Coimbra: o piso de Serra

Do sociólogo Marcos Coimbra, presidente do Vox Populi, ontem no ‘Correio Braziliense’:
“A principal pergunta que a pesquisa do Ibope coloca é sobre o piso de Serra. Até onde ele cairá transferindo intenções de voto para a candidata de Lula? Qual é sua intenção de voto real, a que não decorre apenas de haver muitas pessoas que ainda não a conhecem?
Divulgada na quarta-feira, a mais recente pesquisa nacional do Ibope sobre a sucessão presidencial confirmou o que se sabia e o que se imaginava: a forte redução da diferença entre Serra e Dilma e um quadro de aparente estabilidade desde meados de janeiro. No cenário com Ciro Gomes, o governador fica com 35% e a ministra com 30%.
Com essa, são agora quatro pesquisas que apontam para o mesmo quadro, com variações insignificantes nos resultados. A primeira, feita entre 13 e 17 de janeiro pela Vox Populi, mostrava uma diferença de sete pontos percentuais. A segunda, feita pela Sensus entre 25 e 29 domesmo mês, falava em cinco pontos. O Datafolha, com campo nos últimos dias de fevereiro, era quase igual, com quatro pontos a mais para o tucano. Agora, na do Ibope, realizada entre 6 e 10 de março, cinco pontos.
O tamanho da redução varia em função da data de realização da pesquisa anterior de cada instituto. Assim, quem fez a pesquisa comparável mais cedo registra a maior mudança: segundo o Ibope, de 21 pontos de vantagem em novembro (quando Serra tinha 38% e Dilma 17%),passamos a cinco. Todos os outros levantamentos mostraram reduções parecidas, mas não idênticas.
Não seria, portanto, possível projetar tendências para o futuro combase apenas no que diz cada instituto. Erraria feio quem supusesse, por exemplo, que, se em três meses (dezembro, janeiro e fevereiro) Dilma subiu 13 pontos e Serra caiu oito, como diz o Ibope, então, nos próximos três, ela iria para 43% e ele para 27%. Nada, hoje, sugere que é isso que teremos em meados de junho, quando estivermos já no período das convenções partidárias.
O que as quatro pesquisas indicam é que houve uma mudança importante na virada do ano, entre meados de dezembro e de janeiro. O que a provocou é difícil dizer, pois é sempre complicado apontar causas singulares para fenômenos de opinião que afetam dezenas de milhões depessoas. Não devemos esquecer que cada ponto nas pesquisas equivale aperto de 1,35 milhão de eleitores. Ou seja, os 21 pontos percentuais de mudança, segundo o Ibope, poderiam ser lidos como indício de que mais de 28 milhões de pessoas mudaram de opinião sobre os candidatos no período.
Muito provavelmente, uma conjugação de fatores aconteceu, dos quais um dos mais relevantes foi a aparição de Dilma nos comerciais e no programa nacional do PT, secundada por sua presença também na mídia estadual de seu partido. Vale descartar que, enquanto ela aumentava sua visibilidade, Serra permanecia em seu canto.
A mudança fundamental foi no nível de conhecimento de Dilma, o que quer dizer de sua associação com Lula. Os dados do Datafolha já permitiam pensar em uma relação linear, pois, comparando seus levantamentos de dezembro e fevereiro, enquanto o conhecimento dela aumentava sete pontos, suas intenções de voto cresciam cinco pontos e as de Serra caiam cinco.
Agora, algo muito parecido é captado pelo Ibope, quando se comparam seus resultados de novembro e março. O conhecimento de Dilma foi de 32% para 44%, maior em 12 pontos. Puxadas por isso, suas intenções de voto aumentaram 13 pontos. A queda concomitante de Serra não foi tão intensa, mas chegou a oito pontos. Foi, portanto, mais uma pesquisa que reitera quão importante é acompanhar a evolução dessa variável para entender o que vem pela frente.
Mas, de janeiro para cá, entramos em uma fase de estabilidade. A rigor, são dois meses sem qualquer mudança perceptível. O que é bom para Serra, pois sua vantagem produz consequências políticas, inibindo,por exemplo, a ampliação da aliança que deverá lançar a ministra. Como seguro morreu de velho, tem muita gente nos partidos de porte médio esperando para ver o que vai acontecer.
Mas a pesquisa do Ibope, como as outras, é muito mais favorável a Dilma que a ele. Pensando nos próximos meses, a principal pergunta que ela coloca é sobre o piso de Serra. Até onde ele cairá transferindo intenções de voto para a candidata de Lula? Qual é sua intenção de voto real, a que não decorre apenas de haver muitas pessoas que ainda não a conhecem?”