Eleições sem emoções

                                                   Marcos Coimbra*


         Daqui a seis meses, vamos votar para prefeito e vereador. No domingo, 7 de outubro, temos — menos os eleitores do Distrito Federal — um encontro marcado com as urnas.
Pelo andar da carruagem, das 5.565 eleições que acontecerão, apenas uma será de interesse geral. Para os observadores da cena brasileira, somente essa desperta curiosidade.
É a eleição de prefeito de São Paulo, que tem tudo para ser emocionante. O que não quer dizer que possuirá significado real na sucessão de Dilma.
Ela adquiriu importância simbólica mais pelo comportamento das oposições do que pelas decisões tomadas por Lula e pelo PT. Se o PSDB e seus aliados tivessem deixado que a eleição seguisse seu curso natural, haveria consequências menores.
O enfrentamento entre Fernando Haddad e um candidato tucano novo — independentemente de quem fosse o vencedor das prévias partidárias — seria acompanhado com atenção na sociedade e no meio político. É improvável, contudo, que despertasse paixões.
Agora, as coisas ficaram diferentes.
O PSDB paulista deve saber o que faz, escalando um alquebrado Serra para medir forças com Lula e Dilma. Sua performance medíocre no embate interno não sugere a vigorosa candidatura que os amigos imaginavam.
Mas isso fez com que a eleição adquirisse um sim
bolismo que não tinha. Ela se tornou um capítulo — mais um — na velha peleja entre Lula e os tucanos paulistas.
Concretamente, qualquer que seja seu desfecho, o panorama nacional em pouco — ou nada — vai mudar. Na hipótese de Serra vencer, o PT e o governo pouco — ou nada — perderão de suas chances de permanecer por mais quatro anos no Planalto. O mesmo vale para a possível vitória de Fernando Haddad, que em pouco — ou nada — afeta a perspectiva de alternância no governo federal.
Das eleições modernas na capital, nenhuma sugere de maneira mais eloquente que a de 1996 quanto seu resultado pode ser irrelevante para o Brasil. A vitória do malufismo e de Celso Pitta não mudou uma vírgula do jogo político nacional (e, a rigor, sequer do estadual: revigorado pelo sucesso, Maluf voltou a se candidatar ao governo em 1998 e voltou a perder, dessa feita para Covas).
Assim como Fernando Henrique ganhou com Marta na prefeitura, Lula venceu com Serra lá instalado. O que apenas sublinha que são eleições diferentes, com pequeno efeito recíproco.
Excluindo São Paulo, as eleições para prefeito serão, como sempre, relevantes em cada cidade. A escolha de quem se encarregará, durante os quatro anos seguintes, das políticas municipais nunca é trivial para a população, especialmente a que mais depende dos serviços públicos.
Nas capitais, elas são significativas pelo papel que têm na formação de lideranças. Disputar a eleição de prefeito da capital sempre qualifica um político em ascensão. Sequer é indispensável vencê-las, como atestam os casos de Fernando Henrique e Aécio: ambos perderam eleições de prefeito e continuaram crescendo.
Mas tudo sugere que teremos eleições sem emoção nas principais cidade. No Rio e em Belo Horizonte, por exemplo, parece que serão resolvidas quase que por w.o. Em diversas, prefeitos no exercício do cargo ou ex-prefeitos são favoritos destacados.
O que não quer dizer que todas serão tranquilas, pois a briga será boa em algumas. Mas de pequeno impacto além dos limites municipais.
No fim das contas, fora São Paulo, com sua importância simbólica acrescida, todas as outras são parecidas: fundamentais na política local, significativas — às vezes — no jogo estadual e secundárias — para dizer muito — no nacional.
*Marcos Coimbra, sociólogo, preside o Instituto Vox Populi e escreve para o ‘Correio Braziliense’