Luiz Paulo Horta e a simplicidade do Papa

Jorge Antonio Barros*

“A verdade é que, no fundo, no fundo, a Igreja que Cristo fundou tem dois compromissos fundamentais, que andam juntos como as duas pernas de um bípede. Um deles é estar ao lado dos humildes. Foi assim que começou o cristianismo: dando ânimo e esperança às massas que, no Império Romano, pouco podiam almejar fora da condição de escravos. O outro é fazer a ponte entre o céu e a terra. Esta talvez seja, no fundo, a primeira missão de cada igreja, cristã ou não cristã.”
O texto é de Luiz Paulo Horta, acadêmico, jornalista e, o mais importante, eterno amigo da Turma da Coluna de Ancelmo Gois, que neste sábado partiu dessa para outra muito melhor. Convivíamos com Luiz Paulo diariamente, sobretudo antes das mudanças físicas na redação do GLOBO. O pessoal da coluna ficava num módulo colado ao dos editorialistas do jornal, onde Luiz Paulo batia ponto todo dia.
Peço licença ao chefe Ancelmo, que conheceu Luiz Paulo bem antes de mim, para deixar aqui no nosso blog meu testemunho pessoal do caráter e da inteligência que marcaram a trajetória deste grande jornalista, um exemplo para várias gerações. Além desses dois atributos considerados básicos para o exercício da profissão do jornalismo, Luiz Paulo cultivava outro cada vez mais desprezado pelos homens da alta cultura deste país — a espiritualidade.
A espiritualidade de Luiz Paulo, um especialista em assuntos religiosos que sempre afirmou sua fé cristã e católica, era facilmente percebida no dia-a-dia do jornalista. Apesar de ser dono de uma cultura erudita, era na simplicidade que estava a grande virtude de Luiz Paulo. O olhar tranquilo que expressava num simples cumprimento aos colegas de redação. O jeito manso próprio dos verdadeiros sábios. E o maior legado de Luiz paulo para mim foi, sem dúvida, a fé no cristianismo. A fé de Luiz Paulo era um grande estímulo para aqueles que pretendem exercer a profissão do jornalismo sem abrir mão de princípios e valores cristãos.
Luiz Paulo era condutor de uma simplicidade bem parecida com a do Papa Francisco. Tanto assim que me intrigava como um grande jornalista como ele, membro da Academia Brasileira de Letras, ia diariamente para a redação do jornal. Trabalhava todo dia, como qualquer mortal, sendo que já havia atingido um status profissional que não requeria mais tanta labuta. Luiz Paulo transmitia a todos os que conviviam com ele uma grande paixão pelo ofício do jornalismo, através do qual cumpria religiosamente seu sacerdócio.
Lamento apenas não ter conseguido aceitar o convite que Luiz Paulo vez por outra me fazia, de tomar um chá na Academia Brasileira de Letras. O encontro ocorre sempre na hora em que as coisas começam a ferver na redação. Que ele descanse em paz.
*Jorge Antonio Barros é repórter de ‘O Globo’.