• Sábado, 31 Dezembro 2011 / 10:04

Feliz Wonderful World

  • Quarta-feira, 28 Dezembro 2011 / 11:01

Tão bom que foi o Natal…

  • Quarta-feira, 14 Dezembro 2011 / 11:49

As denúncias contra Pimentel

                                                         Marcos Coimbra*

      Na campanha que uma parte da mídia faz contra o ministro Fernando Pimentel, do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, temos de tudo: pouca informação, muita especulação, reportagem preguiçosa e descaso com os limites éticos do jornalismo. E o velho argumento de que os fins justificam os meios.
Esses veículos se voltaram contra Pimentel no dia seguinte ao da saída do ex-ministro do Trabalho. Pode ter sido coincidência, mas é pouco provável. O que parece é que queriam manter a “crise ministerial” na primeira página.
Uma das maneiras de consegui-la é misturar gregos e troianos, alhos e bugalhos. Deliberadamente, o “caso Pimentel” foi confundido com outros, diferentes em aspectos fundamentais. Ele virou “mais um” ministro do governo Dilma “envolvido em irregularidades”.
O mais extraordinário, em seu caso, é que ninguém lhe faz qualquer denúncia concreta. Não há sequer suspeita de que tenha agido de forma errada como ministro ou permitido que alguém fizesse algo condenável no seu ministério.
Não se beneficiou do cargo para obter vantagens. Não canalizou recursos públicos para finalidades ilegais ou criticáveis. Não roubou nem deixou roubar.
Sua “irregularidade” teria sido criar uma empresa de consultoria econômica quando deixou a prefeitura de Belo Horizonte, e que funcionou entre 2009 e outubro de 2010. Uma empresa igual a milhares de outras, com faturamento apenas médio.
Para mantê-lo em cheque, o acusam de ter feito, através dela, “tráfico de influência”, sem conseguir aduzir qualquer evidência, minimamente palpável, para corroborá-la. Passaram a questioná-lo no tom inquisitorial reservado, nas delegacias de polícia, a quem é flagrado em delito: “Tudo que você disser será usado contra você”.
Quem imagina que Pimentel saiu da prefeitura, no final de 2008, cheio de “poder presente” e forte de expectativa de “poder futuro”, desconhece a política mineira. Tem, além disso, péssima memória.
Para ele, 2009 começou mal e só melhorou no final. Nas condições em que aconteceu, a vitória de Marcio Lacerda foi muito menor do que esperava. Seu grupo perdeu espaço e ficou mais fraco dentro do PT. Ganhou a eleição para o diretório estadual em processo complicado e por margem estreita.
Em abril, Dilma recebeu o diagnóstico de câncer. Embora não parecesse grave, as chances de que fosse presidente — algo em que poucos, então, apostavam —, ficaram ainda mais incertas.
Quem contratou a consultoria de Pimentel, nesse período, podia querer várias coisas, mas não estava investindo em um “facilitador” em posição privilegiada. Aqueles que imaginam que “traficasse influência” não o conhecem e não sabem o que estava acontecendo.
Supor que uma instituição como a Fiemg — a principal cliente da empresa de Pimentel, que, sozinha, representou cerca de 50% de suas receitas — o tivesse procurado para isso não tem ideia do que ela é. Ignora sua capacidade de encaminhar os pleitos da indústria mineira sem ter de recorrer a métodos
desse tipo.
(A Fiesp tem, em seus quadros, diversos ex-ministros e autoridades do governo Fernando Henrique. Estaria investindo em “facilitadores futuros”? Ou apenas entende que são pessoas de grande contribuição e que é seu papel mantê-las na ativa?)
Inventar que a empresa de Pimentel foi contratada por uma firma de Pernambuco por “manobra” do governador Eduardo Campos, “em retribuição” a seu apoio a um candidato do PSB na eleição de Belo Horizonte, é apenas um exemplo das especulações que andamos ouvindo nos últimos dias. Pareceriam cômicas, se o episódio não fosse lamentável.
Confundir-se com datas (achando, no caso de outro cliente de Pimentel, que um recebimento que aconteceu depois explica um pagamento feito antes), calcular os preços de obras com aritmética de escola primária (sem levar em conta custos de infraestrutura), ignorar os mecanismos de licitação de uma prefeitura como a de Belo Horizonte, não apurar quem representava determinada empresa na época relevante, são sinais da pressa na reportagem. Ou do desmazelo.
Para não falar no uso de informações obtidas ilegalmente. Toda a “denúncia” está assentada na mais condenável espionagem de uma empresa privada.
É possível concordar que existem situações especiais que autorizam a imprensa a ir além da “legalidade formal”. Esse, no entanto, não é o caso, quando determinados veículos apenas não gostam de um governo e seus integrantes.
*Marco Coimbra, sociólogo, preside o Insituto Vox Populi e escreve para o ‘Correio Braziliense’.

  • Domingo, 11 Dezembro 2011 / 4:05

Bottino, odeio ser coitadinho

No dia 9 de setembro, Rodolfo Bottino deu essa entrevista para o reporter Valmir Moratelli, do iG.
  “A cena é rápida e engraçada. Em “O Homem do Futuro”, em cartaz nos cinemas, o personagem Zero (Wagner Moura) está em 2011, mas quer mudar sua história e viaja no tempo até 1991. Ao entrar em um bar, pede uma cerveja e pergunta se pode fumar. O dono ri da cara dele: “Claro, ué! Você está num bar”. O ator atrás do balcão é Rodolfo Bottino, galã da década de 80 da TV Globo e, atualmente, afastado das novelas.
Há dois anos Bottino assumiu publicamente que tem o vírus da Aids. Passou a receber e-mails de todo o País. Eram, em sua maioria, de jovens querendo tirar dúvidas. “Mas fui largando um pouco este peso. Podia dar, no máximo, meu depoimento de vida”, conta ele, que também enfrentou e superou um câncer de pulmão em 2006.
Rodolfo Bottino atuou em diversas novelas da Globo nos anos 1980 e 1990 como “Ti Ti Ti” (1985), “Lua Cheia de Amor”, “Bebê a Bordo” e “Deus nos Acuda”, entre outras.
A entrevista a seguir aconteceu no restaurante Assis, no Cosme Velho, zona sul do Rio, onde Bottino, toda terça-feira, dá aulas de gastronomia para leigos. Antes de preparar um delicioso ceviche com purê de batata-doce e um peito de frango no gergelim, o ator relembrou momentos marcantes de sua vida e as lições que assimilou. “Não tenho medo de morrer, só não quero morrer agora. Está bom aqui. Não quero ser exemplo para ninguém. Odeio ser chamado de coitadinho”, afirma.
Bottino é inquieto. Em quase duas horas de bate-papo, fuma três cigarros, bebe duas xícaras de café bem forte e bebe um copo de água. Fora da televisão, está escrevendo dois livros, um de culinária e um de ficção. “O personagem mata as pessoas e depois as cozinha”, ri. É com este mesmo sorriso, de quem ri da vida – e para a vida – que Bottino segue a sua. “Não tenho memória para a dor”, sentencia”.
- O filme no qual você faz uma participação trata de uma possível volta ao passado. Tem
vontade de viajar no tempo?

- Apesar de ser aquariano, nunca gostei desse tipo de assunto. O que é o tempo? É um mistério. Mudar o andamento da história pode ser uma grande cagada. As coisas são erradas porque devem ser erradas. Ninguém é certinho, nem minha mãe é.
- Então se tivesse esta oportunidade não mudaria nada na sua vida ?
- Te respondo com um paradoxo. Mudaria várias coisas só por saber que não posso mudar. Para dar um exemplo prático, não teria feito a faculdade de engenharia civil. Amo matemática, é bom para decorar texto. Só. Não construo edifícios. Teria feito psicologia ou filosofia. Era uma época com forte tendência hippie.
- Como você participou do movimento hippie?
- A gente falava que era hippie, mas comprava jeans da moda. Usávamos o capitalismo para mostrar que éramos hippies. Isso então não é ir contra o sistema. O movimento hippie chegou ao Brasil de forma diferente do que foi vivido pelos americanos. As coisas chegavam aqui com certo ‘delay’.
- O que traz daquela época?
- Acho que a ideologia ‘paz e amor’. Nada mais. Adoro dinheiro, ir a Paris gastar com coisas bacanas, cozinhar alta gastronomia. O movimento hippie surgiu na onda da guerra do Vietnã. Os americanos estavam envolvidos sim com o desabamento das torres gêmeas. Você pode achar que é teoria da conspiração. Mas americano está sempre envolvido com o dinheiro, com a guerra.
- Tendo vivido uma época efervescente, atualmente sua geração encaretou?
- Minha geração encaretou muito! Sabe o que acontece? O jovem quer o novo, tem que experimentar tudo. Porque depois de velho fica uma merda experimentar as coisas. O quarentão vai ficando canônico, porque não sabe o que responder ao filho. E o velho não tem nada a perder, principalmente os que já experimentaram tudo.
- Galã na Ipanema dos anos 80, você vivia nas noites do Baixo Leblon emendando uma festa na outra. Experimentou de tudo?
- Não quero entrar nestas intimidades. Posso te falar que, como garoto jovem de uma outra época, experimentei de tudo. Não, sempre tive pavor de agulha. Então experimentei quase tudo. E tem mesmo que experimentar. Como você vai falar que não gosta de abacate, se nunca comeu abacate?
- E qual é a pior droga?
- Cigarro é a pior droga que existe. É mais difícil você largar o vício da nicotina do que o da heroína. Posso ficar anos sem beber, mas não fico um dia sem fumar. O cigarro te consome fazendo parte do seu gestual, da rotina sexual, da alimentação… Preciso me policiar para não fazer as coisas em função deste vício. Se não, posso transar para fumar, comer para transar… No fundo, todo vício gera isso.
- E o álcool?
- Beber é complicado também… Não tem problema beber numa festa, mas quando nos damos conta estamos bebendo dezoito uísques. Ia do Leblon a Ipanema dirigindo pela calçada, chegando em casa com os quatro pneus furados. O porteiro não sabia como eu conseguia chegar inteiro estando naquele estado.
- Em 2009 você assumiu publicamente que é portador do vírus da Aids. Como foi a repercussão?
- Sabe um peso de um edifício? Foi isso que saiu das minhas costas. Passei a ter uma vida mais aberta, mais clara. Ajudei muita gente.
- Como assim?
- Dando conselhos… Mas aí tive um problema de consciência gravíssimo, porque dois meninos de diferentes estados se mataram. Eles me escreveram, contando que estavam com o vírus e os pais não aceitavam. Um deles contraiu em uma festa chamada “Bare backing”, que em inglês significa montar sem cela, ou seja, transar sem camisinha. Vai uma garotada saudável para uma festa, transa sem camisinha, sabendo que tem portadores da Aids no meio. É como uma roleta-russa.
- Você acabou virando um terapeuta?
- Eram milhares de e-mails, do Brasil inteiro, pedindo ajuda. Naqueles primeiros meses virei conselheiro. Mas fui largando este peso, porque não tinha gabarito para isso. Não sou sociólogo, psicólogo, filólogo, médico. Sou ator. Podia dar, no máximo, meu depoimento de vida.
- Sofreu preconceito depois de revelar que estava com Aids?
- Não, mas tenho uma história ótima. Estava andando em Copacabana, com dois amigos, quando surgiu um cara imenso, todo vestido de vermelho, fortão, meio gordo, levemente careca e com uma voz apavorante, me chamando: “Seu Bottino?”. Virei e falei “Eu mesmo”. Naquela hora pensei que ia apanhar, sei lá. Ficou me olhando de cima a baixo até falar (com voz meio afeminada): “O senhor está melhorzinho?”. Caí na gargalhada. Quase chorei de tanto rir.
- Em algum momento você se abateu?
- Deus me deu um ‘gift’, uma dádiva. Não encarei a vida com mau humor, nem as coisas ruins. Nem este assunto. Claro que não sou um idiota. Quando eu soube, mexeu comigo. Mas não fiquei deprimido, fui à luta. Era hora de ficar quieto, agir e tomar remédio.
- O que mudou na sua vida após saber que estava com Aids?
- Por causa do vírus? Nada. Adaptei tudo à minha vida. É como adaptar a insulina a quem tem diabete ou interferon a quem tem hepatite. Vai fazer o quê? É uma coisa crônica, você tem e acabou. Não é doença, é um vírus do qual você é portador. Nunca tive manifestação da doença. Pode olhar minha cara, é direitinha. Até minha vida sexual se manteve intacta.
- Está namorando?
- Hoje em dia, com 52 anos, menos. Porque me dá tanto trabalho esta parte de relações. O único momento que tenho vontade de perder a vida é quando a pessoa chega para mim querendo discutir relação (risos). No fundo quem discute relação quer transar gostoso. É uma perda de tempo, vai direto ao assunto, caramba!
- Quando você soube que tinha Aids, vários amigos da sua geração já tinham morrido devido à doença. Como lidou com estas perdas ao redor?
- As coisas me doem mais quando acontecem com quem amo. Eu daria um dedinho para não ver uma mãe de um amigo sofrer. Meu sofrimento não me dói tanto. Tenho raiva de quem não luta pela vida. Tive um amigo que, ao descobrir o vírus, sentou no sofá e, dois meses depois, morreu no mesmo sofá. Não saiu para lutar.
- Você já contou que foi, em um só mês, a 18 enterros de pessoas que estavam doentes…
- Quando a pessoa se entrega é chato, dá ódio. Mas quando não entrega, aí é o lado doloroso. Como aconteceu com o Cazuza, com quem tive uma linda amizade. Ele lutou muito, teve garra, experimentou todos os recursos numa época que não existia o coquetel (de remédios). Na época eu não tinha o vírus. Como sofreu o filho da mãe! Foi bonito o exemplo dele. No começo se tomava AZT doze vezes por dia. Isso mata! Acaba com seu organismo. Hoje em dia só existe uma única dose misturada ao coquetel de remédios.
- Como você descobriu que estava com Aids? Você lembra do dia que soube da confirmação?
- Não lembro o ano. Não tenho memória para a dor, é como se meu cérebro bloqueasse certas coisas. Passou de um ano, já não me lembro das coisas com datas certas. Tive recentemente dez dias internado com crise renal, tomei morfina. Você acredita que não lembro da dor anterior da internação? Isso que você me pergunta é muito distante. Descobri por acaso, anos depois da morte do Cazuza (1990). Fazia exame todo mês. Ia com uma amiga no laboratório. Ela me contava piadas, a gente ria direto, enquanto não saía o resultado. Até que um dia deu positivo. Fazer o quê? Ainda assim ela me contou piada naquela manhã.
- A pergunta é previsível, mas necessária: teve medo de morrer?
- Não tenho medo de morrer, nunca tive. Só não quero morrer agora. Está bom aqui. Acredito em Deus, sou católico, mas não vejo o que vivi como um carma. É o que vivi, só isso. Não quero ser exemplo para ninguém. Odeio ser chamado de coitadinho. Passo longe de ser um coitadinho.
- Anos mais tarde, em 2006, você passou por um câncer de pulmão. Batalha também difícil?
- Difícil? Depois da Aids, que não me derrubou, nada seria impactante para mim. Pode apostar. O mais difícil do câncer foi a quimioterapia, que deixa o organismo horrível. Mas já superei, é coisa do passado.

  • Domingo, 11 Dezembro 2011 / 3:03

Bottino, um amigo impar

    De Luciana Froes, do ‘Globo’.
    “Tenho laços com o Rodolfo Bottinho de algumas décadas, quando sequer sonhava em escrever sobre gastronomia. Mas ele já era dublê de ator e cozinheiro.  Chefiava um restaurante de massas, em Botafogo, o Madrugada. Isso lá pelos anos 80, 90.
Sempre estivemos por perto, em festas ou eventos ligadas a comida. Fui ao Gema Carioca, programa hilário que ele fazia na Tv Cultura, onde entrevistava seus convidados cozinhando e dando receitas. Uma maluquice completa. Nesse dia, ensinou uma tapioca que eu não consegui aprender, nem ele conseguiu fazer. Deu tudo errado, grudou, queimou, saiu fumaça… Segundo ele, nossa audiencia foi um espetáculo.
Na primeira edição do Premio RioShow de Gastronomia, no antigo Gourmet do Celidônio, em Ipanema, ele foi o nosso mestre de cerimônias. Interpretou um trecho de Risoto, uma peça onde ele cozinhava em cena. O texto, dele, era uma delicia.
Já passamos quinze dias juntos na Espanha. Josimar Melo, critico de restaurantes da Folha, também foi. Bottino nos fez rir durante 15 dias. Só bobagem. Lembro que dois programas eram sagrados em qualquer cidade que a gente chegasse (e foram muitas) : esperar dar meio-dia (antes disso, é coisa de bebado) para beber um “fino” Tio Pepe geladinho e dar um pulo na farmácia para ver os “lançamentos”. Ficava hooooras hablando num portunhol infame com o vendedor. E saia  cheio de sacolas. Me presenteou com um contorno de olhos revolucionário, que quando fui ler, era um creme para verrugas. Ele tinha trocado as sacolas.
A ultima vez que estive com ele foi em agosto, aniversário da Lou Bittencourt, quando fez um risoto otimo para nós. E um pouco antes, quando organizamos um jantar grande no restaurante onde ele cozinhava às terças-feiras, em Laranjeiras. Acabei na cozinha passando os pedidos e orientando os cozinheiros. Bottino ficou no salão de mesa e mesa.
No Shoptime, foi um sucesso.  Fez filmes importantes, novelas, teve coluna de gastronomia no Dia, foi garoto propaganda de azeite, tem livros ótimos de receitas (Comendo o Bottino), enfim, figura especialíssima, que já “morreu e viveu” algumas vezes. Quando a gente pensava que não dava mais jeito, ele ressurgia inteiro, de óculos novos enormes.
Sou personagem de  uma historia que Bottino adorava e me fazia contar  toda a vez que a gente se encontrava. É que fui cobrir um congresso de esquizofrenia, que ninguem no jornal queria cobrir, claro. Tres dias em Mar del Plata. Eu tinha lido no jornal que o free shop estava com uma promoção de impressoaras e eu estava precisando de uma. Custava um troco. Daí, me candidatei. So que o tal congresso era pauleira, pesadissimo, tristíssimo. Deprimi no primeiro dia e tive que ser medicada. Voltei de mãos dadas com um psiquiatra, que me deixou na porta de casa. E com um tarja preta na bolsa. Ah, e não comprei a impressora.  Desde ai, quando fico triste, meus amigos dizem que eu estou ” mar del plata”.
Pois hoje é desses dias mar de plata…”

  • Quinta-feira, 01 Dezembro 2011 / 19:37

Amor e ódio

                                            Veríssimo*

      Um historiador do futuro – figura retórica tão útil quanto o Marciano Hipotético para se olhar o Brasil atual de uma certa distância – terá duas grandes dificuldades para entender que diabos se passou por aqui nos últimos anos. Uma será explicar o amor ao Lula. A outra será explicar o ódio ao Lula. As duas coisas transbordaram de qualquer parâmetro racional. Lula terminou seu mandato com um índice de aprovação popular inédito, e odiado na mesma proporção. O amor resistiu a escândalos, gafes, alianças indefensáveis, uma imprensa hostil e uma oposição ativa. O ódio se manteve constante até depois do mandato e não se diluiu nem numa natural simpatia pelo homem doente – o antilulismo feroz não é solidário nem no câncer.
Nosso historiador talvez desista de encontrar explicações para essa polarização extrema na disputa política e sucumba a simplificações sociorromânticas. Talvez conclua que Lula teria o amor da maioria pelo seu tipo físico e sua biografia independentemente de qualquer outra coisa, e seria aprovado pelos seus semelhantes não importa que governo fizesse. E que o ódio ao Lula se explicava por nada menos científico ou novo no Brasil do que o preconceito social, uma repulsa atávica a quem ultrapassa sua classe e com isto ameaça todo o conceito de classe predestinada. No caso um torneiro mecânico inculto metido a grande coisa.
No fundo o que o perplexo historiador do futuro estaria dizendo é que é impossível confiar em padrões históricos como os que explicam outras sociedades para nos explicar. Não se trata de reativar a frase que o De Gaulle nunca disse, sobre nossa falta de seriedade. Somos sérios, sim. Mas também somos movidos a paixões que sabotam toda coerência histórica. O Lula foi um catalisador de paixões, a favor e contra. E o mais extraordinário e brasileiro disso é que o amor e o ódio não têm nada a ver com os sucessos ou os fracassos do seu governo. Existem num plano ahistórico e apolítico de pura devoção ou pura raiva.
*Luiz Fernando Veríssimo é jornalista e escreve para ‘O Globo’.

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