A eleição em Minas

                               De Marcos Coimbra*
Em matéria eleitoral, cada estado é um estado, embora existam elementos que todos compartilham, comuns ao conjunto do eleitorado do país. Esses, no entanto (e por isso mesmo), explicam apenas as decisões dos eleitores a respeito da única eleição genuinamente nacional, a de presidente da República. Quase nada nos dizem sobre as escolhas dos governadores e dos ocupantes dos demais cargos. Para entendê-las, é preciso olhar para o que cada um tem de particular.
Uma das eleições estaduais mais interessantes este ano é a de Minas Gerais. Não somente pela importância relativa do eleitorado mineiro no brasileiro, que faz com que as eleições presidenciais tenham sempre no estado um importante capítulo. Com pouco mais que 11% do eleitorado do país, Minas é um campo de batalha relevante na definição de quem vence a eleição. Não é, porém, o lugar decisivo, aquele onde tudo se resolve, como acreditam alguns. São Paulo, para lembrar o óbvio, é mais que o dobro de Minas.
Mas não é por motivos demográficos que a eleição mineira é interessante, e sim por razões políticas. O que a distingue das outras é o fato de que, no estado, temos uma eleição de governador parecida com a de presidente, só que em campos opostos.
Tucanos e petistas estão indo para o embate com uma mesma proposta básica, só que a querem aplicar a apenas uma das escolhas. Trocando em miúdos: o PT quer que os eleitores mineiros votem para presidente pensando nas vantagens da continuidade, mas que escolham seu candidato a governador com critério inverso, o de que é bom mudar. Quanto ao PSDB, espera que os eleitores queiram a continuidade no plano estadual, mas que prefiram a mudança na Presidência.
Não haveria maior paradoxo nessas intenções se não fossem tão elevadas, em Minas, as aprovações dos dois governos ? o federal e o estadual. Lula tem, no estado, uma de suas melhores performances, comparável à do Nordeste, onde, sabidamente, está sua fortaleza. Aécio, enquanto esteve à frente do governo, sempre se destacou por sua popularidade, em constante evolução ao longo de seus dois mandatos.
A lógica ?governo bem avaliado conduz ao desejo de continuidade?, comum nas eleições do mundo inteiro, não deveria levar a duas expressões diferentes. Se, na eleição presidencial, ela dá substância ao discurso em favor da continuidade, o mesmo deveria acontecer na estadual. Vice versa, o contrário. Quem quer que os eleitores a apliquem na hora de escolher o candidato a governador, tem que aceitar que eles façam o mesmo quando tiverem que se definir pelo candidato a presidente.
Teremos, assim, nas eleições mineiras este ano, duas campanhas iguais em seu conteúdo básico, mas antagônicas. Todos vão defender o princípio de que, em time que está ganhando, não se mexe. Mas cada lado vai querer que os eleitores só pensem dessa maneira em uma das escolhas que terão que fazer. Na outra, que raciocinem com critério oposto.
A dificuldade de convencê-los a adotar princípios contraditórios nas duas eleições se acentua pela semelhança simbólica dos candidatos. Para a grande maioria dos eleitores, Dilma e Anastasia se parecem no fundamental: ambos existem como possibilidade de voto apenas porque expressam governos e líderes queridos e bem avaliados. Ela sem Lula, ele sem Aécio, por enquanto, não existem, fora do círculo restrito daqueles que os conhecem profundamente. O fato dela ter sido ministra, enquanto ele foi vice-governador, faz pouca diferença para o eleitor comum.
Para aumentar o problema, existem, também, semelhanças nos adversários que cada um, mais provavelmente, enfrentará. Sem querer sugerir que Serra seja igual a Hélio Costa, ambos terão que fazer campanhas enfatizando a mesma coisa: que a experiência política e a biografia de um candidato são mais importantes que a continuidade. Serra vai dizer isso de Dilma, e Hélio Costa de Anastasia.
Por isso, figuras híbridas e de nome esdrúxulo, como ?Dilmasia? ou ?Anastadilma?, são mais que brincadeiras. Queiram ou não os políticos, muitos eleitores mineiros, ao que tudo indica, vão resolver por conta própria, na hora de votar, o dilema com que foram confrontados. Para eles, não haverá drama em votar com a mesma lógica nas duas eleições.
*Marcos Coimbra é sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi, para o ‘Correio Brasiliense’.