• Domingo, 11 Setembro 2011 / 18:49

Angela Maria, 84 anos, vai casar

       De Monica Bergamo, na ‘Folha’:
       “Ângela Maria nasceu em 13 de maio de 1928. No mesmo dia, 40 anos antes, era proclamada a abolição da escravatura no Brasil. Também em 13 de maio, só que no ano de 1917, Nossa Senhora apareceu para três crianças em Fátima, Portugal. Tudo isso contou na hora de escolher a data: no dia 13 de maio de 2012, em seu aniversário de 84 anos, Ângela Maria vai casar.
“Muita coisa importante aconteceu em dias 13 de maio”, diz a cantora, com olhar reflexivo. Ela recebe o repórter Marcus Preto no estúdio da Lua Music, onde grava o novo CD, “Eu Voltei”. O título vem da canção “O Portão”, de Roberto e Erasmo Carlos, que vai estar no álbum. E remete aos oito anos em que está sem lançar trabalho novo.
“Vamos ver se nesse disco a coisa desabrocha”, diz. Ângela está em cartaz todas as quartas deste mês no Bar Brahma, na av. São João, dividindo show com Agnaldo Timóteo. “Ele é um dos meus [cantores] preferidos. E o Altemar Dutra. E, claro, o Cauby [Peixoto].”
Cauby é seu único convidado no CD. Ele é o irmão espiritual de Ângela Maria?
“Irmão, não. Ele é o marido musical dela”, retifica seu noivo, Daniel D’Ângelo, enfatizando a palavra “marido”. Ele se tornou empresário da cantora oito meses depois do começo do namoro. Tem 50 anos e namora Ângela desde os 18. A cantora tinha 51. “Por pouco ela não foi pedófila.”
Ele conta que era dono de um restaurante e estava noivo de outra quando conheceu Ângela. Foi em 22 de novembro de 1979. Estavam na entrega de um “prêmio fajuto”. D’Ângelo apostou com amigos: “Vou convidar essa tal cantora tão famosa pra jantar”. Rolou.
“Eu nem sabia quem era Ângela Maria antes disso”, garante. “Mas a mãe e a tia dele eram minhas fãs”, ela lembra. Daniel conta que, na infância, acordava com “Gente Humilde” tocando no rádio. “Mãe, tira essa mulher daí que eu não aguento mais.” Só ligou o nome à pessoa no primeiro show, já namorando. “Ela
cantou ‘Gente Humilde’ e eu pensei: Olha onde eu me meti.” Ela ri: “Foi castigo!”.
Em casa, Ângela gosta de ouvir música de amor. “Sou romântica, bem?” O noivo responde curto: “É”.
A festa de noivado aconteceu no Rio, onde a cantora nasceu, reunindo os parentes dela. “Foi meu irmão que falou para o Daniel me pedir a mão”, ela conta. “Daí eu tive que pedir, né?”, ele rebate. Se estão preparando uma festona de casamento? Ele: “Calma!”. Ela: “Claro que sim”.
Daniel se faz de durão. Tenta escapar das declarações de amor e dos beijos que ela quer dar nele na frente de todo mundo. Mas se derrete ao falar da estrela Ângela Maria. “Pra mim, que vejo 24 horas por dia, ela é uma caixinha de surpresas. Já vi cada coisa…”
Há casos de todos os tipos em 60 anos de carreira. “Já cansei de ver gente beijar os pés dela, chorando no chão. Vi até pessoas que estão na cadeira de rodas e levantam pra dar um beijo na Ângela”, ele relata.
O produtor Thiago Marques Luiz, que cuida do novo CD de Ângela e dos últimos de Cauby Peixoto, lembra um desses casos. “Quando ela participou da gravação do DVD do Cauby, uma mulher passou mal a ponto de termos que chamar a ambulância”, ele diz. Isso sempre acontece contigo, Ângela? “Sempre.”
“Thiago, você tem a voz da Gal Costa”, ela diz ao produtor. “Ele canta bem, mas é meio envergonhado.”
A cantora, resfriada, teria que esperar alguns dias para colocar as vozes definitivas nas gravações. Reclama do frio que faz em São Paulo, onde vive desde 1967. “Carioca não se acostuma com isso. Quando vim morar aqui, chegava a fazer um grau.”
O sucesso chegou quando ela ainda morava no Rio. Era, possivelmente, a maior cantora do país. Ao menos é isso o que sempre repetiram futuros astros como Elis Regina, Ney Matogrosso, Milton Nascimento e outros “pupilos” da Sapoti, como era chamada. “Nunca tive nenhuma relação com eles”, ela conta. “Sempre foi coisa de corredor de televisão, de encontrar no aeroporto.”
Elis se dizia “imitadora” de Ângela Maria. “Ela tinha loucura pra me conhecer.” As duas se encontraram pela primeira vez graças ao compositor Ronaldo Bôscoli, com quem Elis era casada. Ele armou uma participação
surpresa de Ângela no “Elis Especial”, que ia ao ar pela TV Globo em 1972. A música era “Vida de Bailarina”, sucesso de Ângela regravado por Elis.
“Ela começou a cantar e eu vim por trás. Quando me viu, ela chorou sem parar e interrompeu a gravação, brava porque o Bôscoli não tinha contado que eu ia.
Quando voltamos, ela teve outro ataque de choro. E depois outro. Toda vez que eu entrava, ela chorava. Até que Ronaldo começou a engrossar: ‘Parou, Elis. Você já conheceu a mulher, já sabe como ela é. Vamos trabalhar?’ Só aí ela acalmou e a gente conseguiu gravar.”
No novo CD, Ângela regrava “A Chuva Caiu”, uma das primeiras canções de Tom Jobim (com o parceiro Luiz Bonfá), escrita muito antes de se ouvir falar em bossa nova. O registro original é dela, feito em 1956.
“Eu andava com aquela turma: Tom, Nara Leão, João Gilberto. Mas, apesar de eu estar no grupo, eles preferiam que as músicas não fossem gravadas por uma cantora popular”, diz. João Gilberto já era como é hoje? “Maluco? Sim! Era um cara muito gente, mas tinha aquelas ideias. Compunha em cima de uma árvore.”

  • Domingo, 11 Setembro 2011 / 18:27

O PT e o sistema eleitoral

                                            Marcos Coimbra*

             Na Resolução aprovada em seu 4º Congresso, realizado no começo do mês, o PT dedica uma seção inteira ao tema da reforma política. Natural, pois era de esperar que o partido se pronunciasse sobre algo que está no centro das discussões políticas desde o início do ano.
Primeiro, tivemos uma comissão especial no Senado, criada para elaborar uma proposta que contivesse os pontos fundamentais e menos polêmicos, assim permitindo que as mudanças na legislação pudessem ser rapidamente adotadas.
Seu trabalho parece, no entanto, não ter servido de muito, pois está sendo ignorado pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania da Casa, onde a matéria hoje tramita. Ela desdiz, praticamente, tudo que a comissão especial havia dito.
Em sua resolução, o PT não apresenta propostas para mudar de forma ampla nosso sistema político. É menos ambicioso.
O documento afirma que são dois os “objetivos programáticos estratégicos do PT” na reforma política: a adoção do financiamento público exclusivo das campanhas e do voto em lista nas eleições de deputados (federais, estaduais e distritais), assim como de vereadores.
Além dessas, outras três mudanças são sugeridas. Duas são bem específicas: a proibição das coligações nas eleições proporcionais e a “garantia da presença de sexos diferentes na lista”. A terceira, ao contrário, é difusa: a “ampliação da participação direta na política através da remoção de obstáculos que hoje a dificultam”.
Salvo a última, as ideias formam um todo coerente. São questões que o sistema político discute há tempo e que possuem larga sustentação em nosso pensamento e tradições democráticas. Não é o que se poderia dizer dessa da “participação direta”, que, se não for claramente delimitada, conflita com os fundamentos
da democracia representativa.
É difícil entender de onde os autores do documento tiraram a noção de que “a campanha pelas leis cidadãs é a melhor resposta que podemos dar à crise internacional”. Como se leis de iniciativa popular fossem superiores e mais eficazes do que as originadas no parlamento! Elas e os plebiscitos e referendos, igualmente defendidos no texto, são instrumentos que se devem usar de forma muito parcimoniosa e que estão longe de ser panaceias para os problemas da democracia.
O curioso é que as quatro propostas básicas do PT são quase idênticas às que a comissão especial do Senado aprovara. Lá, os notáveis dos principais partidos haviam chegado às mesmas recomendações dos petistas.
Financiamento público exclusivo, voto em lista, fim das coligações nas proporcionais e fixação de uma cota de 50% das listas para candidatas mulheres, todas constavam do relatório da comissão especial. É a CCJ que as está suprimindo (com exceção da proibição das coligações nas eleições proporcionais, que ninguém defende). Se depender do parecer do relator, o senador Renan Calheiros (PMDB-AL), delas não restará nada.
Essas propostas, especialmente as que o PT chama “objetivos estratégicos”, são inovações em nossa legislação destinadas a fortalecer os partidos políticos. Adotadas em conjunto, mudariam as condições institucionais de seu funcionamento e organização.
Na opinião unânime dos estudiosos, o voto proporcional favorece os partidos, sendo o voto majoritário seu adversário potencial. O sistema em que ganha o mais votado, independente de sua filiação partidária, faz com que os candidatos se bastem e prescindam da votação de seus companheiros de legenda.
Os eleitos se tornam os únicos senhores dos votos que receberam e, portanto, dos mandatos.
O multipartidarismo não é impossível, mas fica difícil quando se adota o voto majoritário nas eleições legislativas. Os países onde prevalece o voto distrital são, quase sempre, bipartidários, pois a eleição do representante local tende a se tornar polarizada entre apenas duas correntes (como ocorre nas eleições para prefeito, que, na maioria dos municípios brasileiros, particularmente os menores, costumam ser resolvidas entre os dois “lados” da vida política local).
A lista partidária preordenada, em que o eleitor vota no partido e os candidatos são eleitos de acordo com sua posição na lista, conflita com nossa experiência eleitoral. Segundo as pesquisas de opinião, a vasta
maioria da população a rejeita. Muitas vezes, com a ilusão de que, no modelo atual, é mais livre para escolher.
Não há, no entanto, como negar coerência ao PT nas propostas que faz de reforma política. Nada mais lógico que o maior partido que já tivemos em nossa história seja favorável ao fortalecimento dos partidos.
*Marcos Coimbra, sociólogo, preside o Instituto Vox Populi, e escreve para o ‘Correio Braziliense’.

  • Domingo, 11 Setembro 2011 / 18:23

Receio e otimismo nas ruas

                        Valdo Cruz*

          Gilberto Carvalho desceu do palanque ao final do desfile de Sete de Setembro, foi em casa, trocou de roupa e decidiu conferir de perto aquela “novidade” que passava ali bem perto: a Marcha contra a Corrupção.
Antes, informado por assessores, avisou a presidente Dilma que a manifestação, encoberta por um tapume que dividia a Esplanada dos Ministérios em duas alas, reunia mais gente do que o previsto.
“Dava para ver apenas as bandeiras e faixas, mas era possível ter a dimensão de que algo positivo e de impacto acontecia ali”, diz o ministro responsável pelo diálogo com os movimentos sociais.
A previsão do governo era que não mais do que mil pessoas estariam na marcha.
“Mas foi brotando gente de tudo que é lado e foram mais de 12 mil manifestantes.”
Ao final, Gilberto Carvalho voltou a falar com a presidente. Relatou o que viu, destacou uma faixa com os dizeres “Limpa, Dilma, Limpa”, e ouviu da chefe que aquilo era “bom e positivo” para o país.
Para ele, não há por que temer esse tipo de ato. Acredita que pode até ajudar a presidente ao criar um bom tensionamento dentro do governo e obrigar “todo mundo a ser muito mais cuidadoso” com o patrimônio público.
Apesar de ser ainda cedo para dizer onde tudo isso vai dar, alerta que pode estar surgindo um novo tipo de movimento social, que não se enquadra no figurino da velha política, com o qual o governo precisa aprender e dialogar.
Visão não compartilhada por gente graúda do Congresso, que fez questão de “alertar” a presidente para os riscos de uma marcha despolitizada, que prega até o fechamento do Legislativo. Dilma não concordou, mas a velha raposa disse que assim começou a ditadura.
Reação típica de quem teme pela própria pele, afinal não há campo fértil para a proliferação de movimentos radicais no país. A não ser que os donos da velha política sigam dando motivos para tal.
*Valdo Cruz é jornalista da ‘Folha’.

  • Domingo, 11 Setembro 2011 / 18:21

Peluso recomendou o apagão da memória

                                 Elio Gaspari*
 
       O presidente do Conselho Nacional de Justiça, ministro Cezar Peluso, baixou uma recomendação (nº 37) orientando os tribunais do país para preservar seus documentos. Tem 1.800 palavras e quem a lê sente-se no paraíso.
Menciona o “Programa Nacional de Gestão Documental e Memória do Poder Judiciário” e cria mecanismos para a digitalização de processos.
Tudo muito bonito até que se chega ao item 20 da recomendação: “Será preservada uma amostra estatística representativa do universo dos documentos e processos administrativos e dos autos judiciais findos
destinados à eliminação.”
Numa palavra: destruição.
Reapareceu o apagão que há anos ameaça a memória do Judiciário. Do ponto de vista de quem quer se livrar de um papelório que pode chegar a 20 milhões de processos, esses documentos não têm valor. Juntam bichos, mofo e perigo de fogo. Para os historiadores, ali está a história do andar de baixo e, em muitos casos, só ali.
Pela recomendação de Peluso, serão destruídos processos encerrados há cinco ou dez anos. Só excepcionalmente, em casos que envolvem patrimônios, podem durar até cem anos. Deles, sobreviverá apenas uma “amostra estatística”.
Esse critério já queimou milhões de processos, entre eles o que tratou da indenização de um jovem metalúrgico que, em 1959, deixou o dedo mínimo da mão esquerda debaixo de uma prensa. Que valor teria o caso banal de um pernambucano miserável? Era o processo do dedo de Lula.
Pode-se sustentar que não compete ao Judiciário gastar dinheiro preservando processos velhos. Também é o caso de se conjurar projetos megalomaníacos de digitalização. Daí a destruir os papéis vai uma distância enorme. No Paraná, a Justiça do Trabalho publicou um edital abrindo o caminho para parar o descarte de cerca de 62 mil processos trabalhistas. Felizmente, a Unoeste de Marechal Cândido Rondon pediu a guarda do arquivo, e o caso poderá ser resolvido de forma exemplar.
O doutor Peluso sabe quão prósperos são os grandes escritórios de advocacia.
O Rio Grande do Sul preserva 14 milhões de processos da sua Justiça, e isso custa à Viúva algo como R$ 4,2 milhões por ano (incluindo aluguel, água, luz e telefone). Instituições oficiais de financiamento, ou programas do BNDES e da Petrobras, associados a algumas bancas de advogados, poderiam desatar esse
nó em outros Estados.
Se a destruição for evitada e os arquivos forem salvos, algum dia uma grande cidade poderá montar um projeto semelhante ao dos papéis da corte criminal de Londres. No “Old Bailey” digitalizaram 197 mil julgamentos preservados, com 240 mil manuscritos onde estão 3,35 milhões de nomes da ralé que passou
pela Justiça entre 1674 e 1913. Essa papelada ensina que, em 1889, um sujeito era acusado de ganhar 20 libras para enviar uma jovem a um bordel brasileiro.
Graças à preservação de um censo dos hóspedes da prisão de Holloway, sabe-se que, em 1881, lá esteve Edward Glassborow, tataravô de Kate Midletton, duquesa de Cambridge”.
*Elio Gaspari é jornalista e escreve para ‘O Globo’ e a ‘Folha’.

  • Domingo, 11 Setembro 2011 / 18:18

Wagner: “Lula é mais tolerante que Dilma”

       O governador da Bahia, Jacques Wagner, é o entrevistado desta semana na revista ‘Istoé’. Seus entrevistadores foram os repórteres Octávio Costa e Adriana Nicacio:
- Hoje o tema central na política é a faxina ética. O sr. concorda?
- Nós sempre teremos problemas, enquanto houver ser humano e paixão patrimonial. Por isso, a agenda da transparência, do combate à corrupção e da busca do melhor uso do dinheiro pú­blico é permanente. Nunca vai acabar. Só acho um equívoco virar a agenda central. O País está bem do ponto de vista da capacidade de atração de investimentos e da autoestima, tendo desafios enormes, particularmente de infraestrutura humana e clássica.
- Então a presidente Dilma Rousseff deve deixar a “faxina” de lado?
- Claro que não. Não há mais lugar para o papo de “rouba, mas faz”. Não tem que roubar nem deixar roubar. Tem que fazer. O governo só não deve gastar mais energia com isso do que com a busca do desenvolvimento.
- Uma pergunta que se faz é por que todos esses escândalos estouraram no início do governo Dilma e não antes?
- É claro que o presidente Lula, por ser um homem totalmente da política, acabou sendo mais tolerante que Dilma com o gênero humano e seus erros. Ele sabe que para governar é preciso, muitas vezes, conviver com pessoas que não têm o mesmo padrão de comportamento. Nesse aspecto, a presidente Dilma tem uma bem-vinda taxa de intolerância muito grande. A intolerância tem que ser no conteúdo e não na forma. É chamar o cara e dizer: “Bye, bye”. Mas, para não ficar impressão errada, não me consta que, com Lula, tenha havido movimentação para impedir o trabalho da PF ou do Ministério Público Federal. Mas Lula é um cara mais martelado na vida da política, desde o sindicato.
- No caso do governo, a necessidade de compor leva ao loteamento político. E o loteamento político tem levado à corrupção.
- É muito comum ouvir: “Seria bom ganhar com todo mundo, mas governar sozinho”. Mas isso não corresponde à realidade, porque a gente vive numa democracia. A reincidência da corrupção não é coisa do governo A ou do governo B. É a reincidência da deformação da cabeça do ser humano que está na política como atalho para a conquista patrimonial. Há anjos e diabos em todos os segmentos da sociedade.
- Mas hoje o partido aliado leva o ministério praticamente com a porteira fechada.
- Mas isso não dá o direito de fazer negociatas lá dentro. E quem achou que podia está quebrando a cara. É claro que eu não sou ingênuo nem cínico para saber que, quando se tem um ministério, é óbvio que o ministro dá um “delta plus” para o seu partido e para o seu Estado. É da vida. Agora, quanto mais apertar o cerco, punir e combater, menos teremos esses episódios. Dilma está deixando claro que o código de conduta dela é extremamente restrito nesse campo.
- Essa postura da presidente causou um racha na base aliada. A partir dessa reação, ela decidiu tirar o pé do acelerador?
- Eu posso lhe garantir que, se houver algum ajuste da parte dela, não será no código de conduta. O ajuste pode ser na forma. Em vez de mandar alguém embora batendo o bumbo, chama e pede que entregue a carta de demissão.
- A presidente não corre o risco de perder a governabilidade batendo de frente com a base aliada?
- A governabilidade também é dada pela relação com a sociedade. E ninguém melhor do que os parlamentares para saber do peso da opinião pública.
- O mais difícil para a base aliada é conviver com corte de gastos? – Diria até que a insatisfação dos aliados é menos pela forma de Dilma agir e mais pelos cortes do orçamento. A reação do Congresso é muito mais pelo não recebido. É óbvio que o governo tem que soltar emenda. Não tenho dúvida de que vai se respirar muito melhor no Congresso Nacional. O deputado vive de entregar serviço para sua base eleitoral.
- Então o que conta é a falta de dinheiro?
- Temos um problema objetivo. O governo fez um corte de R$ 50 bilhões e ela cortou os restos a pagar até 2008. Eu fui articulador político de 2004 a 2006. Tínhamos restos a pagar de 2000. O que é muito difícil, porque se de um lado há um estoque de dívidas, mesmo que você ache que não vai pagar nunca, do outro
lado há um estoque de expectativas. O deputado diz para o prefeito: “Não saiu este ano, mas eu deixei como restos a pagar.” E lá está o outro acreditando que o hospital dele vai sair. No final do ano, naquela salinha em que eu trabalhava e agora trabalha a Ideli (Salvatti, ministra das Relações Institucionais), o período em torno de 20 de dezembro, com o fechamento do Orçamento, é terrível. Faz fila. O sistema deixa todo mundo estressado.
- E a ministra Ideli está preparada para isso?
- Não podemos ser duros demais com ela. A Ideli entrou no olho do furacão. Já entrou com o mal-estar instalado a partir da saída do Palocci (Antônio Palocci), num ambiente em que tem de trocar o pneu e fazer a bicicleta rodar ao mesmo tempo. O clima, porém, deve melhorar.
- Mas a presidente acabou de anunciar novo corte e aumento do superávit.
- Ninguém gosta de fazer corte. Como acredito muito em Dilma, tenho pedido calma ao pessoal do PT. Às vezes, para preservar o projeto de longo prazo, é preciso aturar um momento de dificuldade.
- Dilma pretende se reeleger em 2014?
- Isso só perguntando a ela.Mas percebo que ela está gostando do exercício da Presidência e certamente sairá candidata.
- O sr. a apoiaria?
- Certamente. Não tenho dois projetos políticos. Só tenho um. Meu projeto político é a reeleição da Dilma.
- Ela não estaria preparando o governo para o retorno de Lula em 2014?
- Não acredito. Nem ele seria tão mesquinho nem ela tão altruísta. Todos nós temos amor próprio e paixão pelo que fazemos. Só há uma aposta: ela ir bem. Indo bem, é absolutamente normal ser candidata. Se ela disser que é candidata à reeleição, a chance de o Lula pretender é zero.
- E Lula ficaria de fora?
- Com a maior naturalidade. Mas, se ela disser que é candidata, virá a segunda pergunta: “Vosmecê quer?” Com tudo o que Lula fez, ele saiu realizado. É clara sua popularidade. Mas diz a boa lenda que é bom sair por cima. Se a pergunta for feita, ele tem que pensar.
- Quais são seus planos políticos?
- Eu sou um cara que está com a vaidade bastante preenchida. É sério. Virei a página na política da Bahia. Apostei 180 graus de mudança na política baiana e deu certo. Estou preparando antecipadamente 2014 e já disse que não serei candidato ao Senado.
- Não?
- Serei candidato a deputado federal, para deixar as vagas de vice-governador e senador livres para a composição com os aliados.
- Fala-se muito que, a partir de sua amizade com a presidente Dilma, ela tem sido atenciosa com a Bahia. De fato, há essa preferência?
- A energia do povo baiano, do nordestino como um todo, é muito especial. Quando a presidenta Dilma chega, o povo faz fila como se fosse a Seleção Brasileira de Futebol voltando vitoriosa da Copa do Mundo. É encantador. Lá foi a maior frente de votos das eleições de 2010. Ela ganhou no Brasil com 12 milhões e
na Bahia fez 2,7 milhões.
- Mas a Bahia tem sido beneficiada ou não?
- Agora mesmo estamos recebendo duas novas universidades federais. Estou fazendo um programa para fortalecer da primeira à terceira série, o programa Todos pela Escola.
- Sua hegemonia na Bahia vai se ampliar. Com a criação do PSD, o sr. terá o voto de 49 dos 63 deputados estaduais,  uma maioria superior à de ACM quando ele governou de 1991 até 1994. Está nascendo o “jaquismo”?
- Não acho apropriada a comparação numérica de períodos tão diferentes da vida política baiana. Mas é certo que a maioria mais confortável sempre nos dá mais segurança para governar.

  • Domingo, 11 Setembro 2011 / 18:10

Lula pede votos na Suiça

     Do Radar, da ‘Veja’:
     “Lula virou cabo eleitoral do irmão  do ministro do STF Ricardo Lewandowski, que é candidato a deputado na Suíça por um partido de centro-direita. A frase anterior parece o samba do suíço doido, mas é isso mesmo: Marcel, irmão de Rícardo Lewandowski, é candidato a deputado no Parlamento suíço pelo BDP nas
eleições do fim do mês que vem. Na semana passada, Marcel surpreendeu Lula em Lisboa com um pedido de apoio. Foram feitas fotos dos dois abraçados e a gravação de uma fala do ex-presidente em que pede votos para MarceI. Se isso vai resultar em votos, são outros quinhentos”.

  • Domingo, 11 Setembro 2011 / 18:09

11/9/2011

“Pensei que fosse o começo da terceira guerra mundial”

Do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, sobre o ataque as torres gêmeas de Nova York, no dia 11 de setembro de 2001.

  • Domingo, 11 Setembro 2011 / 18:08

Novo PSD será maioria no Rio

    De Renata Lo Prete, no Painel, da ‘Folha’:
    “Com fissuras internas abertas ou agravadas pela “faxina” de Dilma Rousseff, PP e PR serão os alvos preferenciais do assédio do nascituro PSD tão logo o Tribunal Superior Eleitoral libere o registro definitivo da sigla de Gilberto Kassab, abrindo uma janela de 30 dias de trocas partidárias livres da regra da fidelidade. A depender do saldo da temporada de transferências, a legenda do prefeito paulistano poderá dar a largada no Congresso com até mais do que os já anunciados 50 deputados e próxima de alcançar, com o beneplácito do Planalto, o posto de terceira maior bancada, atrás apenas do PT e do PMDB.
Quando oficializado, o PSD terá a maior bancada na Assembleia do Rio, com 13 deputados. O PMDB tende a ficar com 11″.

  • Domingo, 11 Setembro 2011 / 18:07

Padre Marcelo vende 6 milhões de livros

        Do repórter Morris Kachani, da ‘Folha’:
        “Embalado por “Sunday Bloody Sunday”, do U2, padre Marcelo corria a 9 km/hora na esteira de sua casa em 29 de abril do ano passado quando deu um passo em falso e se acidentou. Foi uma lesão séria no tornozelo.
“Chorei uma semana inteira. Até pensei que foi por inveja”, diz. Três dias antes ele havia sido convidado para uma palestra particular com o papa Bento 16 no Vaticano.
Quando o papa passou pelo Brasil, os dois mal se conheceram – muito por conta da má-fé dos organizadores, segundo o padre Marcelo.
Entre fazer uma cirurgia -e não ir a Roma- ou tentar a recuperação com medicação pesada, o padre optou pelo segundo caminho. Inchou 12 quilos, desafiou o estômago, mas visitou o papa.
A vida na cadeira de rodas lhe trouxe uma nova perspectiva. “Fiquei com princípio de depressão. Primeiro eu tentei jogar Playstation ‘pra’ passar o tempo, mas desisti. Busquei escrever, o que jamais faria porque sou muito agitado.”
Assim nasceu o livro “Ágape”, espécie de diário escrito em dois meses, e que em 13 vendeu 6 milhões de cópias a R$ 19,90 segundo Mauro Palermo, diretor da editora Globo, responsável pelo título.
Editores de best-sellers ouvidos pela Folha acreditam que nenhum livro lançado no país atingiu esse número em um período tão curto.
“O livro traz uma linguagem de fácil compreensão, situações do cotidiano e sugestões de orações. É quase um manual de instruções assinado por uma figura carismática”, diz Palermo.
O padre usa o livro na missa dominical transmitida ao vivo pela TV Globo e no programa matinal diário que mantém na rádio Globo AM.
A turnê por 42 cidades do país também ajudou. Padre Marcelo contabiliza 400 mil dedicatórias nesses eventos.
Considera que metade de seu público é da emergente classe C. O valor dos royalties ele não divulga -diz que ganhou “milhões e milhões”. Mas é consenso no mercado de que menos do que 10% a 15% do valor de capa -ou seja, de R$ 12 milhões a R$ 18 milhões- certamente não foi.
Todo esse dinheiro de acordo com o padre é revertido para a construção de um santuário com capacidade para 100 mil pessoas, que está sendo erguido em Interlagos. “São milhões que poderiam ficar comigo, mas é o sonho de minha vida”, afirma.
“O livro foi fundamental nesse sentido. Imagine o Itaquerão, veja o preço que é a obra. Somente nosso terreno valeu R$ 6 milhões, hoje vale R$ 40 milhões”. E afirma: “Nossa atividade não pode mesmo ser tributada. Só nos custos de manutenção você teria um elefante branco”.
O santuário ocupa 6.000 m² de área construída e 25 mil de externa. Será o maior templo da Igreja Católica no Brasil, superando Aparecida. Só de vagas de estacionamento, haverá 5.000. O projeto prevê uma cripta embaixo do altar, onde o padre pretende ser sepultado (com seus companheiros de diocese).
A inauguração está prevista para dezembro, quando cerca de 60% da obra estiver concluída. Até lá, padre Marcelo trabalha duro na divulgação do novo CD, que acaba de ser lançado com 430 mil cópias pela gravadora Sony.
O CD consiste em uma extensão do livro e por isso leva o mesmo título. “É um CD contemplativo. Você o coloca para tocar e ele leva você ao ágape, que em grego antigo significa amor divino”, diz.
Mais de 30 músicas foram testadas no “fantástico laboratório humano” (sic) de sua missa semanal para 60 mil pessoas. “Pretendo atingir os ‘católicos à toa’”, diz.
Sobre a pirataria, o padre é direto: “Piratear é crime. E crime é pecado. É por isso que as gravadoras investem no gospel, porque ninguém vai comprar pirata”.
Recentemente, padre Marcelo acidentou-se novamente na esteira. Quase teve que operar o menisco. No momento usa bengala. Não se sabe se Deus lhe concederá a graça de escrever “Ágape 2″.

  • Quinta-feira, 08 Setembro 2011 / 13:16

O governador do Projac

                                                    Ricardo Melo*
          A nova tentativa de resolver questões sociais como casos de polícia fracassou no Rio, com a volta dos conflitos nos morros.
Criadas com alarde, as tais unidades de pacificação foram apresentadas como panaceia. No papel, seriam um marco de “recivilização”, simbolizando a retomada, pelo Estado, de áreas controladas pelo crime. Tudo com direito a hasteamento de bandeira, discursos inflamados e promessas de sempre.
Descoladas de qualquer programa social digno desse nome, as UPPs, no entanto, rapidamente se transformaram em meros postos policiais, com direito a todos os vícios destas repartições. Nesta semana, por exemplo, PMs supostamente pacificadores foram presos com uma dinheirama cuja origem não sabiam explicar.
Na falta de efetivos da PM, o Exército prolongou sua estadia nos morros e age como foi treinado: como força de ocupação. Os soldados atiram em civis à queima-roupa, por ora com balas de borracha, mas amanhã sabe-se lá com o quê. Toque de recolher virou rotina, assim como os tanques desfilando pelas ruas diante de civis entre esperançosos e, sobretudo, apavorados.
Sobressai a insistência do governo Cabral em vender a ideia de que a única alternativa aos criminosos é reforçar o aparato repressivo. Nem isso, aliás, tem sido feito. Pergunte quantos traficantes de verdade foram encarcerados desde que começou o frenesi pacificador.
Os números serão desapontadores.
Como governante, Sérgio Cabral é um prodígio de ator. Só lhe falta crachá do Projac. Faz cara de paisagem ao misturar negócios públicos com jatos privados. Chama bombeiros de vândalos e depois pede desculpas ao perceber a gafe. Toma chá de sumiço quando um bonde estatal descarrila e mata seis, mas vai às lágrimas ao defender royalties para o Rio. Já viveu até seu momento Salim Curiati, quando defendeu esterilizar os pobres para combater a criminalidade. Tente agora lembrar uma iniciativa social de peso de sua autoria. A memória vai ficar girando em falso.
*Ricardo Melo é jornalista da ‘Folha’.

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