de 60% do uso de salas como a Cité de La Musique em Paris ou a Sala de Luxemburgo.
Do outro lado da rua, os discípulos governistas do filósofo marxista Louis Althusser, morto em 1990, pretendem um Estado expandido (“Aparelhos Ideológicos de Estado”) e, entre estes, a cultura, as letras e as belas artes.
Esses querem regulamentar a cultura, quebrar a sua diversidade intrínseca e ditar regras sobre o que deve ou não deve ser feito. E ficam pensando em conselhos e conferências de todos os tipos, na busca de respostas à passividade dos governos com seu ativismo ideológico.
E, no meio da omissão e do ativismo, segue a cultura como uma subárea dos governos federais, cujas ações são muito mais para acalmar e ganhar tempo, sem que nada de substantivo ocorra. O ministério é, às vezes, dado como presente na compensação partidária de composição de governo. Ou tem um efeito simbólico com nomes de destaque, para despertar otimismo na “classe”.
Às vezes nem isso.
Lá se vai a campanha eleitoral em etapa avançada com a entrada da TV, as entrevistas no “JN”, os debates…
E até aqui nenhum dos candidatos reservou um minúsculo minuto do tempo que tem à disposição para falar de sua política cultural. Nem um minuto. “E La Nave Va”.
*Cesar Maia, ex-prefeito do Rio, escreve para a ‘Folha’.