• Segunda-feira, 30 Janeiro 2012 / 9:47

Dilma defende Estado palestino

    Do repórter Biaggio Talento, de ‘O Globo’:
   “Em discurso na solenidade do Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, realizada ontem pela comunidade israelita, em Salvador, a presidente Dilma Rousseff destacou que o massacre do povo judeu, classificado como “nódoa da história”, deve ser lembrado sempre e defendeu a criação de um estado Palestino:
— O Holocausto, que alguns negam, servirá sempre de paradigma contra a intolerância e contra essa violência bestial. Não podemos apagar da nossa memória atos repulsivos, nem podemos achar que eles são privilégio de algum povo. Infelizmente, nós vemos que, na humanidade, há várias manifestações nesse sentido. Mas, as sociedades democráticas têm o poder de deixar se colocar à nu essas tentativas (de negar o Holocausto). Por isso fazemos essa cerimônia para lembrar sempre.
Dilma fez questão de manifestar a posição do governo brasileiro de considerar “imprescindível”, para a paz no Oriente Médio, “a criação também do estado Palestino Democrático e não segregador”. E defendeu a solução diplomática ao invés dos conflitos armados:
— Acreditamos que a melhor solução é a construção de um ambiente de negociação e discussão.
Recentemente, o porta-voz pessoal do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, Ali Akbar Javanfekr, fez duras críticas à nova diplomacia brasileira em relação ao Irã. Chegou a declarar que “a presidente golpeou tudo o que (o ex-presidente) Lula havia feito. Destruiu anos de bom relacionamento”.
Pouco antes de Dilma falar, na mesma cerimônia, o presidente da Confederação Israelita do Brasil (Conib), Claudio Lottenberg, havia se referido à postura do Irã de negar o Holocausto e pregar a destruição do Estado de Israel
- Lamento a posição de que líderes que pregam a extinção de Israel. A paz e a harmonia não estão ao lado do horizonte do presidente iraniano.
A presidente acendeu uma das seis velas na cerimônia. Cada uma simboliza um milhão de judeus mortos”.

  • Domingo, 29 Janeiro 2012 / 7:55

Yoani Sánchez não ajuda Cuba

                                                             Julia Sweig*

       Uma confissão: a viagem da presidente Dilma a Cuba me faz sentir “inveja de política externa”. Como historiadora e analista política que vem viajando à ilha e escrevendo sobre ela há 25 anos, já teci fantasias sobre ter a oportunidade de assistir a meu próprio presidente fazer uma viagem dessas.
Mas, nos EUA, a ideia de que eleitores e financiadores de campanhas cubano-americanos puniriam um presidente que fosse longe demais nos leva a ignorar as transformações monumentais, embora lentamente implementadas, advindas sob Raúl. Perda nossa, ganho do Brasil.
Quando primeiro decidi escrever uma coluna sobre a viagem de Dilma a Cuba, imaginei que eu falaria sobre o teor das reformas econômicas, sociais e políticas -empresas privadas, acúmulo de capital e produtividade agora são coisas patrióticas, e não contrarrevolucionárias- abrangidas no eufemismo governamental sobre “atualização do socialismo cubano”.
Mas, quando uma jornalista de uma séria agência de notícias internacional me telefonou para falar sobre a visita, ela me surpreendeu ao apresentá-la, como a imprensa brasileira vem fazendo, como um teste da política de direitos humanos de Dilma.
Após um ano na Presidência, Dilma vem lentamente, e com alguns desvios incômodos, assinalando a intenção de fazer dos direitos humanos uma parte de sua agenda nacional e internacional.
Em Cuba, porém, não são o blog de Yoani Sánchez nem a comparação autoelogiosa e historicamente falsa que ela traçou com Dilma na juventude que merecem atenção ou são medidas de avanço dos direitos humanos.
Os tuítes dela não se comparam às críticas aguçadas e profundamente focadas ao governo que podem ser encontradas, por exemplo, em nada menos que o site da Arquidiocese de Havana, www.espaciolaical.org.
Ali, uma gama inusitada e ideologicamente diversificada de vozes critica o governo, a burocracia e o Partido Comunista por sua opressão desumanizadora dos cidadãos cubanos. As críticas não medem palavras, mas sua intenção é serem construtivas, e não histriônicas -escritas no espírito de uma oposição leal, nacionalista.
A Igreja Católica não é a única outra voz ativa no país, mas sua voz, e a de numerosos outros acadêmicos, figuras culturais e jornalistas, torna obrigatório perguntar “o que significa a dissidência na Cuba de Raúl? E qual seria a melhor maneira de potências externas apoiarem o movimento em Cuba em direção a uma sociedade e economia abertas?”.
O “diálogo político” que o ministro Patriota e a presidente Dilma pretendem realizar com Cuba, além da geração de empregos (o porto de Mariel) e os primeiros passos em direção ao aumento do comércio e dos investimentos, tem muito mais chances de reforçar transformações positivas do que se poderia conseguir brincando de favorito com este ou aquele “dissidente”.
Nos EUA já tivemos mais de um século de experiência tentando e não conseguindo identificar vencedores na política interna cubana.
Se não posso ter meu presidente em Havana, permita-me a liberdade de oferecer uma sugestão não solicitada a Dilma: falar com Raúl sobre opções para a imprensa brasileira abrir sucursais em Havana em tempo para a viagem do papa Bento 16, em março.
A cobertura das transformações na ilha e das vozes que fazem parte dela só poderá ajudar a vocês e seu público, no momento em que o Brasil se abre para Cuba e Cuba se abre para o Brasil. E talvez também ajudar Washington a ver Cuba além de sua política doméstica.
*Julia Sweig é diretora do programa de América Latina e do Programa Brasil do Council on Foreign Relations, autora de “Inside the Cuban Revolution” e “Cuba: What Everyone Needs to Know”, e escreveu para a ‘Folha’.

  • Domingo, 29 Janeiro 2012 / 7:51

São Paulo, cidade desigual

                                            Oded Grajew*

      Em 26 distritos da cidade de São Paulo, não há nenhum leito hospitalar; o Itaim Bibi tem mais de 2.000 vezes mais empregos do que Marsilac
Um estudo da Rede Nossa São Paulo divulgado recentemente apresenta o quadro da desigualdade em São Paulo. Os dados da cidade mais rica do Brasil são vergonhosos.
São Paulo é dividida em 31 subprefeituras e em 96 distritos. A população média de cada subprefeitura supera os 350 mil habitantes. Em cada distrito, há mais de 110 mil habitantes (eles são maiores do que 95% das cidades brasileiras).
Verificamos em vários distritos a ausência de equipamentos públicos. Alguns exemplos: em 44 distritos não há nem sequer uma biblioteca municipal, 56 distritos não mantém nenhum equipamento esportivo público e 59 não têm nenhum centro cultural.
Isso sem mencionar os 1,3 milhões de paulistanos que vivem em favelas e os milhões que, em função da sua baixa renda, têm enorme dificuldade de ter acesso à cultura, ao esporte e à moradia digna.
Em 26 distritos, não há nenhum leito hospitalar. Segundo pesquisa Irbem/Ibope, o tempo médio de marcação de consultas nos serviços de saúde públicos é de 52 dias. Entre a marcação e a realização de exames, gasta-se 65 dias. Entre a marcação e a realização de procedimentos mais complexos, como cirurgias, são necessários 146 dias.
Muita gente pobre, que depende do sistema público de saúde, certamente morre no meio do caminho.
As desigualdades são enormes. No item emprego, por exemplo, a diferença entre o melhor distrito (Itaim Bibi) e pior (Marsilac) é de 2218,6 vezes -cerca de 300 mil empregos no primeiro distrito, apenas 136 no segundo. Para ter acesso ao trabalho, quem ganha até um salário mínimo fica, em média, duas horas ao dia no transporte público.
Milhões de paulistanos precisam percorrer enormes distâncias para ter acesso ao trabalho, à saúde, à cultura e ao esportes, entupindo as vias de circulação. Assim, no item mortes no trânsito, a diferença entre o melhor (Barra Funda) e o pior distrito (Marsilac) é de 32,2 vezes.
No item mortalidade infantil, a diferença é de 13 vezes (Cambuci e Jaguara); em gravidez na adolescência, de 24 vezes (Moema e Marsilac); e em homicídios, de 28,5 vezes (Barra Funda e Pinheiros são os melhores, o Brás é o pior).
A diferença entre a melhor (Capela do Socorro) e pior subprefeitura (Itaim Paulista) no item área verde por habitante é de 176,3 vezes. Na porcentagem de domicílios sem ligação com o esgoto, a diferença é de 44 vezes (Sé e Cidade Ademar).
Por que aquilo que se atingiu nos melhores distritos não pode ser atingido em todos?
Mais de 174 mil crianças, basicamente de famílias pobres, estão sem creche. No item analfabetismo, a diferença entre a melhor e pior subprefeitura é de 2,4 vezes. O abandono e a distorção entre a idade e a série são, respectivamente, 52 e 42 vezes menores no ensino privado do que no ensino público.
Educação de qualidade, fundamental para o acesso à cidadania e ao trabalho mais bem remunerado, é, portanto, privilégio da população de maior renda.
Não é por acaso que todas as grandes lideranças religiosas, sociais e humanas sempre lutaram pela justiça social.
Do ponto de vista ético, moral, social e econômico, não há nada mais insustentável, danoso, antiético, vergonhoso e degradante em uma sociedade do que a desigualdade. Ela está na origem de todos os problemas que afetam a qualidade de vida da população.
O quadro da desigualdade completo, com 91 indicadores, está disponível no site www.nossasaopaulo.org.br. Queremos que ele seja útil aos cidadãos na cobrança dos seus direitos e que ele sensibilize os candidatos nas eleições de 2012.
É necessário que eles elejam a justiça social como a prioridade dos seus programas (mesmo sabendo que as pessoas de menor renda não financiam campanhas eleitorais).
Do próximo prefeito, esperamos que o plano de metas que, por força de lei, ele deve apresentar 90 dias após a posse, tenha como eixo principal a redução das desigualdades.
*Oded Grajew é empresário, coordenador-geral da secretaria executiva da Rede Nossa São Paulo e presidente emérito do Instituto Ethos. É idealizador do Fórum Social Mundial e integrante do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES). Escreveu para a ‘Folha’.

  • Domingo, 29 Janeiro 2012 / 7:49

O homem dos Bric está otimista

                                                        Elio Gaspari*

          Para quem não aguenta mais as notícias ruins da economia mundial, apareceu uma voz otimista. É a de Jim O’Neill, o economista da casa bancária Goldman Sachs que, em 2001, cunhou o acrônimo Bric. Ele chamava atenção para a emergência das economias de Brasil, Rússia, Índia e China.
Hoje, acredita que o mundo vive “os primeiros anos de algo que provavelmente será o maior deslocamento de riqueza e das desigualdades de renda da história”. O motor do progresso serão os Bric, mais o grupo dos “Próximos 11″, os “N-11″.
Seu principal argumento é o de que no ano passado a economia mundial crescia a 4% ao ano, contra 3,7% dos 30 anteriores. Numa ponta desse progresso estão os novos ricos. A BMW tem fila de espera na Alemanha porque a fábrica está atendendo pedidos chineses. Na outra ponta, estão centenas de milhões de pessoas que saem da pobreza. Ele estima que em 2025 o Brasil terá mais carros que a Alemanha e o Japão juntos.
Num novo indicador, que reúne variáveis macro e microeconômicas, tais como telefones, internet, computadores, respeito aos contratos, corrupção, estabilidade política, expectativa de vida e educação, em 2010, o Brasil ultrapassou a China e tomou-lhe o primeiro lugar.
O’Neill juntou suas previsões no livro “Growth Map” (“O Mapa do Crescimento – Oportunidades Econômicas nos Brics e Além Deles”, com o e-book a US$ 14,99). Veterano da Goldman Sachs, estava lá em 2002, quando produziu-se na casa o “Lulômetro”, um indicador terrorista que permitia estimar o preço do dólar se Nosso Guia fosse eleito. Passou o tempo e, depois de destacar que o Brasil saiu do atoleiro graças às reformas de Fernando Henrique Cardoso, ele coloca Lula como “o maior político do G20 na primeira década do século”.
O’Neill conta que em 2003, quando esteve em Pindorama, ouviu o seguinte de seu anfitrião: “Você só incluiu o Brasil porque tornava o acrônimo atraente”. Não foi bem assim, uma testemunha do diálogo relembra: “Não sei se foi ele quem disse isso ou se, tendo ouvido o comentário, concordou”. À época, O’Neill teria ficado em dúvida entre o Brasil e o México, mas MRIC soaria como um grunhido. Ele reconhece que o “B” foi “a maior e a mais audaciosa aposta que fiz” e revela ter sido influenciado pela qualidade do futebol brasileiro. (Em 2002, numa brincadeira de futurologia esportiva, O’Neill estimou que o Brasil não chegaria à final da Copa da Ásia.)
*Elio Gaspari é jornalista e escreve para a ‘Folha’ e ‘O Globo’.

  • Domingo, 29 Janeiro 2012 / 7:45

A última bronca de Haddad

    Dos repórteres Vera Rosa e João Domingos, do ‘Estadão’:
    “Seu” Fernando levou bronca até no último dia de trabalho. Na segunda-feira, véspera de desocupar o gabinete em que deu expediente por quase sete anos, ele ficou sabendo que a chefe tinha um ressentimento guardado na geladeira. “Não pense que eu esqueci que o senhor ia direto falar com Lula, viu seu Fernando?”, disse a presidente Dilma Rousseff ao pré-candidato do PT à Prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad.
“O senhor ia lá, convencia o Lula e aí criava aquele problema pra gente.” O puxão de orelha que deixou “seu” Fernando vermelho ocorreu na primeira reunião ministerial do ano, quando Dilma lembrou dos tempos em que foi ministra da Casa Civil, de 2005 a 2010, no governo de Luiz Inácio Lula da Silva.
A recordação, por Dilma, das peripécias de “seu Fernando” com o amigo Lula foi a senha para indicar que, a partir de agora, a chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, será uma espécie de clone do que ela era ontem. “Quando a Gleisi ligar para vocês, sou eu que estou ligando. Não adianta vocês tentarem mandar algum projeto direto para mim, sem crivo técnico, porque vou devolver”, avisou.
Quatro dias antes, na reunião setorial dos ministérios da Saúde e da Educação, Dilma disse que “dona Miriam”precisava entender que o grupo executivo do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) não é só de um ministério e também tem integrantes da Casa Civil e da Fazenda. O recado era para Miriam Belchior, ministra do Planejamento, que vira e mexe é chamada às falas por causa da lentidão do PAC.
O estilo de Dilma assusta quem não está acostumado a frequentar o Palácio do Planalto, mas às vezes surpreende até os próprios ministros. “Seu” Guido, o titular da Fazenda que vira “Guidinho” conforme a circunstância, nunca sabe medir o humor presidencial. Para se precaver, envia todo dia para Dilma, por e-mail criptografado, dois boletins com informações sobre o cenário econômico no Brasil e no mundo.
“Não quero mais projetos municipais. Não somos uma prefeitura”, esbravejou Dilma, na reunião ministerial do dia 23, quando anunciou o sistema de monitoramento dos programas do governo em tempo real.
No terceiro andar do Planalto, a antessala da presidente é, geralmente, marcada pela tensão. Para ser recebido por Dilma, não basta que o interlocutor apresente o tema. Por ordem da chefe, a assessoria procura limitar ao máximo o número de pessoas que entram no gabinete e o tempo da conversa.
O secretário do Tesouro, Arno Augustin, quase sempre está lá quando o assunto envolve concessões de serviços públicos. Gaúcho, especialista em licitações e velho conhecido de Dilma, Arno é o encarregado de chutar a canela não apenas dos “de casa” como também das visitas, para testar a consistência do plano apresentado.
É nessa altura que começa a fase do “espancamento” do projeto, como definiu Aloizio Mercadante, o novo ministro da Educação. Dilma quer saber todos os detalhes “até a nona casa decimal”, o que, invariavelmente, acaba atrasando o anúncio de qualquer programa.
“Você é muito conservador” ou “Se não sabe responder isso, deveria deixar de ser ministro” são expressões usadas com frequência pela presidente. Ela faz críticas duras e fala tudo “na lata”, sem rodeios.
Para conferir dados e cobrar explicações, Dilma tem mania de pedir ligações urgentes para ministérios, durante as reuniões. “A presidente acha que quem entende do assunto tratado naquela hora nunca está na frente dela”, diz um auxiliar, em tom de ironia.
Atônitas com as cobranças diárias por rapidez, as secretárias discam várias vezes e os “procurados” recebem inúmeras chamadas da Presidência ao mesmo tempo.
No dia 30 de novembro, após uma conversa de uma hora e meia com o governador de Sergipe, Marcelo Déda, Dilma pôs por terra a fama de durona. “Gosto de conversar com você, o governador mais bonito do Brasil”, elogiou ela. Logo em seguida, porém, lembrou-se do governador da Bahia, também petista, e consertou: “Que o Jaques Wagner não me escute! Ele vai brigar comigo se souber que eu acho você mais bonito!” Foi um raro momento de descontração.
O clima nas cercanias do gabinete presidencial costuma ser frio e formal. A presidente se irrita com promessas não cumpridas, projetos que não param em pé, pressão de aliados políticos por cargos no governo e “vazamentos” de notícias. Erros de português e números trocados também a tiram do sério.
“Vocês já viram uma coisa ser lançada sem que a gente possa discutir a coisa?”, retruca Dilma, quando repórteres perguntam se o seu estilo não acaba congestionando a administração. Sem esperar a resposta, ela devolve: “Eu nunca vi”.

  • Domingo, 29 Janeiro 2012 / 7:41

Pepe diz que Mercosul estancou

     O presidente uruguaio, José “Pepe” Mujica, concedeu essa semana uma entrevista a repórter Isabel Fleck, da ‘Folha, a quem disse que “o Mercosul “estancou”, parou de crescer porque outros países não reconhecem como um bom negócio entrar no bloco. Se ninguém bate à porta para entrar, é o melhor sinal de que estamos estancados”.
Para ele, “é importante que o Uruguai acompanhe o crescimento da grande potência emergente que é o Brasil, sendo “complementar” ao país. Mas também aproveitando o alto poder aquisitivo de uma estrita parcela dos consumidores brasileiros”.
Eis a entrevista:
- Em entrevista recente, o sr. disse que o Uruguai tinha que “pegar carona” com o Brasil. Como isso se daria?
- O Brasil é uma grande potência emergente e nós temos que procurar, em todo o possível, sermos complementares e úteis nesse crescimento do Brasil. Temos que acomodar nossa infraestrutura, comunicação, energia e indústrias para que sejam complementares. Temos que nos apoiar na diversificação mundial, nos distintos cenários que o Brasil tem. “Pegar carona” não é andar de graça, mas, sim, ser útil.
- O comércio entre os dois países foi de US$ 4 bilhões em 2011. Mas apenas as exportações brasileiras cresceram desde 2010. Como o Uruguai pretende aumentar as suas exportações?
- Tem que ter um trabalho deliberado, porque não se fará de forma espontânea. Se deixamos a economia levar-se sozinha, só vamos oferecer matéria-prima para o Brasil.  O Uruguai produz laticínios muito bons, por exemplo. O Brasil está melhorando a sua produção. Então o Uruguai tem que produzir laticínios de qualidade ainda melhor para o mercado caro do Brasil.
- Como o sr. avalia o desempenho do Mercosul, como bloco?
- O Mercosul, em questão de intercâmbio, está muito bem. Apesar das dificuldades, cresceu, mas não tem garantia institucional. Funciona meio que movido a telefonemas, à gestão das chancelarias quando se tem uma dificuldade aqui ou lá.  Deste ponto de vista, não tem a fluidez de uma relação natural. Não cresce porque, para crescer, tinha que ser muito tangível a visão lá fora de que é um bom negócio entrar no Mercosul. Se ninguém bate à porta para entrar [no bloco], esse é o melhor sinal de que estamos estancados.
- O Uruguai está julgando crimes da ditadura e acabou com a anistia para os crimes contra a humanidade. Esse pode ser um exemplo para o Brasil?
- Eu não me aventuro tanto, porque o Brasil é um continente, e não é igual [ao Uruguai]. Nós não tivemos outra alternativa a não ser rever esse processo, que foi muito duro para a história do Uruguai.  Mas não ache que é simples ou fácil. Enquanto um quer julgar qual é o princípio e o fim, outro quer superar o que passou. Todavia, é uma medida muita forte. Há certas memórias que perduram no tempo. E o pior é correr o risco de formar uma nova geração com as paixões e as inclinações da velha geração.
- O sr. defende que repressores da ditadura com mais de 70 anos sejam libertados. Esta posição não é contraditória com a decisão de julgar e punir os crimes do período?
- Essa é uma posição filosófica, não sobre a ditadura. Não sou partidário de ter gente de 80, 90 anos presa. Acho que, humanamente, não é correto. Quando ficamos mais velhos, estamos cada vez mais perto da morte, e, durante esse fenômeno natural, é melhor que se esteja ao lado da família. Prefiro a prisão domiciliar, se assim quiserem. Mas esta é a minha visão, não a da sociedade uruguaia. É como o aborto, é um problema de consciência.
- E qual a sua posição sobre a legalização do aborto, já aprovada pela Câmara?
- Sou partidário de legalizá-lo. Acho que temos de apoiar a mulher nesse momento, e, com esse apoio, em muitos casos se salva uma vida, porque a mulher retrocede. Mas, se deixamos que seja um ato clandestino, elas continuam fazendo aborto e ninguém as apoia.
- O sr. veio ao Brasil apenas para visitar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de quem nunca escondeu a admiração. O sr. segue seu exemplo para governar?
- O governo Lula sempre foi um modelo, ajudou a tirar muita gente da miséria. Porém, entre a esquerda e a direita, não pode haver muita conciliação, em um sentido duradouro.É como uma permanente disputa, mas essa disputa não deve se transformar em uma confrontação que fossiliza a sociedade. Essa é a principal experiência que nos deixou o governo Lula.

  • Domingo, 29 Janeiro 2012 / 7:36

Tucanos não sabem o que é PSDB

     Dos repórteres Daniel Bramatti e Julia Dualibi, do ‘Estadão’:
     “Entre os filiados tucanos aptos a votar nas prévias que definirão o candidato do PSDB à Prefeitura de São Paulo há pessoas que sequer conhecem o partido e que dizem ter passado seus dados eleitorais a entidades das quais recebiam leite distribuído pelo governo estadual, administrado pela legenda. Até simpatizantes do PT estão na lista oficial tucana.
Ao entrar em contato com 40 integrantes da “base” do PSDB nas regiões leste e sul, áreas de baixa renda onde há concentração de “tucanos”, o Estado encontrou moradores que ignoravam a condição de filiados.
Cinco mulheres da zona eleitoral Vila Jacuí apontaram entidades associadas ao programa Vivaleite, da Secretaria de Desenvolvimento Social do governo estadual, como possível explicação para seu vínculo com o partido.
Foram citadas a Associação para Qualificação Profissional e Social dos Moradores do Jardim Pedro Nunes (Aqualiprof), dirigida por Wellington Machado, presidente do diretório do PSDB da Vila Jacuí, e a Assocam, presidida por Idevanir Arcanjo de Souza, também filiado ao partido.
A Vila Jacuí – zona eleitoral com maior concentração de tucanos “de carteirinha”, conforme mapeamento publicado pelo Estado na semana passada – é região de grande influência do vereador Adolfo Quintas (PSDB).
No final de 2009, o parlamentar participou de um evento de Natal com Idevanir na região onde foram feitas as filiações. Também há mensagem de Wellington Machado elogiando-o em site ligado ao partido. Nas prévias, Idevanir diz que irá apoiar o deputado Ricardo Tripoli. Machado declarou apoio ao secretário Bruno Covas (Meio Ambiente).
Mais de 20 mil pessoas poderão votar nas prévias, marcadas para março. Líderes tucanos temem que a filiação de pessoas sem vínculos com o partido favoreça determinado candidato – estão também na disputa os secretários Andrea Matarazzo (Cultura) e José Aníbal (Energia).
“Não sabia que estava filiada”, disse Ana Luiza Miranda Berlink .”Mandaram um cartãozinho com uns folhetos. Como eu faço muito cadastro de casa própria, pensei que fosse isso. E meus filhos recebiam leite daquele programa. Pode ter sido alguma dessas vezes”, declarou.
Outros dez eleitores se surpreenderam ao ser apontados como filiados. “Às vezes a gente preenche uma ficha e nem sabe o que é”, disse Sandra Regina Militão da Silva, que vota no Itaim Paulista, no extremo leste.
Para o cientista político Celso Roma, a ausência de vínculo do PSDB com parte de seus próprios filiados está relacionada à origem da legenda. “É um partido de quadros, que concentra as decisões na cúpula e relega ao segundo plano a participação das bases”, afirmou.
Alguns entrevistados atribuíram a terceiros a iniciativa de conectá-los ao PSDB. “Um amigo me filiou sem que eu soubesse”, contou Emerson Saturnino.
Há relatos de filiações feitas por telefone ou internet, sem a assinatura do eleitor. Adélio Lopércio Barbosa disse que tentou se filiar ao PSDB em 2011, pela internet, mas desistiu ao saber que precisaria ir ao diretório para assinar uma ficha. Ficou surpreso ao saber que poderá votar nas prévias. “Não assinei nada, não sabia que tinham aceitado.”
Daniela Lessa dos Santos, professora, conta ter se filiado por telefone: “Trabalho numa creche e um dos chefes vai se candidatar. Ligaram e perguntaram se queria”. “Não assinei nada”, diz.
O Estatuto do PSDB afirma que a filiação pode ser feita através de fichas ou “outros meios”. O presidente municipal do partido, Julio Semeghini, disse que, nos últimos anos, apenas fichas de adesão assinadas têm sido aceitas pela legenda. A Justiça Eleitoral declarou que cabe ao partido controlar as filiações”.

  • Sexta-feira, 27 Janeiro 2012 / 17:15

Cabral demorou 48 horas para decretar luto

     Saiu hoje, finalmente, no Diário Oficial do Rio, o decreto do governador Sergio Cabral decretando luto oficial pelas vítimas dos edifícios que desabaram no Centro do Rio.
Por que tanta demora?
Será que havia dúvidas sobre o assunto?
Ou seria resistência dentro do governo para que o decreto fosse assinado?
                                ¨* * *
Quando o Airbus da Air France caiu a caminho de Paris, Sergio Cabral mandou rezar missa de sétimo dia na Igreja da Candelária pelas vítimas do desastre.
Inclusive publicando convite para o ato nos jornais do país.
Nenhuma missa foi encomendada pelo governo, pela alma dos que morreram nas enchentes de Angra; nem no morro do Bumbá, nem em Niterói; nem na catástrofe de Petrópolis e Friburgo; e nem nas chuvas recentes no Norte e Noroeste do Estado.
O mesmo comportamento, o Governo deverá  ter agora em relação aos mortos da Av. 13 de Maio.
A razão da missa pela alma dos passageiros da Air France é desconhecida: pode ser porque o avião era de uma empresa francesa.
Ou quem sabe, por que eles estavam indo para Paris..

  • Sexta-feira, 27 Janeiro 2012 / 17:10

Estadão compara Cabral com comandante que abandonou o navio

    Do repórter Wilson Costa, do ‘Estadão’:
    “Assim como já havia feito em outras tragédias no Estado, o governador do Rio, Sérgio Cabral Filho (PMDB), não compareceu ao local do desabamento dos três prédios na Avenida Treze de Maio, no centro da capital fluminense, durante os trabalhos de resgate – nem ontem, até as 21h, nem na noite de anteontem.
Diferentemente de seu aliado e afilhado político, o prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB), o governador cancelou a agenda de eventos e se isolou de contatos públicos durante o dia. Já o prefeito da capital fluminense correu para o cenário de destroços pouco depois do colapso dos edifícios na noite de quarta-feira e ontem voltou às 6 horas para acompanhar a ação das equipes de bombeiros.
A atitude de Cabral provocou críticas de adversários e internautas, que cobraram, nas redes sociais, a presença do governador no epicentro da tragédia.
Em tom irônico, alguns críticos compararam a atitude de Cabral à do comandante do Costa Concordia, Francesco Schettino, acusado de ter abandonado a embarcação em meio ao naufrágio, na Itália, em 13 de janeiro. Alguns usuários do Twitter até reproduziram a ordem dada ao oficial pela Guarda Costeira italiana: “Vada a bordo, cazzo!” (Volte a bordo, c…!).” “Sergio Cabral” disputou, ao longo de todo o dia, os primeiros lugares dos assuntos mais comentados na rede de microblogs.
Às 14h50 de ontem, o governador do Rio reagiu: por e-mail, sua assessoria de imprensa afirmou que, desde a noite de quarta-feira, Cabral acompanhava “o trabalho da Defesa Civil estadual, do Corpo de Bombeiros e da Prefeitura do Rio de Janeiro”. O governador também destacou o trabalho de Paes (que é pré-candidato à reeleição neste ano) e procurou destacar o trabalho conjunto do Estado com a administração municipal.
“Estamos vivendo esse momento ainda chocante desde ontem, acompanhando a evolução dos fatos sob o comando do prefeito Eduardo Paes e do secretário de Defesa Civil e comandante-geral do Corpo de Bombeiros, coronel Sérgio Simões”, disse o governador do Rio, segundo o comunicado. “Estamos trabalhando. Ainda resta sempre uma esperança de encontrar sobreviventes e, em última análise, resgatar corpos e, depois, retirar os escombros do que ficou.”

  • Sexta-feira, 27 Janeiro 2012 / 17:08

‘Globo’ compara Cabral a Luiza, do Canadá

     Deu no ‘Globo’:
      “Cabral, vada a bordo”. A ordem partiu das redes sociais e foi dada por usuários incomodados com o silêncio do governador Sérgio Cabral, que demorou cerca de 17 horas para se pronunciar sobre o desabamento dos três prédios. Ele só quebrou o silêncio ao falar à Rádio CBN por volta das 13h, quando usuários já brincavam com a sua ausência. Entre as várias especulações sobre o paradeiro de Cabral _ “no Canadá, mesmo destino de Luiza”_ o site de humor “Sensacionalista” postou que o governador estaria “entre os desaparecidos no desabamento do Rio”, sendo uma das mais compartilhadas pelos usuários? “O que Sérgio Cabral e o comandante do Costa Concordia têm em comum? Nenhum dos dois foi visto a bordo após o acidente”, escreveu Rebecca Vilar no Twitter, comparando Cabral ao comandante fujão do navio que naufragou na Itália. Monica Reis emendou, dizendo que o governador “era o novo Schettino”. O vocalista da banda Ultraje a Rigor, Roger (@Roxmo, no Twitter), que fez coro com muitos outros usuários, adaptou a ordem dada a Francesco Schettino por Gregorio de Falco, comandante da Capitania dos Portos de Livorno: “Cabral, vada a bordo, cazzo!” Sérgio Cabral ficou entre os termos mais comentados no Twitter, assim como o marcador #desabamentoRio.
Em nota, a assessoria de imprensa do governador informou que ele acompanhou os acontecimentos desde a noite de quarta-feira, mantendo contato permanente com o prefeito Eduardo Paes, o secretário de Defesa Civil, Sérgio Simões e o secretário de Saúde, Sérgio Cortes, que foi ao local para ajudar nos trabalhos. Em seu site, o governo publicou ontem à noite uma reportagem com o título “Cabral coordena ações do Estado em desabamento de prédios”.

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