O governador e “os suicidas”

Trecho da coluna de Cora Ronai, em ‘O Globo’:
“O governador Sérgio Cabral, capaz de chorar lágrimas de crocodilo em defesa dos royalties do petróleo, não viu, porém, necessidade de tocar nessa cobrança desagradável com o visitante ilustre (o Presidente Lula) e pôs a culpa pelas mortes nos próprios mortos:
“Não é possível a construção irregular continuar. Se você pegar essas pessoas que morreram, quase todas estavam em áreas de risco.”
Não diga, governador! É mesmo?! Ainda bem que temos um líder dotado da sua sagacidade, capaz de identificar, com essa precisão cirúrgica, um problema que nenhum de nós jamais percebeu.
“É uma loucura, é uma irresponsabilidade!”, exclamou, ao ver – pela televisão, é claro – os desabrigados que, desesperados, tentavam salvar seus poucos pertences em meio à lama. “Essas pessoas estão cometendo quase que um suicídio!”
É provável que o governador não tenha percebido antes a loucura e a irresponsabilidade que são a construção e a existência em “áreas irregulares” porque, quando as visita, vai à caça de votos, e aí, com aquela gente toda em volta, e mais galhardetes, cartazes, artistas e seguranças, não dá para ver nada direito. Além disso, em dias de sol, a loucura e a pulsão suicida evaporam junto com a água e os demais problemas. Agora então, que as casas nas favelas vão levar umas mãos de tinta, tudo vai ficar uma beleza”.