• Segunda-feira, 27 Dezembro 2010 / 13:23

Lula deixa saudades

     Dos repórteres Johanna Nublat e Simone Iglesias, da ‘Folha’:
Olá, presidente. O senhor mostrou que os políticos não são todos iguais. Estudei pelo ProUni e me formo em 2011. Obrigado por ajudar esse povo tão sofrido e parabéns pela eleição da Dilma. Sei que no dia 1º o senhor não será mais presidente, mas espero que volte. A propósito, venha conhecer nosso projeto social. Um abraço!
O trecho acima reúne frases de diferentes cartas e e-mails recebidos pela Presidência da República desde abril deste ano, com mais intensidade a partir de agosto.
O objetivo é dar um caloroso adeus, ou ao menos “até logo”, ao presidente mais bem avaliado no pós-ditadura, Luiz Inácio Lula da Silva.
Até meados de novembro, o volume da correspondência somava cerca de 1.700 mensagens, enviadas de todos os Estados, por homens, mulheres, crianças e idosos.
Não falta, também, quem queira convidar o petista, depois de deixar a Presidência, para inaugurações, visitas e projetos sociais.
Esses recadinhos, às vezes recolhidos em eventos em que Lula comparece, se somam à média de 250 mensagens diárias que chegam ao Palácio do Planalto desde o início do governo petista.
Na presença da reportagem, as mensagens de despedida foram abertas, de forma aleatória, pelo responsável pela documentação histórica da Presidência, Cláudio Rocha. Todas elas eram elogiosas ao presidente.
Somente uma tecia críticas ao PT, “comprado por outros partidos”, segundo alguém escreveu de Marília (SP).
Mais de 70% das mensagens chegaram por e-mail, 80% foram escritas por adultos com até 60 anos e mais de 50% foram enviadas de São Paulo, do Rio de Janeiro e de Minas Gerais.
Do Estado natal do presidente, Pernambuco, chegaram 18 cartas e 91 e-mails.
O tom é geralmente informal, muitas vezes usando “você” como tratamento e um “olá, presidente”.
Em outros casos, o remetente exagera na tentativa de formalidade e embaralha as letras ao experimentar um “excelentíssimo senhor”.
O “companheiro”, usado com frequência no início do governo do PT, foi abandonado nos últimos anos.
As mensagens recebidas são catalogadas pela Presidência e dificilmente chegam às mãos do destinatário. No máximo, são lidas pelo chefe de gabinete do presidente, Gilberto Carvalho.
Agora, ao fim de seu governo, Lula vai recebê-las e direcioná-las para seu instituto, ainda a ser criado. O mesmo acontecerá com os presentes.
Lula foi o destinatário do e-mail número 1 de um menino de oito anos de Santa Catarina. “Sempre desejei falar com você, estou usando o computador da minha avó. Estou muito nervoso”, disse.
Depois da introdução, o garoto discorreu sobre o sofrimento com a saída do petista e agradeceu pelo “país que temos hoje”.
Ao se despedir, mandou um abraço para a presidente eleita, Dilma Rousseff, e outro para a primeira-dama, Marisa Letícia.
Em outro e-mail elogioso, uma senhora de 73 anos escreveu para dizer que é admiradora de Lula “desde os tempos do sindicato” e aproveitou para fazer um apelo pelo filho, preso fora do país.
Pedidos pessoais como esse são recorrentes. A Folha se deparou até com uma demanda para resolver uma dificuldade com consórcio.
O mais comum nas mensagens lidas pela reportagem é que o remetente diga apenas “olá” e “adeus”. Caso da criança que mandou um e-mail no aniversário de Lula, em 27 de outubro. “Apesar de ser criança, sempre soube que o país ia mudar. O senhor é o melhor presidente que o Brasil já teve (…) Não me canso de agradecer.”

  • Segunda-feira, 27 Dezembro 2010 / 13:22

Quem não atende Lula?

     De Renata Lo Prete, no Painel da ‘Folha’:
“Ao ouvir Lula ensaiar sua enésima despedida do poder, na cerimônia de balanço dos oito anos de governo, um ministro olhou para o colega ao lado e disse, com um suspiro:
-Ele está indo embora mesmo…
O outro retrucou:
-É, mas se ele ligar pra você depois de 1º de janeiro, eu aposto que você vai atender, não vai?”

  • Segunda-feira, 27 Dezembro 2010 / 13:20

O discreto homem forte de Dilma

      Dos repórteres Denise Rothenburg e Ivan Iunes, do ‘Correio Braziliense’:
“Quero você na Vice-Presidência do Banco do Brasil”, disse o presidente Lula ao deputado federal Geraldo Magela (PT-DF), que saiu do encontro todo contente, disposto a aceitar o cargo. Dias depois, Magela receberia um telefonema do então coordenador-geral da transição, Antônio Palocci, convidando-o para uma conversa. “Sei que o presidente convidou você para vice do Banco do Brasil, mas falei com ele e precisamos de alguém talentoso para fazer acontecer o Banco do Povo. Seu nome é o ideal (…).” Foi assim que Palocci, numa única conversa, deslocou Magela de uma das vice-presidências do BB, onde queria ver pessoas mais afeitas ao mercado, para o chamado Banco do Povo.
O episódio, durante a formação do segundo escalão do governo Lula, é apontado por vários integrantes do PT como revelador da forma de atuar do futuro ministro da Casa Civil. Palocci não bate de frente nem briga por pequenas coisas. Libriano de 4 de outubro — completou 50 anos este ano — é tido por seus companheiros de partido como detentor de um estilo conciliador, capaz de levar o interlocutor a fazer o que ele deseja sem deixar transparecer que saiu ganhando no episódio. Quem melhor o definiu essa semana foi o deputado Devanir Ribeiro (PT-SP), que, numa conversa com amigos, declarou: “Palocci é política pura”.
Devanir resumiu numa frase a área em que Palocci se sente melhor atuando. Tanto é que, inicialmente, queria ficar na secretaria-geral da Presidência, deixando todas as atribuições administrativas palacianas a cargo da Casa Civil. Assim, estaria dedicado à macropolítica estratégica do governo, como gostaria. Ocorre que Dilma não abriu mão de tê-lo na Casa Civil. Durante a composição do ministério, a presidente eleita não dispensou a presença de Palocci no cargo que ela própria ocupou. Mesmo na campanha, era sempre ele o convidado a acompanhá-la no carro. Na primeira imagem depois de ser eleita, quando saiu de casa para discursar em um hotel, lá estava Palocci a acompanhá-la no veículo. Para muitos, um gesto marcante da importância que ela dá às avaliações do ex-ministro da Fazenda de Lula.
Palocci é considerado um político de poucas palavras e de ação direta. Talvez por isso, tenha sido o único colaborador de Dilma presente em todas as conversas com os partidos aliados e tendências petistas. Era ele quem, geralmente, introduzia os assuntos: “Bem, a presidenta os chamou aqui porque deseja saber se o senador Alfredo Nascimento é o nome que o PR escolheu para ocupar o Ministério dos Transportes”, perguntou ele à cúpula partidária, líderes, deputados e senadores chamados a chancelar a nomeação. Diante da concordância geral, passava a palavra para Dilma.
No caso do PCdoB, foi ele quem terminou convencendo Dilma a manter Orlando Silva no Ministério do Esporte, como forma de conciliar o interesse do partido, uma vez que a Autoridade Pública Olímpica enfrenta dificuldades para ser aprovada não apenas no Congresso Nacional, mas também pela Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Orlando esteve discretamente com Palocci no domingo anterior ao anúncio de sua permanência no cargo. No Congresso e entre futuros e atuais ministros, ninguém duvida que Palocci ficará com a macropolítica enquanto o futuro ministro da Secretaria de Relações Institucionais (SRI), Luiz Sérgio (PT-RJ), cuidará do dia a dia com os parlamentares, leia-se, emendas ao Orçamento.
Luiz Sérgio é do grupo do deputado José Dirceu, com quem Palocci teve duras divergências quando era ministro da Fazenda. Dirceu e Aloizio Mercadante discordavam da política econômica de metas de inflação, juros altos e superavit primário elevado, uma cartilha seguida também pelos tucanos, que Palocci implantou no governo Lula. Também torceram o nariz quando Palocci chamou o tucano Henrique Meirelles para o Banco Central — o ex-banqueiro do Banco de Boston havia acabado de eleger-se deputado federal pelo PSDB-GO. Ironia do destino, foi de Palocci também o convite à mineira erradicada no Rio Grande Sul, Dilma Rousseff, para que fosse trabalhar na equipe de transição de Lula.
Em suas divergências com Dirceu, Palocci nunca partiu para o confronto direto — ao menos à luz do dia. Por temperamento e pela personalidade forte, porém reservada, raramente deixa o interlocutor saber de cara o que ele está pensando. Sempre quando fala é porque já decidiu. Depois de se envolver no caso da quebra do sigilo do caseiro Francenildo Costa, fechou-se ainda mais em copas, a ponto de raramente falar com a imprensa. “Acredito que o Palocci deixou-se contaminar naquela ocasião pelos planos futuros, alimentados por Lula, e foi afoito. Agora, não alimenta as mesmas ambições de antes e volta ao governo mais maduro”, aposta um deputado petista eleito por São Paulo. Ao longo dos últimos anos, o caráter mais reservado foi vital para Palocci focar em sua defesa no Supremo Tribunal Federal (STF), diante do caso Francenildo. Não fosse o episódio, que ocorreu quando era o homem forte do governo e ministro da Fazenda, possivelmente seria ele e não Dilma o candidato ungido por Lula para sucedê-lo”.

  • Domingo, 26 Dezembro 2010 / 20:58

Ary Barroso e a ministra da Cultura

       Existem certas pessoas que mereceriam uma estátua.
Uma delas chama-se Omar Jubran, professor aposentado de Biologia, que adora musica e, sem filhos, resolveu adotar Noel Rosa, Ary Barroso e Lamartine Babo.
Noel foi o primogênito.
Durante 11 anos, ele pesquisou a obra musical de Noel e conseguiu, com seus próprios e parcos recursos, reunir as 227 gravações originais do ‘Filósofo do Samba’.
Foi um trabalho monstruoso. Para concluí-lo, Omar teve de vender até o velho Fusca que o levava para o trabalho na faculdade.
Omar chegou a colar um disco de 78rpm partido em três partes. E o trabalho deu certo.
Apreendeu, por sua conta, a técnica de remasterização, e deu ao país uma caixa com a obra completa de Noel em 14 CDs.
Um detalhe: ele não ganha um único tostão por caixa vendida.
                    * * *
Há seis anos, Omar fez o mesmo trabalho com o filho do meio, Ary Barroso. São mais de 300 gravações originais que ocupam 20 CDs.
Patrocinio para editá-los?
Nenhum. Só promessas.
Sergio Cabral, o bom, já chegou a fazer um apelo publico para o magnata Eike Batista: “Tomara que ele goste do Ary Barroso”, brincou Cabral.
                     * * *
Há quatro semanas, Omar Jubran relatou sua saga para uma platéia amante de Noel, na Casa de Rui Barbosa, no Rio.
Nos debates, ele respondeu a uma única pergunta. Era de uma jovem senhora que já conhecia o seu drama, e colocou ali uma enorme escada para Omar brilhar ainda mais,  e ser aplaudido de pé.
A autora da pergunta foi Ana de Hollanda,  a toda poderosa ministra da Cultura do futuro Governo Dilma.
Ana sabe, como ninguém, da importância do trabalho de Omar Jubran.
E, agora, que está no poder, deveria eleger isso como prioridade.
Ana precisa resolver logo essa questão.
Mas precisa fazer com urgência.
Não durante o seu governo, mas nos primeiros 100 dias.
É preciso liberar Omar, para que possa nascer Lamartine Babo – o seu terceiro filho.

  • Domingo, 26 Dezembro 2010 / 20:22

O ministério Dilma

                                   Marcos Coimbra*

        Por mais que a esperemos, é sempre surpreendente a má vontade de nossa “grande imprensa” para com o governo Dilma. No modo como os principais jornais de São Paulo e do Rio têm discutido o ministério, vê-se, com clareza, seu tamanho.
A explicação para isso pode ser o ainda mal digerido desapontamento com o resultado da eleição, quando, mais uma vez, o eleitor mostrou que a cobertura da mídia tradicional tem pouco impacto nas suas decisões de voto. Ou, talvez, a frustração de constatar quão elevadas são as expectativas populares em relação ao próximo governo, contrariando os prognósticos das redações.
As críticas ao ministério que foi anunciado na última semana estavam prontas, qualquer que fosse sua composição política, regional ou administrativa. Se Dilma chamasse vários colaboradores do atual governo, revelaria sua “submissão” a Lula, se fossem poucos, sua “traição”. Se houvesse muita gente de São Paulo, a “paulistização”, se não, que “dava o troco” ao estado, por ter perdido a eleição por lá. Se convidasse integrantes das diversas tendências que existem dentro do PT, que se curvava às lutas internas, se não, que alimentava os conflitos entre elas. E por aí vai.
Para qualquer lado que andasse, Dilma “decepcionaria” quem não gosta dela, não achou bom que ela vencesse e não queria a continuidade do governo Lula. Ou seja, desagradaria aqueles que não compartilham os sentimentos da grande maioria do país, que torce por ela, está satisfeita com o resultado da eleição e quer a continuidade.
Na contabilidade matematicamente perfeita da “taxa de continuísmo” do ministério, um jornal carioca foi rigoroso: exatos 43,2% dos novos integrantes do primeiro escalão ocuparam cargos no governo Lula (o que será que quer dizer 0,2% de um ministro?). E daí? Isso é pouco? Muito? O que haveria de indesejável, em si, em uma taxa de 43,2%?
Note-se que, desses 16 ministros, apenas oito tinham esse status, sendo os restantes pessoas que ascenderam do segundo para o primeiro escalão. A rigor, marcariam um continuísmo menos extremado (se é isso que se cobra da presidente). Refazendo as contas: somente 21,6% dos ministros teriam a “cara de Lula”. O que, ao contrário, quer dizer que quase 80% não a têm tão nítida.
Para uma candidata cuja proposta básica era continuar as políticas e os programas do atual governo, que surpresa (ou desilusão) poderia existir nos tais 43,2%? Se, por exemplo, ela chamasse o dobro de ministros de Lula, seria errado?
Isso sem levar em consideração que Dilma não era, apenas, a representante abstrata da tese da continuidade, mas uma profissional que passou os últimos oito anos trabalhando com um grupo de pessoas. Imagina-se que tenha desenvolvido, para com muitas, laços de colaboração e amizade. Mantê-las em seus cargos ou promovê-las tem muito a ver com isso.
No plano regional, a acusação é quanto ao excesso de ministros de São Paulo, nove entre 37, o que justificaria dizer que teremos um “paulistério”, conforme essa mesma imprensa. Se, no entanto, fizéssemos aquela aritmética, veríamos que são 24,3% os ministros paulistas, para um estado que tem 22% da população, se for esse o critério para aferir excessos e faltas de ministros por estados e regiões.
Em sendo, teríamos, talvez, um peso desproporcionalmente positivo do Rio (com seis ministros nascidos no estado) e negativo de Minas (com apenas um). Há que lembrar, no entanto, que a coligação que elegeu a presidente fez o governador, os dois senadores e a maioria da bancada federal fluminense, o oposto do que aconteceu em Minas. O PMDB saiu alquebrado e o PT ainda mais dividido no estado, com uma única liderança com perspectiva sólida de futuro, o ex-prefeito Fernando Pimentel, que estará no ministério.
Para os mineiros, um consolo, não pequeno: a presidente Dilma nasceu em Belo Horizonte. Os ministros são poucos, mas a chefe é de Minas Gerais.
*Marcos Coimbra, sociólgo, preside o Instituto Voz Populi e escreve para o ‘Correio Braziliense’.

  • Domingo, 26 Dezembro 2010 / 20:19

Dilmoteca básica

                                               Fernando Rodrigues*
 
       No início deste ano, numa das sessões de entrevistas que concedeu à Folha, Dilma Rousseff falava sobre suas preferências no futebol. Declarou-se fã do Atlético, em Minas Gerais, e do Internacional, no Rio Grande do Sul.
Recordou-se de sua primeira vez no Maracanã, no Rio, em 1969. Um jogo do Flamengo. Estava na clandestinidade. “Eu fiquei assim abestalhada com as bandeiras. Você já viu as bandeiras?”, perguntou e já respondeu: “É de perder o fôlego”.
Mas foi uma memória seletiva. Não se lembrava do placar nem contra quem o Flamengo jogava. Com quem estava? Nenhuma lembrança.
Começou então a falar sobre como as imagens vão se colando -ou não- na memória das pessoas. “Eu fico pensando se sou eu ou se todo mundo é assim. Você sabe que eu nunca havia me lembrado disso até hoje?”, disse.
A recordação veio porque a conversa era para compor um perfil biográfico. Naquele instante, esporte e cultura popular dominavam a entrevista. Foi quando ela citou suas referências literárias.
“Sobre a memória, quem tem razão era o [Marcel] Proust. Ele falava do sabor e do odor, dois sentidos primitivos que suportam um edifício imenso da recordação”.
Descreveu o trecho do romance “Em Busca do Tempo Perdido”, publicado no início do século passado, no qual Proust fala de comer madeleines e tomar chá -e como o cheiro e o sabor desencadeiam recordações.
De todas as diferenças entre a presidente eleita, Dilma Rousseff, e o seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, uma das mais marcantes é sólida formação literária da próxima ocupante do Palácio do Planalto.
Não há um autor favorito na prateleira de Dilma. “Depende da fase”, diz. “Em matéria de poesia, eu gosto do João Cabral de Melo Neto, muito”. Aí cita Cecília Meireles, Fernando Pessoa e completa: “Agora, eu consigo além disso gostar do Bashô. Sabe quem é Bashô?”.
Com prazer, ela mesma responde: “Foi um monge japonês que inventou o haicai”. A lista de citações não para. “Gosto apaixonadamente de uma mulher chamada Emily Dickinson, “a senhora de Amherst”. Não tenho “um” gosto. Depende. Gostei do Proust para mais de metro. Agora, também adorei, aos 13 anos, quando meu pai me deu o Jorge Amado”.
O que de Jorge Amado? “Foi “Capitães da Areia” , “São Jorge dos Ilhéus”, todos os outros. Amei de paixão o Machado de Assis, mas também o Monteiro Lobato. A Emília, o Pedrinho, a Narizinho, o Visconde, a Cuca.”
Começa um diálogo sobre como dá trabalho manter uma biblioteca arrumada. No início deste ano, Dilma cogitava comprar uma casa para guardar o seu acervo.
“Eu compro muito livro, sempre mais do que consigo ler. Tenho aquela teoria de que estou fazendo um estoque. Que um dia vai chegar uma hora que eu vou ler. Então, vai que naquele momento eu não tenha condição de comprar? Vai que aconteça alguma coisa e eu não tenha condição de ficar comprando livro? Então, eu estoco.”
Ainda como ministra de Lula, participou de uma viagem à China. “Enchi a paciência do embaixador para me dizer qual era o romance chinês equivalente aos romances nossos. Qual é o Charles Dickens deles. Qual era o Balzac, o Flaubert, o Shakespeare.”
Trouxe para o Brasil um romance chinês, traduzido para o inglês. Leu com dificuldades. Três volumes. “Mas o diabo não era isso. Eram os nomes das personagens”. Como assim? “Temos uma baixíssima familiaridade com nomes chineses”, explica. Para chegar até o final e conseguir não se perder no meio da trama, uma estratégia: “Você anota todos os nomes [próprios] num papel para não se perder totalmente”.
*Fernando Rodrigues é colunista da ‘Folha’.

  • Domingo, 26 Dezembro 2010 / 20:13

Harvard moldou Obama

    Da repórter Luciana Coelho, da ‘Folha’
Bradford Berenson se lembra do sujeito que fumava tranquilo do lado de fora da Gannett House, jeans e jaqueta de couro, naquele final de verão. Um “cara sossegado do Havaí”, calado, com um quê de exotismo e sem nenhuma pinta de ambição.
Era 1989, e os ânimos andavam polarizados em Cambridge, Massachusetts. A casa em questão, a mais antiga da Faculdade de Direito de Harvard, 21 anos depois ainda abriga sua principal publicação estudantil, a “Harvard Law Review”.
Já o sujeito descrito por Berenson hoje tenta parar de fumar. E ocupa a Casa Branca. “[Barack] Obama era querido pelos colegas, mas não era um desses tipos ultra-ambiciosos que se encontra tanto em Harvard”, disse à Folha o advogado, que trabalhou no governo de George W. Bush e hoje é sócio em um escritório em Washington. “Ele era mais “cool”.”
Berenson se formou com Obama em 1991. Nos dois anos finais do curso, eles foram colegas na revista jurídica mensal da qual o democrata se tornou, em 1990, o primeiro presidente negro.
Os sentidos de “cool” citados pelo advogado são os mesmos atribuídos ao presidente hoje: por um lado sangue frio e distanciamento; por outro, o ar de cara bacana e seguro de si.
“A personalidade dele era fria em um lugar cheio de divisões e de paixões políticas e filosóficas”, recorda. “Mas era um cara que atraía as pessoas com sua calma.”
O impacto de Obama em seus professores foi forte, sobretudo nos progressistas. O renomado constitucionalista Laurence Tribe, a quem Obama tomaria como mentor, lembra-se de quando o conheceu, ainda calouro, em março de 1989.
“Ele veio ao meu gabinete discutir questões constitucionais antes mesmo de se inscrever no meu curso”, contou Tribe em e-mail à Folha. “E me impressionou tanto que, no ato, o convidei para ser meu principal assistente de pesquisa. Nunca fiz essa oferta a outro calouro.”
Em entrevista à “Gazeta de Harvard” após a eleição presidencial de 2008, a hoje reitora Martha Minow descreveu Obama como um aluno “que tinha uma eloquência e um respeito admiráveis entre os colegas”.
Ele alçou a antecessora de Minow, Elena Kagan, para a Suprema Corte. Nove outros professores da escola frequentam hoje as fileiras de seu governo.
Em 1989, porém, as aspirações de Obama ainda eram latentes. Berenson demorou a perceber que o colega, pouco afeito às discussões esquentadas da Gannett House, poderia presidir a “Law Review”. Muito menos que enveredaria pela política. A mudança, conta, se operou lá dentro.
Para David Remnick, autor da competente biografia “A Ponte” (2010), foi em Harvard que o presidente americano percebeu seu potencial e passou a alimentar uma ambição política.
Até então ele havia sido um aluno mediano. “Foi a Faculdade de Direito que o acordou politicamente”, disse Remnick à Folha.
A escola que formou 6 dos atuais 9 juízes da Suprema Corte e funciona desde 1817 é a mais antiga dos EUA ainda na ativa. Com Yale, encabeça os rankings da área.
“Essa elite o escolhe”, diz o biógrafo. E a eleição do primeiro negro para comandar a revista teve repercussão nacional. “É aí que Obama passa a ter noção de suas possibilidades na vida adulta.” Berenson lembra com ironia que um ponto que diferenciava o colega dos demais candidatos era que ele parecia “menos oportunista”.
“Quando nos formamos, já era piada corrente que ele tinha aspirações políticas.”
O “New York Times” e o “Los Angeles Times” de 6 de fevereiro de 1990 destacaram a eleição. Nas reportagens, Obama declara que o fato de ele, negro, chegar ali era “um enorme progresso”. Havia, porém, “muito por fazer”.
Mas nem o biógrafo nem o colega veem no jovem Obama o conflito interno para firmar sua identidade racial -pano de fundo de seu livro de memórias “A Origem dos Meus Sonhos” (1995).
Nessa época, ele já namorava Michelle Robinson, a ex-aluna de Harvard com quem se casaria em 1992 e que conhecera no estágio de verão em um escritório de Chicago.
Após a formatura, rejeitou convites de escritórios renomados e a chance de ser assistente de um juiz na Suprema Corte dada aos presidentes da “Law Review”. Preferiu um escritório menor, de direitos civis, em Chicago.
“Menos de 1 em cada 100 estudantes recusa essa chance”, comenta Berenson. “Já era um sinal claro de que ele pretendia seguir na política.”
Tivesse escolhido uma cidade maior para atuar, avalia Remnick, sua ambição poderia acabar esmagada.
Durante o crucial período editando a “Law Review”, Obama ganharia fama de conciliador. Como agora, os ânimos estavam acirrados.
“Era um ambiente político muito azedo na Faculdade de Direito, e a resenha condensava isso”, conta Berenson.
Ação afirmativa e raça eram debates quentes. “Os alunos discutiam sobre a nomeação de professores. As pessoas se davam bem, mas, nas salas de aula e na revista, havia uma dose de conflito.”
O advogado afirma que o presidente era respeitado e estimado na ala direitista da publicação. Quem se irritava, diz, era a esquerda mais radical -situação ecoada hoje na crítica progressista de que Obama esmoreceu.
“Era claro que ele era de esquerda, mas na edição da revista ele era muito mais pragmático e conciliador do que combativo”, descreve.
Por isso, Berenson não esperava o que chama de “o presidente ideológico” dos primeiros 20 meses de governo (os dois não eram próximos, embora tenham mantido contato esporádico).
Para o ex-colega, “o Obama que vimos desde a eleição legislativa em novembro”, quando o governo perdeu para os republicanos a maioria na Câmara, “se parece muito mais com aquele Obama da “Law Review’”.

  • Domingo, 26 Dezembro 2010 / 20:12

Maluf fez doação a Tancredo

    Do repórter Rodrigo Vizeu, da ‘Folha’:
“Tancredo Neves e Paulo Maluf se enfrentaram no colégio eleitoral que escolheu indiretamente o mineiro como primeiro presidente civil após a ditadura militar, em 1985. Três anos antes, porém, foi de Maluf que Tancredo recebeu uma doação para ajudar a bancar sua campanha a governador de Minas.
A história está no documentário “Tancredo – A Travessia”, do cineasta Silvio Tendler. A Folha assistiu a uma cópia do filme, que está em fase de finalização e ainda sem data de lançamento.
A doação foi revelada pelo sobrinho de Tancredo e senador Francisco Dornelles (PP-RJ). Maluf, hoje deputado federal (PP-SP), confirma: “Dei-lhe uma ajuda dentro da lei”. Ele diz ter doado também à campanha de Tancredo ao Senado em 1978.
Dornelles diz que, em 1982, recorreram a Maluf após o tio relatar uma situação financeira “caótica”.
Neto do presidente, o senador eleito Aécio Neves (PSDB-MG) minimizou o caso à Folha: “Não sei se a empresa do Maluf deu alguma coisa, mas nada que tenha sido significativo”. A Justiça Eleitoral afirma não guardar os registros da época.
Tendler diz não ter decidido se o episódio vai entrar. Nega razões políticas para o eventual corte e diz que o filme está longo demais.
Em tom “hagiográfico”, o filme retrata sempre de forma positiva o estilo conciliador de Tancredo.
A Folha apurou que houve autocensura na equipe de Tendler, para não incomodar a família Neves, evitando destaque a pontos polêmicos, como a costura de Tancredo com o regime militar para viabilizar sua candidatura indireta em plena campanha das Diretas-Já.
A produtora Lara Velho diz que Aécio “acompanhou muito proximamente” o filme e deu aprovação final, sempre com liberdade. O tucano nega interferências.
O plano era exibir o documentário em 21 de abril, no aniversário da morte de Tancredo. Caso tivesse se candidatado ao Planalto neste ano, Aécio estaria em pré-campanha nesse momento.
Aécio afirma que a decisão de não lançar o filme em ano eleitoral foi dele. “Seria visto como fazer como o Lula fez. Acho que macularia, mancharia”, disse, em alusão a “Lula, o Filho do Brasil”, de Fábio Barreto, de 2010.
O diretor nega tenha intenções políticas. “Se o Aécio poderia ser candidato ou se usaria a biografia do avô como trampolim, não me passa pela cabeça. Meu problema é fazer um filme histórico.”
O documentário, que também tem a produção da Intervídeo, de Roberto D’Avila, foi patrocinado pela EBX de Eike Batista e pela fabricante de cigarros Souza Cruz”.

  • Domingo, 26 Dezembro 2010 / 20:06

Dilma do Brasil

                                    Paulo Delgado*

     O altruísmo, coragem e a fé de Ester, rainha judia da Pérsia na antiguidade, podem marcar a entrada triunfal das mulheres no sistema de poder do mundo. Matriarcados, dinastias, impérios, reinados, guerras, casamentos e eleições em variadas formas de repúblicas e monarquias são os caminhos para o poder desde sempre. Dia 1º de janeiro, com a posse de Dilma Vana Rousseff, o Brasil entra para o minoritário clube de 25 países do mundo atual com mulheres na direção do poder central. Várias delas pela primeira vez. Algumas poderosas desde 1956, como Elizabeth, do Reino Unido, rainha aos 25 anos. Outra notável marca é a de Ellen Johnson Sirleaf, da Libéria, única Chefe de Estado eleita de um país africano.
Um belo tempo para governo feminino, com esperança e legitimidade, cada país com sua singularidade, na companhia de Andrea Zafferani – capitã-regente de San Marino; Iveta Radicová – primeira-ministra da Eslováquia; Julia Eileen Gillard, da Austrália; Mari Johanna Kiviniemi, da Finlândia; Kamla Persad-Bissessar, de Trinidad e Tobago; Jadranka Kosor, da Croácia; Jóhanna Sigurõardóttir, da Islândia, e Sheikh Hasina Wazed, de Blangladesh. Laura Chinchilla Miranda – presidente da Costa Rica; Roza Isakovna Otunbayeva – presidente interina do Quirguistão; Doris Leuthard – presidente da Confederação Suíça; Dalia Grybauskaite – presidente da Lituânia; Quentin Alice Louise Bryce – governadora-geral da Austrália; Cristina Elisabet Fernández de Kirchner – presidente da Argentina; Pratibha Patil – presidente da Índia; Louise Lake-Tack – governadora-geral de Antígua e Barbuda; Angela Dorothea Merkel – chanceler da Alemanha; Tarja Kaarina Halonen – presidente da Finlândia; Calliopa Pearlette Louisy – governadora-geral de Santa Lúcia; Beatriz Guilhermina Armgard – rainha dos Países Baixos; Margrethe II – rainha da Dinamarca; Mary Patrícia MacAleese – presidente da Irlanda.
Rainha, princesa, presidente, primeira-ministra, chanceler. Soberanas, chefes de Estado, chefes de Governo. São tantas e há tantos anos marcando os países que governam. Fragmentos da história das mulheres, características de sua personalidade e sensibilidade política. Cleópatra do Egito, Marias polonesas , Marias loucas, Antonieta. Adelaide, Isabéis, Alexandras, Anas inglesas, francesas e russas. Carlotas de Portugal, Carolinas, Catarinas, Ingeborg da Dinamarca. Berengária, Elizabeths de todos os séculos. Felipa, Henriqueta, Joana, Leonor da Áustria e Espanha, Margaridas, Beatrizes, Matildes, Sophias, Sofia Dorothéia. Chandrika, Maria de Lourdes Pintassilgo; Indira Gandhi; Golda MeirMeir; Margaret Thatcher; Megawati Sukarnoputri.
Rosália, Suzana, Bertha da Borgonha. Constança, Clemência, Branca de Navarra. Bona de Luxemburgo, Cláudia, Emília, Terezas, Josefa, Luizas, Eugenias, Amélia, Ermengarda da Aquitânia, Judite da Baviera, Engelberga da Itália, Riquilda, Ricarda, Ageltrudes, Oda, Ema, Lutgarda, Grunhilda Cunegunda. Luiza Diogo, de Moçambique; Han Myung-Sook, da Coreia do Sul.
Nzinga Mdandi Kiluanji, rainha de Angola; Teofania; Conradina; dona Leopoldina de Áustria, Portugal e Brasil; Gisela; Gertrudes; Adelaide, Irene; Bárbara; princesa Isabel. Madalena, Guihermina; imperatrizes Wu Zetian; Ci”an; Cixi da China. Maria Teresa das Duas Sicílias. Suiko; Kogyoku e Saimei: uma pessoa com dois nomes, um para cada reinado. Gemmei; Gensho; Shotoku ; Meisho e Go-Sakuramach, imperatrizes do Japão. Michelle Bachelet, do Chile; Benazir Bhutto, do Paquistão; Isabel Perón, da Argentina; Mary Robson, da Irlanda; Corazón Aquino, das Filipinas; Violeta Chamorro, da Nicarágua; Tansu Ciller, da Turquia; Edith Cresson, da França; Mireya Moscoso, do Panamá.
Complexidade, diferenciação, continuidade, acumulação são conceitos chaves para aumentar nossa força institucional e confiabilidade para conhecer e construir novos caminhos de progresso e prosperidade. O novo governo começa com a boa combinação de legitimidade, possibilidade e capacidade para fazer o que o país precisa. Embalado no afeto e esperança que a mulher desperta.
*Paulo Delgado é deputado federal (PT-MG), escreveu para ‘O Globo’.

  • Domingo, 26 Dezembro 2010 / 20:03

O destino do Tapioca

     Elio Gaspari diz hoje em sua coluna que “a permanência do deputado Pedro Novais (PMDB-MA) no Ministério do Turismo e da senadora Ideli Salvatti (PT-SC) no da Pesca são um mau presságio para um governo que nem começou. Revelam ligeireza com o dinheiro da Viúva, onipotência e descaso pela opinião pública. Novais recebeu da Câmara R$2.156 por conta de uma nota fiscal do motel Caribe, de São Luís, relacionada com despesas feitas no estabelecimento durante a noite de 28 de junho. A senadora, que recebe R$3.800 mensais para custear sua moradia na Capital, cobrou à Viúva R$4.606 referentes a diárias de hospedagens no hotel San Marco, de Brasília, entre janeiro e dezembro deste ano”.
                 * * *
Gaspari tem razão, embora ele saiba muito bem que esse ministério não é para valer.
Se fosse, Orlando Silva, o da Tapioca, não continuaria ministro.
Se Novais devolverá R$ 2 mil, e Idali promete devolver quase R$ 5 mil, o que falar do ministro do Esporte que confessou despesas irregulares com o cartão de crédito do Governo no valor de quase R$ 30 mil. E por isso devolveu a importância.
                 * * *
Deixa as coisas se acalmarem, que Dilma acerta o ministério.
Sem prejuízo das cotas partidárias, tem ministro já com os dias contados.
E não são apenas esses três…

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