Zé Dirceu e suas entrelinhas

Cida Torneros*

Políticos, os há, de toda sorte, ordem, origem, identificação ideológica, trajetória baseada em sorte ou oportunidade, perseverança, estilo próprio, carisma que vem de berço, ou crescente ao longo dos anos, com
simpatia respeitável ou questionável antipatia, arrogância detestada ou coragem admirada, liderança reconhecida, capacidade de engendrar estratégias e de conciliar acordos, narcisismo acalentado, poder de persuasão,
olhar futurista, sorriso largo ou contido, palavra amena ou arrebatadora, postura e presença constantes, arroubos defensivos e ataques desfechados para atiçar ou derrubar inimigos.
Um dos personagens em questão poderia ser qualquer bom profissional da política internacional ou nacional, com o nome citado nas primeiras páginas dos principais jornais que informam sobre a vida que circula nos
meandros do poder de nações ou povos ao redor do mundo e precisamente nos bastidores da performance eleitoral que o Brasil assume em regime de arregimentaçao de votos ou de simpatizantes que gerem votos para que se atinja objetivos plenos de vitórias em pleitos espalhados em cidades, estados, regiões, rincões longínquos, lugares onde a brasilidade sacode idéias e expectativas, sob a égide do embate de idéias, atitudes, propostas, números alcançados, índices atingidos, qualidade de vida ampliada ou melhorada ou ainda sonhada por centenas de milhares de criaturas cuja necessidade maior parece alicersar-se na confiança que depositara em alguém que os protegera muito mais do que os representara em postos ou cargos de comando.
Um tribunal superior, a chamada Alta Corte, acaba de condená-lo como “chefe de quadrilha”, com pompas teatralizadas e televisionadas, confundindo-se com período eleitoral e quase duas décadas de poder do PT,
partido que ele comandou e onde milita diuturnamente desde sua fundação.
Percebe-se que há desses políticos, em forma e conteúdo, sim, deles, existem aos milhares, pelo mundo, nas histórias contadas em livros biográficos ou romanceados, e nos relatos memoráveis dos bastidores, que um dia,
podem virar filmes de grande circuito, porque as histórias de políticos lendários como é o caso do Zé Dirceu, rendem sinopses atraentes ao mesmo tempo em que incitam a curiosidade dos públicos mais diversos e
atentos.
Um brasileiro cuja história pessoal se confunde com as últimas 5 décadas da vida nacional, tal a sua vocação de fênix a ressurgir dos rolos compressores em que se viu metido ao longo dos tempos, nas perseguições da
ditadura militar, na vida clandestina, na cassação, no ressurgimento à luz do comando do PT, por dezenas de anos, no papel fundamental que exerceu durante as campanhas que levaram o presidente Lula ao topo do
poder, e ainda, no efeito avassalador que a informação e a contra-informação exerceram no episódio apelidado de “mensalão”, que, a partir de 2005 espoucou como se fora um meteoro gigante a bombardear a vida republicana em pleno mandato do poder petista, prato cheio para a oposição aturdida. Agora, a condenação do STF e sua reação de bravo guerreiro a clamar que lutará para provar sua inocência.
O Zé  explode na  mídia nacional trazendo a sua figura para o primeiro plano novamente! Digno de ser observado à luz do seu tempo, da sua geração, dos modelos aos quais se viu atrelado, mas sobretudo, da capacidade de
se reinventar, como ele mesmo disse, quando tudo parece destruído por uma tempestade avassaladora, em efeito dominó de inquisição extemporânea, onde a subjetividade na interpretação da lei é facultada a um grupo seleto de senhores e senhoras que estudam o comportamento legal dos cidadãos e a eles é delegada a missão de julgar e apenar os que são réus em processos quilométricos, de zilhões de folhas, que talvez já não confundam nas barafundas das intenções, nem as almas penadas, aquelas que certamente vagam por corredores estreitos da justiça sonhada em tantas eras medievais ou antigas, modernas ou contemporâneas, justificando-se poderes e democracias com armas, guerras, bombas ou com palavras, milhares de palavras, ou ainda, com atos, atos institucionais ou institucionalizados.
Há um Zé em cada brasileiro ou brasileira que nasceu sob a égide do Gigante Adormecido que sonhava acordar para as liberdades sem arbitrariedades.  Talvez haja mais de um Zé, um mito que ultrapassou o criador, esta
criatura que venceu e perdeu, que lutou e luta, que argumenta e esbraveja, é referência de embates e como ele mesmo diz: a luta continua! O personagem é maior que o enredo, disso eu não tenho dúvida. Daí, que é preciso acompanhar detalhadamente tudo o que está nas entrelinhas da história do Zé Dirceu, para não se perder o foco das cenas de atores que fazem do Brasil um grande espetáculo em torno de seu despertar para uma fase pós colonizada. Ainda que doam as diferenças sociais, o país avança, apesar de tudo, no modelo ainda dominante da medição do PIB, mas é possível sustentabilizar o processo de desenvolvimento. É necessário repensar e
reformar a prática viciada da política brasileira, é factual que se formulem oportunidades para as novas gerações no sentido de melhores oportunidades de educação, cultura, saúde e meio ambiente. É bom lembrar que há uma Dilma que viabiliza e segura a peteca nacional com a batuta de uma dona de casa experiente, enquanto a nação se movimenta e brada por melhores dias, à custa de palavras, atos, leis, reformas, esperanças e até injustiças.
*Cida Torneros é jornalista.