Serra candidato

                                                                        Marcos Coimbra*

                O PSDB paulista poderia ter comemorado no último domingo um grande dia. Um dia de olhar para a frente e se renovar. Poderia.
Mas foi um domingo sem brilho, em que velhos personagens encenaram uma antiga história. Ao invés de rejuvenescer, a seção paulista do partido reenvelheceu. A vitória de Serra na prévia tucana foi a derrota da mudança — por mais que alguns tenham tentado fazer do limão uma limonada, apregoando que suas correntes saíram dela unificadas.
No terreno do realismo político, não haveria por que lamentar o ocorrido. Suas lideranças são adultas e sabem o que fazem — ou deveriam sabê-lo. Se é assim que querem ser, que o sejam.
Para quem olha o sistema político brasileiro de fora, no entanto, o episódio é de lamentar. Ele ilustra a imensa dificuldade que nossos partidos têm de passar de instituições fechadas a abertas. De evoluir de organizações de quadros para organizações de massa, na consagrada terminologia de Maurice Duverger.
Chegou a parecer que o PSDB paulista teria a coragem de fazer a transição. Até o início do ano, tudo indicava que era para valer o desejo de reinventar-se.
Quatro pretendentes ofereceram o nome e entraram em campo. Arregaçaram as mangas e foram fazer campanha, percorrendo bairros e comparecendo a debates com apoiadores e militantes, alguns de intensa participação.
Pela primeira vez, o PSDB estava a caminho de prévias partidárias em uma eleição grande, de importância nacional. Não que nunca tivesse realizado alguma, mas não de tal significado.
O que acontecia era a realização de algo que, até então, os tucanos apenas imaginavam. Quando, por exemplo, em 2009, Aécio sugeriu que o partido escolhesse o candidato a presidente por meio de prévias, todos sabiam que a proposta era inexequível — ele incluído. O PSDB não tinha condições operacionais de realizá-las em âmbito nacional, pela simples razão de que não dispunha de instrumentos para fazê-las nos estados e em quase nenhum município.
Se tivesse avançado, o processo paulista deste ano seria um marco na história do partido. Depois dele, seria difícil evitar que surgissem pré-candidatos “independentes” — isto é, não ungidos pelos líderes — e que as bases partidárias — mesmo que não sejam lá tão grandes — quisessem ser ouvidas na escolha de candidatos a qualquer cargo.
Mas, movidos, pela enésima vez, pela sua peculiar maneira de ler as pesquisas de intenção de voto — em que o que importa é de quanto parte um candidato e não aonde pode chegar —, os próceres peessedebistas não admitiram que o processo fosse adiante. Na última hora, melaram o jogo e resolveram que o candidato seria Serra.
Bem que eles — a começar pelo próprio — preferiam cancelar as prévias, marcadas para dias depois do “lançamento” da candidatura. Mas seria traumático demais para aqueles que haviam acreditado nelas, que ficariam com cara de bobo. Foram apenas adiadas, dando tempo ao candidato para que reunisse apoio entre os filiados.
Domingo, Serra teve a vitória mais pífia de sua carreira: o comparecimento foi decepcionante e sua votação, surpreendentemente baixa. Ganhou de José Aníbal por pouco mais de mil votos.
Mais relevante, porém, é a marcha ré que levou ao resultado — e que o explica. Na hora em que as portas estavam abertas para que o PSDB deixasse de ser um típico partido de quadros, recuou.
Parece que os tucanos não aprendem a lição: o PT só é o que é por ser um partido. De verdade, e não uma agremiação de notáveis — que há tempo deixaram de ser fortes.
*Marcos Coimbra, sociólogo, preside o Instituto Vox Populi e escreve para o ‘Correio Braziliense’.