Índices e urnas

Tereza Cruvinel*

Asemana terminou com a presidente Dilma Rousseff no píncaro da popularidade, segundo a pesquisa CNI-Ibope: 77% de aprovação pessoal e 59% de avaliação positiva para o governo, contrastantes com os números deprimidos da economia. No Congresso, os aliados reclamam de descaso e centralismo mas continuam votando MPs e tudo o mais que o governo manda. E assim será enquanto ela cavalgar esses índices. Se chegar com eles à virada de 2013 para 2014, dificilmente não disputará a reeleição, mas isso dependerá muito mais do vigor econômico que da eleição de prefeitos aliados.
Os números da economia são quase sombrios diante dos algarismos brilhantes da avaliação do governo. O aumento do investimento, este ano, será de apenas 1%, contra 4,7% em 2011. A previsão de crescimento do PIB foi rebaixada, de 3,5% para 2,5%, inferior portanto ao “pibinho” de 2011, de 2,7%. A agricultura encolherá 1,5% e a indústria crescerá apenas 0,5%. O consumo das famílias deve cair de 4% para 3,5%. Se o governo não controla a variável internacional, tenta reduzir a inibição dos agentes econômicos diante da crise. Começou a semana passada lançando mais um pacote de incentivos e terminou-a prorrogando a redução de IPI para a linha branca e os móveis.
A campanha eleitoral produzirá espumas flutuantes e até alguns alinhamentos importantes, mas é preciso relativizar suas consequências. Os partidos costumam aumentá-la porque isso os valoriza e traz facilidades. Já o bolso dos cidadãos afeta a avaliação dos governos e a governabilidade. No Congresso, aparentemente, existe uma oposição minguada e uma gorda base de apoio ao governo. O que existe, em todas as legislaturas, são três blocos. A oposição, obviamente minoritária. Uma outra minoria, disposta a matar e morrer pelo governo que lhe garante oxigênio. E uma vasta “terra do meio”, que se move para um lado e outro, segundo a perspectiva de poder do governante. Se ela é grande, assentada em forte apoio popular, sinônimo de voto, a “terra do meio” encosta na tropa governista. Se as coisas começam a dar errado, reflui para a oposição e o governo começa a amargar a falta de apoio.
Por isso Dilma, atenta ao riscado da economia política, está mais preocupada com o PIB que com as chapas e acordos para a eleição municipal.

Surto de gastança
O governo pega em armas para abortar uma manobra parlamentar que pode levá-lo até a desistir de votar a Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2013. A LDO fixa as diretrizes e os grandes números da peça orçamentária. Deputados governistas apresentaram uma emenda que é o sonho do Judiciário e do Legislativo e o pesadelo do Executivo. Ela fixa um percentual das receitas correntes para o gasto dos dois poderes com pessoal. Como a receita está sempre crescendo, os aumentos salariais ali estarão garantidos para sempre. A ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti, começa o dia de amanhã tentando convencer o relator, senador Antonio Carlos Valadares, a rejeitar a emenda. Se não conseguir, haverá o enfrentamento no voto. Se o governo perder, desistirá de aprovar a LDO, o que deixará o Congresso sem recesso quando todos estão loucos para bater asas. O tamanho do delírio: R$ 10 bilhões. Quase a metade do que se gasta com o Bolsa Família.

Esfriamento
O governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB) é mesmo uma estrela em alta, mas pode ter errado o passe ao romper com o PT em Recife. Ao ex-presidente Lula, disse na quinta-feira que as brigas do PT pernambucano é que lhe obrigaram a lançar candidato próprio, apoiado por outras siglas governistas. Mas que em 2014 estará firme no apoio à reeleição de Dilma. Lula disse compreender, mas teria advertido que, com esse movimento, Campos plantou a desconfiança na relação com o PT, de cujo apoio dependeria para ser candidato a presidente em 2018.

Mal a pior
Na campanha que começa, os tribunais têm contribuído para piorar o que já é ruim no sistema político-eleitoral. Por exemplo:
»  Ao permitir que o PSD contabilize os deputados que subtraiu de outros partidos para se credenciar ao tempo de TV e aos recursos do fundo partidário, o STF incentivou a infidelidade partidária, doença infecciosa de nosso sistema. Legitimou a burla à vontade do eleitor, que vota no candidato de um partido e esse, depois de eleito, entrega o mandato a outro.
»  Ao fixar normas financeiras para os partidos, o TSE complicou a futura prestação de contas. Cada diretório estadual terá que abrir uma conta bancária com o rótulo “eleições 2012″. Cada diretório municipal fará o mesmo. Cada candidato a prefeito e cada candidato a vereador também. Serão cerca de 400 mil contas, dificultando a fiscalização e facilitando a trapaça.

Ninguém aguenta
Se um dia, quem sabe, talvez, for aprovada uma reforma política, as eleições bianuais terão que ser revistas. O calendário atual duplica o gasto eleitoral e paralisa o Congresso e a administração pública a cada dois anos. Uma saída será reunir todas as eleições num único pleito. Outra, manter a bianualidade, mas elegendo juntos o governador, o deputado estadual, o prefeito e o vereador, e, depois, o presidente, o senador e o deputado federal. Essa é a receita dos que buscam saídas, sejam políticos ou acadêmicos.
*Tereza Cruvinel escreve para o ‘Correio Braziliense’.