• Domingo, 04 Agosto 2013 / 10:21

A renúncia de Cabral

Tereza Cruvinel*

A ira das ruas já fez muitas vítimas na política, mas o primeiro a ser literalmente nocauteado é o governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB). Embora negando, ou tratando o assunto como hipótese, ele está decidido a renunciar para favorecer a candidatura do vice, Luiz Fernando Pezão (PMDB), a governador, alegando a necessidade de se afastar para viabilizar legalmente a candidatura, a deputado federal, de seu filho Marco Antônio. Aquele que o pai, protestando contra a pré-candidatura do senador Lindbergh Farias (PT) e ameaçando romper a aliança com o PT, lembrou ter “Neves” no sobrenome.
De lá para cá, tudo mudou para Cabral, que, segundo fontes do PMDB nacional, ainda tem dúvidas sobre o momento certo para deixar o cargo. Se, no início de janeiro de 2014, o que daria mais tempo de governo para o vice, ou se em abril, quando termina o prazo legal para a desincompatiblização de governantes que serão candidatos ou tenham parentes de primeiro grau com essa pretensão.
No ano passado, Cabral chegou a cogitar a renúncia para que Pezão pudesse disputar a eleição para governador no cargo. Nesse caso, sendo eleito, ele não teria direito à reeleição, tal como acontece hoje, pela mesma razão, com o governador de Minas, Antonio Anastasia (PSDB), que concluiu o segundo mandato de Aécio Neves (PSDB). Depois, desistiu e anunciou que ficaria no cargo até o fim do mandato, trabalhando pela eleição do sucessor.
Com a eclosão dos protestos, entretanto, o mundo de Cabral caiu. As grandes manifestações de junho no Rio, duramente reprimidas, hoje estão praticamente restritas à ação violenta dos vândalos e de grupos radicais, aparentemente infiltrados por mercenários do narcotráfico e de outras organizações criminosas, talvez partidárias, especulam o governador e seus aliados. O prédio em que ele mora, no Leblon, continua sendo um ponto permanente de protestos e de confrontos com a polícia, para irritação dos moradores da rua. Cabral recusou todos os apelos de correligionários e auxiliares para que fosse morar na residência oficial do Palácio das Laranjeiras. No fim de julho, as pesquisas mostraram que ele se tornara o mais impopular, numa lista de governadores vitimados pelo mau humor da população. Em São Paulo, durante a visita do papa, foi alvo de protesto em que uma faixa dizia: “Vaza, Cabral”. O sumiço do pedreiro Amarildo, depois de ter comparecido em 14 de julho ao posto policial da UPP da Rocinha, engrossou os últimos protestos com a participação de moradores da favela. O assunto esquentou na sexta-feira, com as suspeitas levantadas pela ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, de responsabilidade da PM no desaparecimento.
Nos últimos dias, Cabral ensaiou um discurso conciliador, fazendo autocrítica e declarando o desejo de dialogar. Na sexta-feira, anunciou o recuo na demolição do ginásio esportivo Célio de Barros, ao lado do Maracanã, dizendo que a própria concessão, muito criticada pelos cariocas, estava “em suspenso”. Os acenos caíram no vazio, e a sexta-feira terminou com outro ato paulista, contra ele e o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), alvejado pelas revelações da empresa Siemens, sobre a participação em um cartel que teria atuado em licitações dos governos estaduais tucanos. Por isso, é possível que agora ele também comece a ser malhado continuamente nos protestos. Os políticos vêm prevendo que as ruas não sossegarão antes da eleição.
A renúncia, que só uma virada favorável na situação de Cabral impediria, tornou-se para ele a melhor saída. Ainda que não tenha condições de disputar o Senado, como cogitado, dará a Pezão uma chance de se provar como gestor para ganhar competitividade, e abrirá caminho para o filho entrar na política. Ainda que Cabral quisesse, nenhum outro governante deseja que ele confirme esse plano agora. Se as ruas gostam e diversificam as apostas, ninguém sabe qual será a próxima pedra a cair no dominó.
*Tereza Cruvinel é jornalista e escreve no ‘Correio Braziliense”.

  • Sábado, 03 Agosto 2013 / 17:16

Luiz Paulo Horta e a simplicidade do Papa

Jorge Antonio Barros*

“A verdade é que, no fundo, no fundo, a Igreja que Cristo fundou tem dois compromissos fundamentais, que andam juntos como as duas pernas de um bípede. Um deles é estar ao lado dos humildes. Foi assim que começou o cristianismo: dando ânimo e esperança às massas que, no Império Romano, pouco podiam almejar fora da condição de escravos. O outro é fazer a ponte entre o céu e a terra. Esta talvez seja, no fundo, a primeira missão de cada igreja, cristã ou não cristã.”
O texto é de Luiz Paulo Horta, acadêmico, jornalista e, o mais importante, eterno amigo da Turma da Coluna de Ancelmo Gois, que neste sábado partiu dessa para outra muito melhor. Convivíamos com Luiz Paulo diariamente, sobretudo antes das mudanças físicas na redação do GLOBO. O pessoal da coluna ficava num módulo colado ao dos editorialistas do jornal, onde Luiz Paulo batia ponto todo dia.
Peço licença ao chefe Ancelmo, que conheceu Luiz Paulo bem antes de mim, para deixar aqui no nosso blog meu testemunho pessoal do caráter e da inteligência que marcaram a trajetória deste grande jornalista, um exemplo para várias gerações. Além desses dois atributos considerados básicos para o exercício da profissão do jornalismo, Luiz Paulo cultivava outro cada vez mais desprezado pelos homens da alta cultura deste país — a espiritualidade.
A espiritualidade de Luiz Paulo, um especialista em assuntos religiosos que sempre afirmou sua fé cristã e católica, era facilmente percebida no dia-a-dia do jornalista. Apesar de ser dono de uma cultura erudita, era na simplicidade que estava a grande virtude de Luiz Paulo. O olhar tranquilo que expressava num simples cumprimento aos colegas de redação. O jeito manso próprio dos verdadeiros sábios. E o maior legado de Luiz paulo para mim foi, sem dúvida, a fé no cristianismo. A fé de Luiz Paulo era um grande estímulo para aqueles que pretendem exercer a profissão do jornalismo sem abrir mão de princípios e valores cristãos.
Luiz Paulo era condutor de uma simplicidade bem parecida com a do Papa Francisco. Tanto assim que me intrigava como um grande jornalista como ele, membro da Academia Brasileira de Letras, ia diariamente para a redação do jornal. Trabalhava todo dia, como qualquer mortal, sendo que já havia atingido um status profissional que não requeria mais tanta labuta. Luiz Paulo transmitia a todos os que conviviam com ele uma grande paixão pelo ofício do jornalismo, através do qual cumpria religiosamente seu sacerdócio.
Lamento apenas não ter conseguido aceitar o convite que Luiz Paulo vez por outra me fazia, de tomar um chá na Academia Brasileira de Letras. O encontro ocorre sempre na hora em que as coisas começam a ferver na redação. Que ele descanse em paz.
*Jorge Antonio Barros é repórter de ‘O Globo’.

  • Sábado, 03 Agosto 2013 / 17:10

Camarotti, de Helder a Francisco

Vitor Hugo Soares*

Ligo a televisão na tarde do dia seguinte à entrevista, cara a cara, do papa Francisco ao repórter Gerson Camarotti, de repercussão planetária. Registre-se, por justiça e mérito, que a façanha apresentada domingo no Fantástico é, desde já, digna das menções e prêmios mais relevantes do jornalismo brasileiro em 2013, a começar pelo Esso.
A cena inicial que vejo na telinha do canal privado Globo News é comovente: modestamente sentado no sofá do Estúdio I, programa diário comandado por Maria Beltrão (que não perco por nada), o autor do feito destinado a marcar época na imprensa do País, fala sobre os bastidores da entrevista com simplicidade e despojamento de vaidades mais que franciscanos. Incomum no meio, nestes dias de soberba e arrogância.
Sintonizo o canal no momento exato em que o jornalista fala de suas dificuldades para conseguir a conversa com Francisco. A começar pelos obstáculos criados dentro do próprio Vaticano, que desaconselhava exclusividade a um profissional brasileiro, mesmo sendo ele um jornalista da maior credibilidade e larga experiência junto as melhores fontes do clero católico no Brasil e fora do País.
Escuto o repórter dizer que ficou surpreendido diante da constatação de que o papa já havia lido trechos de seu livro. “Fiquei muito surpreso, porque eu cheguei com o livro com uma dedicatória muito carinhosa para ele. Eu o comparava a um arcebispo da minha cidade, Dom Hélder Câmara, já falecido, e aí ele falou: “nossa, mas eu já li vários trechos do livro’.
O repórter conta mais: Aí eu perguntei assim: ‘mas está bom, é isso mesmo?’, e ele falou assim: ‘Como é que você sabe tanta coisa?’, então não deixou de ser um cartão de visitas para o Santo Padre”, conclui Camarotti em relato depois reproduzido em O Globo.
Devo registrar, no entanto, que foi a comparação que o repórter fez de Francisco com Dom Helder Câmara o que (por experiência própria e profissional) mais impactou o jornalista que assina estas linhas de opinião.
São perfeitas e exatas (como se requer de um bom repórter) as palavras comparativas de Camarotti. Principalmente quando alguém que viveu (pessoal ou profissionalmente) os dois momentos separados por décadas, revê discurso e ação do destemido papa argentino destes tempos temerários, com as do corajoso e revolucionário religioso brasileiro em épocas tenebrosas.
Assim, a memória me transporta para uma manhã ensolarada nos anos 70. De férias no jornal onde trabalhava então, em Salvador, estava hospedado na casa de um casal de queridos amigos numa praia de Olinda. Saímos os três, no “fusquinha” do casal, para dar um passeio em Recife, com parada obrigatória no barzinho da “Livro Sete”, então a maior, melhor e mais interessante livraria do Nordeste.
Na passagem diante de uma as igrejas de Olinda, a cena surpreendente e inusitada para mim, mas bastante comum para os dois amigos pernambucanos:
De batina ( ele não abria mão da vestimenta tradicional), próximo a um poste da rede elétrica, vejo o “Dom”, como todos os chamavam em sua diocese. No jeito de quem espera alguém conhecido ou uma carona.
“Sozinho e Deus”, penso com as palavras da minha mãe, ainda sem acreditar: estava ali bem na minha frente o religioso brasileiro mais perseguido pela ditadura, sempre vigiado e cercado por temidos inimigos de então.
“Vamos dar uma carona ao Dom”, disse o amigo ao volante do fusca, acostumado a conduzir o bispo pela diocese outras vezes. Ao ver o conhecido, o religioso se aproxima da janela da frente do fusca .”Obrigado, meu filho, mas desta vez vou dispensar a sua carona.Estou aguardando outro conhecido que vai me levar, de carro, a uma reunião distante daqui do centro de Olinda.
Meu amigo insiste: “Mas Dom, a praça aqui está bem deserta, quase ninguém por perto, o senhor não teme por sua segurança?”. E a resposta serena sem tirar o sorriso do rosto: “Medo de que, de quem. Meus diocesanos, como você agora, me alertam, me protegem , me ajudam a todo momento. Que segurança maior posso querer?”
E a despedida mais surpreendente ainda: “Vá tranqüilo para o Recife, ninguém vai me matar ou fazer mal. Os inimigos da minha ação pastoral, da minha pregação, do meu jeito de ser padre, teriam mais problemas, ainda, se algo mais violento assim me acontecesse. Obrigado, mais uma vez pela generosa oferta da carona. Vou rezar por vocês”.
Quem mais parecido com o papa Francisco? Obrigado Gerson Camarotti, pelo feito histórico no jornalismo e pela maravilhosa lembrança do Dom.
*Vitor Hugo Soares é jornalista. Editor do site blog Bahia em Pauta.

  • Quarta-feira, 24 Outubro 2012 / 21:58

A vertigem do Supremo


Os ministros do STF deliraram: não houve o desvio de 73,8 milhões de reais do Banco do Brasil, viga mestra da tese do mensalão.

Raimundo Rodrigues Pereira*

A tese do mensalão como um dos maiores crimes de corrupção da história do País foi consagrada no STF. Veja-se o que diz, por exemplo, o presidente do tribunal, ministro Ayres Britto, ao condenar José Dirceu como o chefe da “quadrilha dos mensaleiros”. O mensalão foi “um projeto de poder”, “que vai muito além de um quadriênio quadruplicado”. Foi “continuísmo governamental”, “golpe, portanto”. Em outro voto, que postou no site do tribunal dias antes, Britto disse que o mensalão envolveu “crimes em quantidades enlouquecidas”, “volumosas somas de recursos financeiros e interesses conversíveis em pecúnia”, pessoas jurídicas tais como “a União Federal pela sua Câmara dos Deputados, Banco do Brasil-Visanet, Banco Central da República”.
Britto, data vênia, é um poeta. Na sua caracterização do mensalão como um crime gigante, um golpe na República, o que ele chama de Banco do Brasil-Visanet, por exemplo?
É uma nova entidade financeira? Banco do Brasil a gente sabe o que é: é aquele banco estatal que os liberais queriam transformar em Banco Brasil, assim como quiseram transformar a Petrobras em Petrobrax,
porque achavam ser necessário, pelo menos por palavras, nos integrarmos ao mundo financeiro globalizado.
De fato, Visanet é o nome fantasia da Companhia Brasileira de Meios de Pagamento, responsável, no Brasil, pelos cartões emitidos com a chamada bandeira Visa (hoje o nome fantasia mudou, é Cielo). Banco do Brasil-Visanet
não existia, nem existe; é uma entidade criada pelo ministro Britto. E por que, como disse no voto citado, ele a colocou junto com os mais altos poderes do País – a União Federal, a Câmara dos Deputados e o Banco Central
da República? Com certeza porque, como a maioria do STF, num surto anti-corrupção tão ruim quanto os piores presenciados na história política do País, viu, num suposto escândalo Banco do Brasil-Visanet, uma espécie
de revelação divina. Ele seria a chave para transformar num delito de proporções inéditas o esquema de distribuição, a políticos associados e colaboradores do PT, de cerca de 50 milhões de reais tomados de empréstimo, de dois bancos mineiros, pelo partido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
No dia 13 de julho de 2005, menos de um mês depois de o escândalo do mensalão ter surgido, com as denúncias do deputado Roberto Jefferson, a Polícia Federal descobriu, no arquivo central do Banco Rural, em Belo
Horizonte, todos os recibos da dinheirama distribuída. Delúbio Soares, tesoureiro do PT, e Marcos Valério, um empresário de publicidade mineiro, principais operadores da distribuição, contaram sua história logo depois. E
não só eles como mais algumas dezenas de pessoas, também envolvidas no escândalo de alguma forma, foram chamadas a depor em dezenas de inquéritos policiais e nas três comissões parlamentares de inquérito que o
Congresso organizou para deslindar a trama.
Todos disseram que se tratava do famoso caixa-dois, dinheiro para o pagamento de campanhas eleitorais, passadas e futuras. Como dizemos, desde 2005, tratava-se de uma tese razoável. Por que razoável, apenas? Porque
as teses, mesmo as melhores, nunca conseguem juntar todos os fatos, sempre deixam alguns de lado. A do caixa-dois é razoável. O próprio STF absolveu o publicitário Duda Mendonça, sua sócia Zilmar Fernandes e vários petistas, que receberam a maior parte do dinheiro do chamado valerioduto, porque, a despeito de proclamar que esse escândalo é o maior de todos, a corte reconheceu tratar-se, no caso das pessoas citadas, de dinheiro para campanhas eleitorais. E a tese do caixa-dois é apenas razoável, como dissemos também, porque fatos ficam de fora.
É sabido, por exemplo, que, dos 4 milhões recebidos pelo denunciante Roberto Jefferson – que jura ser o dinheiro dele caixa dois e o dos outros, mensalão – uma parte, modesta é verdade, foi para uma jovem amiga de um velho dirigente político ligado ao próprio Jefferson e falecido pouco antes. Qualquer criança relativamente esperta suporia também que os banqueiros não emprestaram dinheiro ao PT porque são altruístas e teria de se
perguntar porque o partido repassou dinheiro ao PTB, PL e PP, aliados novos, e não ao PSB, PCdoB, aliados mais fiéis e antigos. Um arguto repórter da Folha de S. Paulo, num debate recente sobre o escândalo, com a
participação de Retrato do Brasil, disse que dinheiro de caixa-dois é assim mesmo. E que viu deputado acusado de ter recebido o dinheiro do valerioduto vestido de modo mais sofisticado depois desses deploráveis
acontecimentos.
O problema não é com a tese do caixa-dois, no entanto. Essa é a tese dos réus. No direito penal brasileiro, o réu pode até ficar completamente mudo, não precisa provar nada. É ao ministério público, encarregado da
tese do mensalão, que cabe o ônus da prova. E essa tese é um horror. No fundo, é uma história para criminalizar o Partido dos Trabalhadores, para bem além dos crimes eleitorais que ele de fato cometeu no episódio. O escândalo Banco do Brasil-Visanet, que é o pilar de sustentação da tese, não tem o menor apoio nos fatos.
Essencialmente, a tese do mensalão é a de que o petista Henrique Pizzolato teria desviado de um “Fundo de Incentivo Visanet” 73,8 milhões de reais que pertenceriam ao Banco do Brasil. Seria esse o verdadeiro dinheiro do esquema armado por Delúbio e Valério sob a direção de José Dirceu. Os empréstimos dos bancos mineiros não existiriam. Seriam falsos. Teriam sido inventados pelos banqueiros, também articulados com Valério e José Dirceu, para acobertar o desvio do dinheiro público.
Essa história já existia desde a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) dos Correios. Foi encampada pelos dois procuradores-gerais da República, Antônio Fernando de Souza e Roberto Gurgel, que fizeram os
trabalhos da acusação. E foi transformada num sucesso de público graças aos talentos do ministro Joaquim Barbosa na armação de uma historinha ao gosto de setores de uma opinião pública sedenta de punir políticos, que em geral considerada corruptos, e ao surto anticorrupção espalhado por nossa grande mídia, que infectou e levou ao delírio a maioria do STF.
Por que a tese do mensalão é falsa? Porque o desvio dos 73,8 milhões de reais não existe. A acusação disse e o STF acreditou que uma empresa de publicidade de Valério, a DNA, recebeu esse dinheiro do Banco do Brasil
(BB) para realizar trabalhos de promoção da venda de cartões de bandeira Visa do banco, ao longo dos anos 2003 e 2004. E haveria provas cabais de que esses trabalhos não foram realizados.
A acusação diz isso, há mais de seis anos, porque ela precisa de que esse desvio exista. Porque seria ele a prova de serem os 50 milhões de reais do caixa dois confessado por Delúbio e Valério inexistentes e de os
empréstimos dos bancos mineiros ao esquema Valério-Delúbio serem falsos e decorrentes de uma articulação política inconfessável de Dirceu com os banqueiros. Ocorre, no entanto, que a verdade é oposto do que a acusação diz e o STF engoliu. Os autos da Ação Penal 470 contêm um mar de evidências de que a DNA de Valério realizou os trabalhos pelos quais recebeu os 73,8 milhões de reais.
No nosso site na internet, RB está apresentando, a todos os interessados em formar uma opinião mais esclarecida sobre o julgamento que está sendo concluído no STF, um endereço onde pode ser localizada a mais completa
auditoria sobre o suposto escândalo BB-Visanet. Nesse local o leitor vai encontrar os 108 apensos da AP 470 com os trabalhos dessa auditoria. São documentos em formato pdf equivalentes a mais de 20.000 páginas e
foram coletados por uma equipe de 20 auditores do BB num trabalho de quatro meses, de 25 de julho a 7 de dezembro de 2005 e depois estendido com interrogatórios de pessoas envolvidas e de documentos coletados ao longo de 2006.
A auditoria foi buscar provas de que o escândalo existia. Mas, ao analisar o caso, não o fez da forma interesseira e escandalosa da procuradoria geral da República e do relator da AP 470 Joaquim Barbosa, empenhados em
criminalizar a ação do PT. Fez um levantamento amplo do que foram as ações do Fundo de Incentivo Visanet (FIV) desde sua criação em 2001.
Um resumo da auditoria, de 32 páginas, está nas primeiras páginas do terceiro apenso (Vol. 320). Resumindo-a mais ainda se pode dizer que:
* As regras para uso do fundo pelo BB têm duas fases: uma, de sua criação em 2001 até meados de 2004, quando o banco adotou como referencial básico para uso dos recursos o Regulamento de Constituição e Uso do FIV da Companhia Brasileira de Meios de Pagamento (CBMP); e outra, do segundo semestre de 2004 até dezembro de 2005, quando o BB criou uma norma própria para o controle do fundo.
* Entre 2001 e 2004, a CBMP pagou, por ações do FIV programadas pelo BB, aproximadamente 150 milhões de reais – 60 milhões nos anos 2001-2002, no governo Fernando Henrique Cardoso, portanto; e 90 milhões nos
anos 2003-2004, no governo de Luiz Inácio Lula da Silva. E, nos dois períodos, sempre 80% dos recursos foram antecipados pela CBMP, a pedido do BB, para as agências de publicidade contratadas pelo banco.
* O BB decidiu, em 2001, por motivos fiscais, que os recursos do FIV não deveriam passar pelo banco. A CBMP pagaria diretamente os serviços através de agências contratadas pelo BB. A DNA e a Lowe Lintas foram as
agências, no período 2001-2002. No final de 2002 o BB decidiu especializar suas agências e só a DNA ficou encarregada das promoções do FIV. Os originais dos documentos comprobatórios das ações ficavam na CBMP, não no BB, em todos os dois períodos.
* O fato de o BB encomendar as ações mas não ser o controlador oficial das mesmas fez com que, nos dois períodos, 2001-2002 e 2003-2004, fossem identificadas, diz a auditoria, “fragilidades no processo e falhas na
condução de ações e eventos”, que motivaram mudanças nos controles de uso do fundo. Essas mudanças foram implementadas no segundo semestre de 2004, a partir de 1 de setembro.
* O relatório destaca algumas dessas “fragilidades” e “falhas”. Aqui destacaremos a do controle dos serviços, para saber se as ações de promoção tinham sido feitas de fato. Os auditores procuraram saber se existiam os
comprovantes de que as ações de incentivo autorizadas pelo BB no período tinham sido de fato realizadas.
**Procuraram os documentos existentes no próprio banco – notas fiscais, faturas, recibos emitidos pelas agências para pagar os serviços e despesas de fornecedores para produzir as ações. Descobriram que, para os dois períodos 2001-2002 e 2003-2004 igualmente, somando-se as ações com falta absoluta de documentos às com falta parcial, tinha-se quase metade dos recursos despendidos.
**Os auditores procuraram então os mesmos documentos na CBMP, que é, por estatuto, a dona dos recursos e a controladora de sua aplicação e dos documentos originais de comprovação da realização dos serviços. A falta de documentação comprobatória foi, então, muito pequena – em proporção aos valores dos gastos autorizados, de 0,2% em 2001, 0,1% em 2002, 0,4% em 2003 e 1% em 2004.
*Dizem ainda os auditores: com as novas normas, em função das mudanças feitas nas formas de controlar o uso do dinheiro do FIV pelo BB, entre janeiro e agosto de 2005 foram executadas sete ações de incentivo, no
valor de 10,9 milhões de reais e se pode constatar que, embora ainda precisassem de aprimoramento, as novas regras fixadas pelo banco estavam sendo cumpridas e os “mecanismos de controle” tinham sido aprimorados.
Ou seja: o uso dos recursos do FIV pelo BB foi feito, sob a gestão do petista Henrique Pizzolato, exatamente como tinha sido feito no governo FHC, nos dois anos anteriores à chegada de Pizzolato ao banco. E mais: foi sob a gestão de Pizzolato, em meados de 2004, que as regras para uso e controle dos recursos foram aprimoradas.
Mais reveladora ainda é análise dos apensos em busca das evidências de que os trabalhos de promoção dos cartões Visa vendidos pelo BB foram feitos. E essas evidências são torrenciais. Uma amostra dessas promoções que devem ser do conhecimento de milhares e milhares de brasileiros estão no quadro abaixo.
Em toda a documentação da auditoria existem questionamentos, são apresentados problemas. Mas de detalhes. Não é disso que se tratou no julgamento da AP 470 no entanto.
A acusação que se fez e que se pretende impor através do surto do STF é outra coisa. Quer apresentar os 73,8 milhões gastos através da DNA de Valério como uma farsa montada pelo PT com o objetivo de ficar no poder,
como diz o ministro Britto, “muito além de um quadriênio quadruplicado”. Essa conclusão é um delírio.
As campanhas de promoção não só existiram como deram resultados espetaculares para o BB tendo em vista os objetivos pretendidos. O banco tornou-se o líder nos gastos com cartões Visa no Brasil.
Em 2003, o banco emitiu 5,3 milhões desses cartões, teve um crescimento de cerca de 35% no seu movimento de dinheiro através deles, tornou-se o número um nesse quesito entre os associados da CBMP. No final do ano,
18 de dezembro, às 14h30 horas, em São Paulo, no Itaim Bibi, rua Brigadeiro Faria Lima 3729, segundo andar, sala Platinum, de acordo com ata do encontro, os representantes dos sócios no Conselho de Administração da CBMP se reuniram e aprovaram o plano para o ano seguinte. Faturamento esperado nas transações com os cartões Visa para 2004, 156 bilhões de reais. Dinheiro do FIV, ou seja: recursos para as promoções dos cartões
pelos vários bancos associados, 0,10%, ou seja 1 milésimo, desse total: 156 milhões. Parte a ser usada pelo BB, que era, dos 25 sócios da CBMP, o mais empenhado nas promoções: 35 milhões de reais.
Pode-se criticar esse esquema Visanet-BB. O governo está querendo que as taxas cobradas dos estabelecimentos comerciais pelos uso dos cartões sejam reduzidas. Na conta feita no parágrafo anterior, dos 156 bilhões de
reais a serem movimentados pelos cartões em 2004, o dinheiro que iria para o esquema Visanet-BB seria de 4% a 6% desse total, ou seja, ficaria entre 6 a 10 bilhões de reais (ou seja, a verba programada para o fundo de incentivos na promoção dos cartões foi pelo menos 40 vezes menor). A procuradoria da República e o ministro Barbosa sabem de tudo isso. Se não o sabem é porque não quiseram saber: da documentação tiraram apenas detalhes, para criar o escândalo no qual estavam interessados.
*Raimundo Rodrigues Pereira é jornalista e escreve na revista ‘Retrato do Brasil’.

  • Terça-feira, 23 Outubro 2012 / 16:13

Zé Dirceu e suas entrelinhas

Cida Torneros*

Políticos, os há, de toda sorte, ordem, origem, identificação ideológica, trajetória baseada em sorte ou oportunidade, perseverança, estilo próprio, carisma que vem de berço, ou crescente ao longo dos anos, com
simpatia respeitável ou questionável antipatia, arrogância detestada ou coragem admirada, liderança reconhecida, capacidade de engendrar estratégias e de conciliar acordos, narcisismo acalentado, poder de persuasão,
olhar futurista, sorriso largo ou contido, palavra amena ou arrebatadora, postura e presença constantes, arroubos defensivos e ataques desfechados para atiçar ou derrubar inimigos.
Um dos personagens em questão poderia ser qualquer bom profissional da política internacional ou nacional, com o nome citado nas primeiras páginas dos principais jornais que informam sobre a vida que circula nos
meandros do poder de nações ou povos ao redor do mundo e precisamente nos bastidores da performance eleitoral que o Brasil assume em regime de arregimentaçao de votos ou de simpatizantes que gerem votos para que se atinja objetivos plenos de vitórias em pleitos espalhados em cidades, estados, regiões, rincões longínquos, lugares onde a brasilidade sacode idéias e expectativas, sob a égide do embate de idéias, atitudes, propostas, números alcançados, índices atingidos, qualidade de vida ampliada ou melhorada ou ainda sonhada por centenas de milhares de criaturas cuja necessidade maior parece alicersar-se na confiança que depositara em alguém que os protegera muito mais do que os representara em postos ou cargos de comando.
Um tribunal superior, a chamada Alta Corte, acaba de condená-lo como “chefe de quadrilha”, com pompas teatralizadas e televisionadas, confundindo-se com período eleitoral e quase duas décadas de poder do PT,
partido que ele comandou e onde milita diuturnamente desde sua fundação.
Percebe-se que há desses políticos, em forma e conteúdo, sim, deles, existem aos milhares, pelo mundo, nas histórias contadas em livros biográficos ou romanceados, e nos relatos memoráveis dos bastidores, que um dia,
podem virar filmes de grande circuito, porque as histórias de políticos lendários como é o caso do Zé Dirceu, rendem sinopses atraentes ao mesmo tempo em que incitam a curiosidade dos públicos mais diversos e
atentos.
Um brasileiro cuja história pessoal se confunde com as últimas 5 décadas da vida nacional, tal a sua vocação de fênix a ressurgir dos rolos compressores em que se viu metido ao longo dos tempos, nas perseguições da
ditadura militar, na vida clandestina, na cassação, no ressurgimento à luz do comando do PT, por dezenas de anos, no papel fundamental que exerceu durante as campanhas que levaram o presidente Lula ao topo do
poder, e ainda, no efeito avassalador que a informação e a contra-informação exerceram no episódio apelidado de “mensalão”, que, a partir de 2005 espoucou como se fora um meteoro gigante a bombardear a vida republicana em pleno mandato do poder petista, prato cheio para a oposição aturdida. Agora, a condenação do STF e sua reação de bravo guerreiro a clamar que lutará para provar sua inocência.
O Zé  explode na  mídia nacional trazendo a sua figura para o primeiro plano novamente! Digno de ser observado à luz do seu tempo, da sua geração, dos modelos aos quais se viu atrelado, mas sobretudo, da capacidade de
se reinventar, como ele mesmo disse, quando tudo parece destruído por uma tempestade avassaladora, em efeito dominó de inquisição extemporânea, onde a subjetividade na interpretação da lei é facultada a um grupo seleto de senhores e senhoras que estudam o comportamento legal dos cidadãos e a eles é delegada a missão de julgar e apenar os que são réus em processos quilométricos, de zilhões de folhas, que talvez já não confundam nas barafundas das intenções, nem as almas penadas, aquelas que certamente vagam por corredores estreitos da justiça sonhada em tantas eras medievais ou antigas, modernas ou contemporâneas, justificando-se poderes e democracias com armas, guerras, bombas ou com palavras, milhares de palavras, ou ainda, com atos, atos institucionais ou institucionalizados.
Há um Zé em cada brasileiro ou brasileira que nasceu sob a égide do Gigante Adormecido que sonhava acordar para as liberdades sem arbitrariedades.  Talvez haja mais de um Zé, um mito que ultrapassou o criador, esta
criatura que venceu e perdeu, que lutou e luta, que argumenta e esbraveja, é referência de embates e como ele mesmo diz: a luta continua! O personagem é maior que o enredo, disso eu não tenho dúvida. Daí, que é preciso acompanhar detalhadamente tudo o que está nas entrelinhas da história do Zé Dirceu, para não se perder o foco das cenas de atores que fazem do Brasil um grande espetáculo em torno de seu despertar para uma fase pós colonizada. Ainda que doam as diferenças sociais, o país avança, apesar de tudo, no modelo ainda dominante da medição do PIB, mas é possível sustentabilizar o processo de desenvolvimento. É necessário repensar e
reformar a prática viciada da política brasileira, é factual que se formulem oportunidades para as novas gerações no sentido de melhores oportunidades de educação, cultura, saúde e meio ambiente. É bom lembrar que há uma Dilma que viabiliza e segura a peteca nacional com a batuta de uma dona de casa experiente, enquanto a nação se movimenta e brada por melhores dias, à custa de palavras, atos, leis, reformas, esperanças e até injustiças.
*Cida Torneros é jornalista.

  • Quarta-feira, 29 Agosto 2012 / 16:36

A Viúva e as ‘assessorias-photoshop’

Elio Gaspari*

O presidente Richard Nixon nunca entendeu por que satanizaram-no por gravar as conversas que mantinha no Salão Oval da Casa Branca. Ele sabia que Lyndon Johnson grampeava seus próprios telefones (salvo aquele em que tratava de negócios); John Kennedy gravava audiências e reuniões; Franklin Roosevelt usava um aparelho do tamanho de um frigobar. O deputado João Paulo Cunha nunca entenderá por que ministros do Supremo duvidaram da lisura do contrato que assinou com uma empresa privada de comunicação para assessorar a Câmara dos Deputados. Desprezando-se as raficâncias do comissário com o doutor Marcos Valério, o que ele fez muita gente faz.
O ministro Joaquim Barbosa classificou de “prática enviesada, ilícita” a contratação de uma empresa privada para cuidar de um assunto de natureza pública como a comunicação de uma casa legislativa. Deu até o exemplo da assessoria do Supremo Tribunal Federal, que funciona perfeitamente, chefiada por uma funcionária de nível DAS.
A comunicação social da Câmara, de um ministério ou de uma autarquia a cargo de uma empresa privada é uma girafa. Cria portas giratórias e situações em que uma mesma companhia assessora o ministro e grandes fornecedores da pasta.
Ao tempo do tucanato, essa situação era também anárquica. Num ministério, a assessoria privada de comunicação era paga à prestadora de serviços de informática. Quase sempre a colaboração derivava de apêndices de contas de publicidade. Em 2003 a Secretaria de Comunicação da Presidência de Lula era servida por uma empresa privada. Algo como a Petrobras contratar uma distribuidora de combustível.
Eliminou-se o disfarce e hoje esses trabalhos são contratados por meio de licitações específicas.
A comunicação social é um serviço público e deve ficar a cargo de funcionários do Estado.
Campanhas de publicidade podem ser licitadas, mas a assessoria de imprensa de um ministério, não.
Muitas vezes, a comunicação social privatizada cuida basicamente da imagem do ministro, numa canhestra operação de photoshop político.
Em muitos ministérios, as assessorias oficiais são raquíticas, com salários relativamente baixos, se comparados com os do mercado, mas serviço público não é negócio.
Se um servidor ganha R$ 8 mil dirigindo uma assessoria paga pela Viúva, outro, terceirizado, pode ganhar o triplo. Mais que um ministro, como bem lembrou a ministra Cármen Lúcia no caso do contrato que João Paulo Cunha assinou.
Não se resolve um problema criando outro, maior no custo e pior na qualidade. Admitindo-se que em geral os contratos de “assessoria-photoshop” custem em torno de R$ 10 milhões anuais, um ministério pode gastar mais com a terceirização do que com a máquina pública. Ademais, a assessoria do Estado é estável e preserva a memória da instituição. Nela, é falha funcional passar informações indevidas adiante. Já a terceirizada tem compromisso apenas com a administração que a contrata e lhe é extremamente difícil erguer um muro que separe o atendimento ao ministro das informações que interessam aos fornecedores.
Tanto os ministros como as empresas contratadas sabem quando o dinheiro da Viúva é gasto em projetos políticos e glorificações pessoais.
No caso de João Paulo Cunha, deu no que deu.
*Élio Gaspari é jornalista e escreve para ‘O Globo’.

  • Quarta-feira, 29 Agosto 2012 / 16:32

Eleição não rima com mensalão

Marcos Coimbra*

Ao contrário do que alguns temiam e outros desejavam, as eleições municipais estão entrando no último mês de campanha sem que sejam discerníveis os efeitos do julgamento do mensalão em seu andamento. O que já se esperava.
Em nossa história moderna, nenhuma eleição local foi significativamente afetada por acontecimentos nacionais, mesmo quando foram relevantes. Veja-se o que ocorreu em 1992, quando o eleitorado foi às urnas dias após o impeachment de Fernando Collor. Aquele que foi o mais traumático evento de nossa evolução política recente e o que mais mobilizou os sentimentos da população em nada modificou os resultados esperados da eleição. Ganhou quem tinha que ganhar, perdeu quem estava fadado a ser derrotado.
No máximo, a turbulência engrossou o contingente dos deputados dispostos a condenar o ex-presidente na votação na Câmara, pois os que disputavam mandatos não quiseram aparecer na televisão o absolvendo, na contramão dos sentimentos populares. O que teve, no entanto, pequeno impacto no resultado.
A única eleição que foge à regra ajuda a entendê-la. Foi em 1985, quando, uma semana antes da eleição, morreram três pessoas em Volta Redonda pela ação de tropas do Exército, que dispersaram a bala uma manifestação dos operários da Companhia Siderúrgica Nacional.
Nos dias seguintes ao tiroteio, todas as pesquisas mostraram o rápido crescimento dos candidatos de esquerda. Era uma eleição especial – restrita às capitais e outras cidades que os militares consideravam de “segurança nacional” -, mas o sentimento se espalhou por todo o país.
Há quem explique a derrota de Fernando Henrique para Jânio Quadros, em São Paulo, pela performance inesperada de Eduardo Suplicy, assim como a arrancada do PT em Belo Horizonte, com Virgílio Guimarães, em função desse fator. O certo é que o PT ganhou sua primeira eleição municipal em uma capital, elegendo a prefeita de Fortaleza, Maria Luíza Fontenelle, e contrariando todas as expectativas.
E hoje?
Se os eleitores foram votar em 1992 três dias depois do impeachment e já o tinham superado, se o sistema político amadureceu 27 anos depois de 1985, por que imaginar que o “julgamento do mensalão” viraria as eleições deste ano de ponta cabeça?
Nem às custas do enorme espaço que recebe na cobertura dos veículos ligados aos grandes grupos da indústria de comunicação. Apesar de seu esforço, a vasta maioria da opinião pública permanece distante e desatenta ao que se passa em Brasília.
Para ela, o mensalão é apenas mais um episódio, entre centenas, dos casos de irregularidades, corrupção, confusões e complicações que caracterizam o cotidiano da política brasileira. Nem mais grave, nem maior que outros.
No que tem razão.
Considerando as cidades para as quais dispomos de dados, não parece haver sequer uma em que o mensalão esteja sendo discutido pelo eleitorado como algo relevante na decisão a respeito do melhor candidato a prefeito. O julgamento não entrou na agenda da eleição – pelo menos, por enquanto.
Nada mais natural que os candidatos do PT não queriam discuti-lo, mas, por que os candidatos da oposição não tocam no assunto na propaganda eleitoral? Talvez por saber que pouco interessa ao eleitor, que espera vê-los discutindo as cidades e apresentando propostas.
Neste final de agosto, poucas mudanças significativas ocorreram nas intenções de voto nas grandes cidades. Quase nada mudou em relação a julho.
Curiosamente, a única se deu no sentido inverso ao que se imaginava. Até agora, é tucana a maior vítima desses tempos dominados pela obsessão da mídia com o julgamento. Em São Paulo, José Serra enfrenta o mais sofrido inferno astral de sua carreira.
Mas não é por causa do mensalão.
*Marcos Coimbra é sociólogo, preside o Instituto Vox Populi e escreve para o ‘Correio Braziliense”.

  • Domingo, 05 Agosto 2012 / 12:39

O mensalão e a imprensa

Marcos Coimbra*

Com a ansiedade de uma noiva à véspera do casamento, nossa autoproclamada “grande imprensa” preparou-se para a data histórica. O tão antecipado julgamento do “mensalão” começou.
Dedicam-lhe tudo: capas de revista, manchetes em letras garrafais, lugar privilegiado nos portais da internet, matérias especiais nos jornais das emissoras de rádio e televisão. Nos canais pagos dedicados ao noticiário, a promessa de plantões e transmissões ao vivo.
De agora até que os 38 acusados tenham sido julgados, nenhum veículo pertencente aos grandes grupos de comunicação pretende tirar o foco dessa cobertura. É o pacote “Super Premium Vip”, reservado aos megaeventos que mobilizam o País. Considerando a duração, comparável somente à Copa do Mundo.
Seus analistas e comentaristas têm dedicado ao tema boa parte de seu tempo nas últimas semanas. Os argumentos podem não ser originais, mas estão sendo reembalados para parecer novinhos. Os chavões de sempre são retirados do armário e recebem novo lustre. Parece fácil explicar o porquê de tanta excitação. Mas não é.
Se houvesse uma grita no País, a justificativa seria que a atenção decorre do desejo da população. Que o destaque que as corporações de mídia concedem ao tema é uma resposta a seu clamor.
Se fosse verdade, seria uma boa razão. O problema é que nada de semelhante existe na opinião pública.
O que conhecemos a respeito da sociedade brasileira e as pesquisas disponíveis sugerem o inverso. O julgamento do “mensalão” não tem os ingredientes dos verdadeiros acontecimentos de opinião.
As pesquisas mostram que apenas as pessoas muito interessadas em política o acompanham. Não mais que uma em cada dez sabe o que vai acontecer no Supremo Tribunal Federal. O interesse de 90% dos cidadãos pelo assunto é tão pequeno que eles desconhecem até o básico a seu respeito.
Dos 38 acusados, uma pequena parcela se recorda de dois. Pouquíssimos se lembram de mais um ou outro.
Sinal dessa desinformação é que, quando se pergunta quem é o “principal envolvido no ‘mensalão’”, o nome mais citado é Carlinhos Cachoeira. E que Demóstenes Torres seja mencionado pelo mesmo número de pessoas que se referem a Marcos Valério.
Faltam ao julgamento a dramaticidade e a novidade necessárias a atrair a atenção da grande maioria. As histórias são conhecidas, os personagens envelheceram. Não há revelações ou surpresas. Quem tinha de se escandalizar já se escandalizou.
Ao contrário da Justiça, que demorou sete anos para estar pronta para julgar – o que não é problema –, a sociedade foi rápida na avaliação do que lhe foi apresentado em 2005.
Alguns dos envolvidos foram logo condenados, outros nem sequer identificados, confundindo-se na neblina de casos parecidos. Ninguém ficou esperando todos esses anos para formar juízo.
Isso não quer dizer que a opinião pública deseje punições sumárias ou considere que a culpa dos acusados tenha sido provada. Apesar de sua pouca informação, ela tende a sempre raciocinar com o benefício da dúvida: apenas um terço das pessoas acredita que existam provas definitivas contra todos. A maioria não se sente em condições de dizer ou acha que apenas a responsabilidade de alguns foi comprovada.
Quanto à escala de seus pecados, um dos argumentos mais usados pelos comentaristas dos veículos da indústria de mídia é que o “mensalão” seria “o maior escândalo da história do Brasil” – algo que sempre sugerem, mas nunca demonstram. Não é o que pensa a população. Apenas uma em cada cinco pessoas imagina isso, enquanto três desconfiam que haja outros casos iguais ou maiores.
O principal é que a população julgou e, ao que tudo indica, absolveu, os dois alvos mais importantes de toda a história. Tanto Lula quanto o PT ultrapassaram o “mensalão”.
Será que quem tem 70% das intenções de voto para presidente está sub judice perante a opinião pública? Será que precisa aguardar julgamento e permanece sem sentença final? E um partido que recebe, sozinho, mais que a soma das identificações populares de todos os demais?
Se não é em resposta aos “anseios do País” que a mídia arma sua parafernália e se as consequências reais do julgamento do “mensalão” parecem ser modestas, o que ela pretende?
Talvez não mais que acertar as contas com aqueles que considera culpados pelo surgimento e consolidação do “lulopetismo”. A começar por José Dirceu.
Triste é ver figuras tão medíocres como alguns de seus acusadores na mídia, incapazes de gestos de coragem e dedicação ao Brasil, felizes com a possibilidade de que alguém como ele seja punido. Biografias como a sua merecem muito mais espeito.
*Marcos Coimbra é sociólogo e preside o Instituto Vox Populi.

  • Domingo, 01 Julho 2012 / 11:03

Índices e urnas

Tereza Cruvinel*

Asemana terminou com a presidente Dilma Rousseff no píncaro da popularidade, segundo a pesquisa CNI-Ibope: 77% de aprovação pessoal e 59% de avaliação positiva para o governo, contrastantes com os números deprimidos da economia. No Congresso, os aliados reclamam de descaso e centralismo mas continuam votando MPs e tudo o mais que o governo manda. E assim será enquanto ela cavalgar esses índices. Se chegar com eles à virada de 2013 para 2014, dificilmente não disputará a reeleição, mas isso dependerá muito mais do vigor econômico que da eleição de prefeitos aliados.
Os números da economia são quase sombrios diante dos algarismos brilhantes da avaliação do governo. O aumento do investimento, este ano, será de apenas 1%, contra 4,7% em 2011. A previsão de crescimento do PIB foi rebaixada, de 3,5% para 2,5%, inferior portanto ao “pibinho” de 2011, de 2,7%. A agricultura encolherá 1,5% e a indústria crescerá apenas 0,5%. O consumo das famílias deve cair de 4% para 3,5%. Se o governo não controla a variável internacional, tenta reduzir a inibição dos agentes econômicos diante da crise. Começou a semana passada lançando mais um pacote de incentivos e terminou-a prorrogando a redução de IPI para a linha branca e os móveis.
A campanha eleitoral produzirá espumas flutuantes e até alguns alinhamentos importantes, mas é preciso relativizar suas consequências. Os partidos costumam aumentá-la porque isso os valoriza e traz facilidades. Já o bolso dos cidadãos afeta a avaliação dos governos e a governabilidade. No Congresso, aparentemente, existe uma oposição minguada e uma gorda base de apoio ao governo. O que existe, em todas as legislaturas, são três blocos. A oposição, obviamente minoritária. Uma outra minoria, disposta a matar e morrer pelo governo que lhe garante oxigênio. E uma vasta “terra do meio”, que se move para um lado e outro, segundo a perspectiva de poder do governante. Se ela é grande, assentada em forte apoio popular, sinônimo de voto, a “terra do meio” encosta na tropa governista. Se as coisas começam a dar errado, reflui para a oposição e o governo começa a amargar a falta de apoio.
Por isso Dilma, atenta ao riscado da economia política, está mais preocupada com o PIB que com as chapas e acordos para a eleição municipal.

Surto de gastança
O governo pega em armas para abortar uma manobra parlamentar que pode levá-lo até a desistir de votar a Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2013. A LDO fixa as diretrizes e os grandes números da peça orçamentária. Deputados governistas apresentaram uma emenda que é o sonho do Judiciário e do Legislativo e o pesadelo do Executivo. Ela fixa um percentual das receitas correntes para o gasto dos dois poderes com pessoal. Como a receita está sempre crescendo, os aumentos salariais ali estarão garantidos para sempre. A ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti, começa o dia de amanhã tentando convencer o relator, senador Antonio Carlos Valadares, a rejeitar a emenda. Se não conseguir, haverá o enfrentamento no voto. Se o governo perder, desistirá de aprovar a LDO, o que deixará o Congresso sem recesso quando todos estão loucos para bater asas. O tamanho do delírio: R$ 10 bilhões. Quase a metade do que se gasta com o Bolsa Família.

Esfriamento
O governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB) é mesmo uma estrela em alta, mas pode ter errado o passe ao romper com o PT em Recife. Ao ex-presidente Lula, disse na quinta-feira que as brigas do PT pernambucano é que lhe obrigaram a lançar candidato próprio, apoiado por outras siglas governistas. Mas que em 2014 estará firme no apoio à reeleição de Dilma. Lula disse compreender, mas teria advertido que, com esse movimento, Campos plantou a desconfiança na relação com o PT, de cujo apoio dependeria para ser candidato a presidente em 2018.

Mal a pior
Na campanha que começa, os tribunais têm contribuído para piorar o que já é ruim no sistema político-eleitoral. Por exemplo:
»  Ao permitir que o PSD contabilize os deputados que subtraiu de outros partidos para se credenciar ao tempo de TV e aos recursos do fundo partidário, o STF incentivou a infidelidade partidária, doença infecciosa de nosso sistema. Legitimou a burla à vontade do eleitor, que vota no candidato de um partido e esse, depois de eleito, entrega o mandato a outro.
»  Ao fixar normas financeiras para os partidos, o TSE complicou a futura prestação de contas. Cada diretório estadual terá que abrir uma conta bancária com o rótulo “eleições 2012″. Cada diretório municipal fará o mesmo. Cada candidato a prefeito e cada candidato a vereador também. Serão cerca de 400 mil contas, dificultando a fiscalização e facilitando a trapaça.

Ninguém aguenta
Se um dia, quem sabe, talvez, for aprovada uma reforma política, as eleições bianuais terão que ser revistas. O calendário atual duplica o gasto eleitoral e paralisa o Congresso e a administração pública a cada dois anos. Uma saída será reunir todas as eleições num único pleito. Outra, manter a bianualidade, mas elegendo juntos o governador, o deputado estadual, o prefeito e o vereador, e, depois, o presidente, o senador e o deputado federal. Essa é a receita dos que buscam saídas, sejam políticos ou acadêmicos.
*Tereza Cruvinel escreve para o ‘Correio Braziliense’.

  • Domingo, 01 Julho 2012 / 10:43

Pesquisas demais e de menos

Marcos Coimbra*

Nas democracias avançadas, quando se fala em pesquisa, subentende-se “de opinião pública”. São tão habituais que é desnecessário explicá-las.
No Brasil, acontece um fenômeno diferente. A palavra pesquisa está fortemente ligada ao contexto político-eleitoral. Ela se confunde com a ideia de “intenção de voto”.
Nosso sistema político usa muito parcimoniosamente as pesquisas de opinião pública. Temos, por exemplo, a cada semestre, não mais que três ou quatro pesquisas — destinadas à divulgação — de avaliação do governo federal e de aspectos específicos da realidade nacional.
É claro que existem outras, feitas para consumo interno — de monitoramento de opiniões e sentimentos ou para subsidiar a política de comunicação do governo. Também acontecem pesquisas para identificar modos de utilização e níveis de satisfação com políticas particulares. São raramente publicadas.
Algo semelhante ocorre no plano estadual e municipal. Governos estaduais e prefeituras mandam fazer pesquisas análogas às que a União contrata — sempre de uso restrito.
A população só tem acesso, portanto, às poucas que a imprensa e algumas entidades — em especial as organizações patronais — mandam fazer.
É menos que o padrão internacional.
Até os maiores grupos de comunicação não consideram — pelo que parece — necessário saber o que pensa a opinião pública. Se aprova ou desaprova medidas tomadas pelos governos, se concorda ou discorda com propostas em discussão, se faz ou deixa de fazer alguma coisa.
Salvo exceções — muitas de relevância menor (“Qual o time de futebol com mais torcedores?”) — a imprensa realiza seu trabalho sem dar importância às pesquisas de opinião.
Talvez porque seus dirigentes estejam convencidos de que sabem o que a população pensa e se sintam seus intérpretes fiéis — presunção exagerada e quase nunca verdadeira, como vemos a cada vez que ela se manifesta diretamente, como nas eleições.
Por essa e outras razões, as pessoas comuns se acostumaram a associar pesquisa e eleição. O que é natural: afinal, passam meses sem nada ver além dos resultados de esporádicas pesquisas de avaliação do governo federal. Até a véspera das eleições.
Aí, são inundadas por números. Nos três meses que antecedem o dia de votar, saem pesquisas a torto e a direito. Na reta final, são tantas que até os mais interessados se confundem.
Agora mesmo tivemos um exemplo disso. Sem que tenhamos chegado à fase em que pululam, saíram duas, do mesmo instituto, sobre a eleição de São Paulo, com intervalo de apenas 10 dias.
Ambas foram feitas pelo Datafolha, a primeira entre os dias 13 e 15 e a outra entre 25 e 26 de junho. Qual a razão de tanta pressa em realizar a nova?
O único motivo seria checar o efeito da foto em que Lula e Paulo Maluf aparecem juntos, na ocasião em que a aliança do PT com o PP foi sacramentada. Se não fosse a imagem dos dois se cumprimentando ao lado de Fernando Haddad, seria algo tão banal que nem justificaria a repetição da pesquisa. Para lembrar: o PP apoia Eduardo Paes (PMDB) e Marcio Lacerda (PSB), no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte, respectivamente, sem que ninguém tenha dado a isso qualquer destaque.
A pesquisa mostrou o óbvio: que nada mudou em relação à anterior. Mas foi apresentada como se trouxesse “fatos novos”, politicamente significativos.
A começar pelo resultado mais destacado: que os simpatizantes do PT não gostaram de ver Lula ao lado de Maluf. Será que alguém — por exemplo, o próprio ex-presidente — achava que ficariam felizes?
A pergunta que interessa é outra: os eleitores do PT e os admiradores de Lula decidiram-se a não votar em Haddad por causa da foto? São muitos os votos certamente perdidos?
A pesquisa não diz isso — e nem poderia, à distância em que estamos do pleito e frente a um eleitorado ainda “frio”. Mas foi tratada jornalisticamente como se o dissesse.
Às vezes, pesquisa demais termina sendo pior que de menos.
*Marcos Coimbra é sociólogo, preside o Instituto Vox Populi e escreve na ‘Correio Braziliense’.

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