Quem fala demais…

                                                     Marcos Coimbra*
          O ex-governador José Serra é um homem de declarações polêmicas. Não era. Mas tornou-se.
Sua marca mais notável sempre foi a discrição. Fazia questão de estar sério, a ponto de muitos o considerarem excessivamente fechado. Para dizer o mínimo.
Essa sisudez ajudava a preservar a imagem de alguém de tal maneira voltado para as obrigações que não lhe sobrava tempo para amabilidades. Um obcecado pelo trabalho. Uma máquina competente, que varava madrugadas debruçado sobre estudos e relatórios, impaciente com tudo que o desviava deles.
Quem se apresentava assim não podia se deixar levar pela língua. Quanto menos cedesse aos apelos para se pronunciar, melhor. Evitava os riscos em que incorrem os que não conseguem calar-se.
Agora, não. Volta e meia, emite juízos inusitados. Fala coisas sem pensar.
É possível que esteja assim pelo desconforto de ter que fazer o que não queria. A candidatura a prefeito de São Paulo, além de desviá-lo da rota que havia traçado para seu futuro, revelou-se uma dor de cabeça.
Hoje, deve vencer as prévias partidárias a que, a contragosto, teve que se submeter. Mas a candidatura, lançada para aglutinar o PSDB da cidade, ficou longe de consegui-lo.
Um levantamento feito, semana passada, entre presidentes de diretórios zonais do partido, mostrou o tamanho da resistência a seu nome: 51 foram consultados — de um total de 58 — e apenas 20 disseram que votariam nele.
Seja causado por esses novos ou por antigos dissabores, o fato é que tem dito coisas que, nos bons tempos, não se ouviam dele.
Como a respeito do compromisso de não deixar a prefeitura, assumido de livre e espontânea vontade durante a campanha de 2004. Ao longo dela, em diversas oportunidades, assegurou que não sairia — chegando a afirmar que só não completaria o mandato se “Deus me tirar a vida”. Até assinou um “papelzinho” com esse teor.
Agora, diz que o compromisso era não disputar a Presidência em 2006, e que o teria honrado. Ou seja, largar a prefeitura para concorrer ao governo do estado não representaria quebra de palavra.
Seria bonito se fosse verdade, mas ele se esquece que, no mundo de hoje, é fácil ter acesso às imagens da época. Nelas, aparece garantindo que não sairia em nenhuma hipótese.
Não é inteligente evitar ser considerado pouco verdadeiro com outra inverdade. Não parece coisa de Serra.
E o que pensar de sua declaração de que “em matéria de parceria, o parceiro fundamental da prefeitura é o estado e não a União”, que contraria tudo que sabemos sobre a concentração de recursos e poderes na esfera federal?
À primeira vista, parece um modo habilidoso de sugerir que a ligação de Fernando Haddad com Dilma é pouco importante para a cidade e que a dele com Alckmin é que é “fundamental”. Mas o que faz é jogar no colo dos governadores tucanos — que, ele incluído, se sucedem no Palácio dos Bandeirantes desde 1994 — a responsabilidade pelo que falta na capital.
Mas nenhuma de suas recentes declarações é tão sem sentido quanto a de que “o governador de São Paulo é um prefeitão”. O que será que imagina?
Que Alckmin é um prefeitão? Ou que Mário Covas e Franco Montoro foram prefeitões, para ficar com dois correligionários? Que ele mesmo foi, à frente do governo do mais rico estado brasileiro, apenas um prefeitão da capital? Que o papel nacional do governador de São Paulo é de prefeitão?
Falando coisas desse tipo, vê-se que Serra não atravessa mesmo uma boa fase.
Vamos aguardar seus pronunciamentos, agora como candidato oficial ao posto que não desejava. Promete.
*Marcos Coimbra, sociólogo, preside o Instituto Vox Populi e escreve para o ‘Correio Braziliense’.