A eleição em marcha

Do sociólogo Marcos Coimbra, presidente da Voz Populi, para o ‘Correio Braziliense’:
“Aliviados de suas responsabilidades cotidianas, espera-se que Dilma e Serra possam se concentrar na formulação do que pretendem fazer na Presidência
Depois de uma longa jornada, que começou ainda em 2007, as próximas eleições presidenciais entram em uma nova fase. De hoje ao fim da semana, Serra e Dilma, os principais contendores, deixam seus cargos. Daí em diante, nos seis meses que nos separam do pleito, a disputa entre eles fica diferente.
Com Serra agora no papel de candidato e Dilma fora do Planalto, acabam-se os embates prévios. Até 3 de outubro, ambos estarão em condições parecidas, dedicando-se, em tempo integral, às suas campanhas. Nenhum dos dois pode dizer que tem outros compromissos.
Na longuíssima pré-campanha que vivemos, tivemos algumas coisas demais e outras de menos. Sobraram, por exemplo, pesquisas, enquanto faltaram ideias. Tanto o governador quanto a ministra se esmeraram em inaugurações e palanques festivos. Quase nada se ouviu a respeito de propostas para o Brasil.
A avalanche de cerimônias de entrega de obras a que assistimos sugere como tende a ser a disputa: uma briga de imagens na televisão. De um lado, sobre aquilo que o governo Lula fez e que dá corpo à proposta básica da candidatura de Dilma, de continuar o que está em curso. De outro, do que Serra fez em São Paulo, das obras e iniciativas que o qualificam como administrador e que mostram que é um governante de grandes feitos e preocupação social.
Se ficar nesse campo, a eleição será regida pelo verbo fazer, tornando-se uma briga em torno das realizações (e omissões) de um contra as do outro. Como nos embates que alguns vetustos personagens da cena política brasileira travaram nos últimos anos, nos confrontos entre tratores, quem faz mais?.
Por mais importantes que sejam as obras, seria uma pena se o debate sucessório se restringisse a essas comparações. No fundo, salvo uma ou outra diferença de ênfase, há muita concordância sobre o que o país precisa e o que deve ser feito na infraestrutura, na energia, no saneamento e na habitação, assim como no que toca as grandes necessidades que temos em áreas como saúde publica, educação e segurança.
Em outras palavras, os dois PACs do governo Lula (mudando o nome) seriam parecidos com o que o PSDB faria se estivesse no poder. Como não são grandes as discrepâncias entre o que se chamou de Brasil em Ação no governo Fernando Henrique e o que Lula fez no seu, considerando-se que um sucedeu ao outro e quanto as condições do Brasil mudaram de lá para cá.
Aliás, o Brasil em Ação e o PAC se assemelham até nos problemas, pois ambos enfrentaram as dificuldades que existem no país na transição entre as intenções e os resultados das políticas públicas. Cobrar do atual governo por ter feito menos que o prometido (ou por ter prometido demais) só seria justo se a cobrança fosse estendida à administração anterior.
É claro que ainda falta tempo até a eleição e que, aliviados de suas responsabilidades cotidianas, espera-se que Dilma e Serra possam se concentrar na formulação do que pretendem fazer na Presidência. Que o façam logo e que não creiam que basta mostrar suas ações na televisão para satisfazer a necessidade que os eleitores têm de saber o que propõem.
Estamos nas comemorações dos 25 anos da Nova República, celebrando um quarto de século de normalidade democrática. Apesar de vários percalços e do muito que deixou de ser feito, podemos nos orgulhar, como sociedade, de ter conseguido enfrentar três grandes desafios com razoável sucesso. A consolidação da democracia foi o primeiro, permitiu que os outros fossem alcançados e foi obra do conjunto das forças políticas do país. A normalização da economia veio a seguir e foi o maior legado do governo Fernando Henrique. Com Lula, enfrentamos o terceiro, a incorporação pacífica de uma imensa massa de desprivilegiados à cidadania e à economia.
As três agendas estão superadas e o país precisa de uma nova. Com a palavra, Serra e Dilma, assim como Marina e Ciro (que, mesmo se não emplacar a candidatura, pode contribuir em muito para o debate)”.