Camarotti, de Helder a Francisco

Vitor Hugo Soares*

Ligo a televisão na tarde do dia seguinte à entrevista, cara a cara, do papa Francisco ao repórter Gerson Camarotti, de repercussão planetária. Registre-se, por justiça e mérito, que a façanha apresentada domingo no Fantástico é, desde já, digna das menções e prêmios mais relevantes do jornalismo brasileiro em 2013, a começar pelo Esso.
A cena inicial que vejo na telinha do canal privado Globo News é comovente: modestamente sentado no sofá do Estúdio I, programa diário comandado por Maria Beltrão (que não perco por nada), o autor do feito destinado a marcar época na imprensa do País, fala sobre os bastidores da entrevista com simplicidade e despojamento de vaidades mais que franciscanos. Incomum no meio, nestes dias de soberba e arrogância.
Sintonizo o canal no momento exato em que o jornalista fala de suas dificuldades para conseguir a conversa com Francisco. A começar pelos obstáculos criados dentro do próprio Vaticano, que desaconselhava exclusividade a um profissional brasileiro, mesmo sendo ele um jornalista da maior credibilidade e larga experiência junto as melhores fontes do clero católico no Brasil e fora do País.
Escuto o repórter dizer que ficou surpreendido diante da constatação de que o papa já havia lido trechos de seu livro. “Fiquei muito surpreso, porque eu cheguei com o livro com uma dedicatória muito carinhosa para ele. Eu o comparava a um arcebispo da minha cidade, Dom Hélder Câmara, já falecido, e aí ele falou: “nossa, mas eu já li vários trechos do livro’.
O repórter conta mais: Aí eu perguntei assim: ‘mas está bom, é isso mesmo?’, e ele falou assim: ‘Como é que você sabe tanta coisa?’, então não deixou de ser um cartão de visitas para o Santo Padre”, conclui Camarotti em relato depois reproduzido em O Globo.
Devo registrar, no entanto, que foi a comparação que o repórter fez de Francisco com Dom Helder Câmara o que (por experiência própria e profissional) mais impactou o jornalista que assina estas linhas de opinião.
São perfeitas e exatas (como se requer de um bom repórter) as palavras comparativas de Camarotti. Principalmente quando alguém que viveu (pessoal ou profissionalmente) os dois momentos separados por décadas, revê discurso e ação do destemido papa argentino destes tempos temerários, com as do corajoso e revolucionário religioso brasileiro em épocas tenebrosas.
Assim, a memória me transporta para uma manhã ensolarada nos anos 70. De férias no jornal onde trabalhava então, em Salvador, estava hospedado na casa de um casal de queridos amigos numa praia de Olinda. Saímos os três, no “fusquinha” do casal, para dar um passeio em Recife, com parada obrigatória no barzinho da “Livro Sete”, então a maior, melhor e mais interessante livraria do Nordeste.
Na passagem diante de uma as igrejas de Olinda, a cena surpreendente e inusitada para mim, mas bastante comum para os dois amigos pernambucanos:
De batina ( ele não abria mão da vestimenta tradicional), próximo a um poste da rede elétrica, vejo o “Dom”, como todos os chamavam em sua diocese. No jeito de quem espera alguém conhecido ou uma carona.
“Sozinho e Deus”, penso com as palavras da minha mãe, ainda sem acreditar: estava ali bem na minha frente o religioso brasileiro mais perseguido pela ditadura, sempre vigiado e cercado por temidos inimigos de então.
“Vamos dar uma carona ao Dom”, disse o amigo ao volante do fusca, acostumado a conduzir o bispo pela diocese outras vezes. Ao ver o conhecido, o religioso se aproxima da janela da frente do fusca .”Obrigado, meu filho, mas desta vez vou dispensar a sua carona.Estou aguardando outro conhecido que vai me levar, de carro, a uma reunião distante daqui do centro de Olinda.
Meu amigo insiste: “Mas Dom, a praça aqui está bem deserta, quase ninguém por perto, o senhor não teme por sua segurança?”. E a resposta serena sem tirar o sorriso do rosto: “Medo de que, de quem. Meus diocesanos, como você agora, me alertam, me protegem , me ajudam a todo momento. Que segurança maior posso querer?”
E a despedida mais surpreendente ainda: “Vá tranqüilo para o Recife, ninguém vai me matar ou fazer mal. Os inimigos da minha ação pastoral, da minha pregação, do meu jeito de ser padre, teriam mais problemas, ainda, se algo mais violento assim me acontecesse. Obrigado, mais uma vez pela generosa oferta da carona. Vou rezar por vocês”.
Quem mais parecido com o papa Francisco? Obrigado Gerson Camarotti, pelo feito histórico no jornalismo e pela maravilhosa lembrança do Dom.
*Vitor Hugo Soares é jornalista. Editor do site blog Bahia em Pauta.